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Sábado, Outubro 23, 2021

Sobre as águas da vida o silêncio dói

Vítor Burity da Silva, Angola
Ph.D em Filosofia das Ciências Políticas. Doutor Honorário em Literatura e Filosofia. Professor Honorário de Filosofia da Educação. Professor Universitário. Investigador. Escritor.

A farda ainda por secar e o silêncio a dissecar-me de recordações perdidas em matos de ruídos e sonhos, ouço vozes neste corredor de tantas dores, sinto rebolarem sobre macas estas insónias infinitas e ainda nada, tudo é feito do mesmo e a gente aqui, uns sentados contra paredes de lona outros sobre coisa nenhuma.

XVII

Mirram-me lutuosas lágrimas de vazio, um furor incansável neste corpo de viagens perdido na sua própria essência, o luto premente a deslavar-se na bacia dos tempos esquecidos em anos por recordar, mirram-me as glórias da azia neste silêncio perdido e nem sequer eu lá, na astúcia varrida de pregos entalando portas e janelas e onde a vida? Mirram-me surfistas sobre os meus leitos derramados e eu cansado, sim, este hospício a que chamamos vida, esta rua mal vivida e nós nela como se por ventura valesse a pena ter sequer pena, recordar os sonhos torna-se enfadonho, são coisa que a gente de repente esquece e de nada ainda sequer pasmar. Ao longe a nuvem segue, mas que rumo? O frio das ostras no esqueleto do silêncio enquanto houver ainda sono e dormir compensa ao corpo esvaziar um cansaço que perdure. Esqueço os lutos e luto contra imagens que desvirtuem o meu sossego, preciso desta paz ainda que cansado viajar as ruas do meu bairro e nelas beber o meu sargaço num bar de ninguém.

A farda ainda por secar e o silêncio a dissecar-me de recordações perdidas em matos de ruídos e sonhos, ouço vozes neste corredor de tantas dores, sinto rebolarem sobre macas estas insónias infinitas e ainda nada, tudo é feito do mesmo e a gente aqui, uns sentados contra paredes de lona outros sobre coisa nenhuma.

Aqui tudo vale nada, aqui tudo é uma serpente e os batráquios a sucumbirem enquanto trepam árvores secas, sinto o calor destas tardes ainda que não perdidas vivendo-as sem sequer senti-las, tudo é enfadonho, sabes?

(s.d.), “Guerra Colonial: exército português em operações.”, Fundação Mário Soares / AMS – Arquivo Mário Soares – Fotografias Exposição Permanente, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_114085 (2020-7-26)

O peso insípido desta farda sobre o meu corpo, sinto-me despido e cansado, farto de ver a morte a viajar ali tão perto e nada, o zurzir à distância de balas de saudade com vontade de se juntarem a nós e descansarmos sobre os leitos da tarde. As cartas amarrotadas sobre a secretária e o soldado a bater-me à porta, a minha voz interrompida pelo balázio a rasar-me a alma, as macas espalhadas pela caserna e soldados estiolados, é difícil entender acredito que nada disto seja possível, as noites esticadas em todos os cantos e a insónia obrigatória ali presente,

– não viemos para dormir!

a minha memória é uma arma pacífica, recordo apenas saudades e nada mais, cansado disto e farto desta miséria de músicas buriladas na telefonia quase sem pilhas.

Estes sonos que não chegam, arrepia sentir este frio de cacimbo sem chuva, esta espera permanente e onde o fim?

Uma repetição quase todos os dias, quando o fim disto tudo?, destes dias moribundos carregados às costas de inocentes, a munição e o peso destas armas antigas, o rádio a fornecer-nos comunicação, o soldado de morse a explicar-nos,

– meu capitão, sigamos em frente!

qual frente qual quê!, nem turras nem gente, coisa nenhuma, o breu sacode-nos o desejo e a gente sem alma, perdemo-la numa esquina qualquer nestas rotas sem destino buscando o vizinho escondido nas trincheiras.  Aqui a solidão é medonha, tudo é nada de repente, fecho-me no quarto da tenda e exorcizo devagar como viajar para dentro de mim pensando em quem fica lá fora, os rumores e gritos, gemidos e ais, tudo incomoda a não sair do meu corpo e alojar-me numa bala perdida ao amanhecer.

Cartas relidas na ausência de novas notícias, pensamentos vagueiam este frio esquecido nas matas, esta raiva sem sentido nenhum e tropa de farda amorfa a pesar-me o silêncio, viajo para dentro enquanto as releio e esqueço enquanto me sentir a vivenciá-las como se fossem um presente eterno na almofada de pedra desta caserna improvisada.

Vozes a despertarem-me e nem sequer durmo, esta insónia permanente onde que combates procuramos nada, ninguém a não ser em busca da nossa felicidade que se esconde por detrás das falésias, o mar ronca saudades e luanda longe, a viagem breve nunca acontece e a gente implora,

– venha o diabo e nos leve!

o grito do soldado no jeep avariado sobre que giestas.

– acorda-me Deolinda!


Como aperitivo à deliciosa prosa de Vítor Burity da Silva, apresentamos novo capítulo do livro Sobre As Águas Da Vida O Silêncio Dói


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