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Quinta-feira, Julho 7, 2022

Sobre as águas da vida o silêncio dói

Vítor Burity da Silva, Angola
Vítor Burity da Silva, Angola
Ph.D em Filosofia das Ciências Políticas. Pós Doutorado em (Educação e Psicologia). Doutor Honorário em Literatura e Filosofia. Professor Honorário de Filosofia da Educação. Professor Catedrático. Investigador da Universidade de Évora. Membro da Sociedade Portuguesa de Filosofia. Membro da Associação Portuguesa de Escritores. Escritor.

Quem era eu não sei, o jazigo em viagem, a terra enfurnada sobre as memórias gastas de tiros e balas o inimigo escondido como eu, inimigo também, vozes sobre os ecos vadios um grito, o meu pensamento sem cal e cor e coisa nenhuma a alma arde como carcere voluntário quem quer, a tenda nunca escondida à vista do céu sobrevoa a cansada vontade de morrer com alma de guerreiro nunca fui nem nunca o quis

III

– nem sabia quem eras.

o sonho encobria-me vagarosamente num mordaz nenhum enquanto eras, arma de pranto?, eras coisa ali sentada à janela chorando prantos e o teu pai na guerra, eu num sonho pai nenhum, militar desacampado num deserto ou que floresta sozinho, a tenda de campanha abandonada, ninguém a não ser eu, o cabo Esperança sem alma, o verde confundido com lama, a chuva nevrálgica na atresia desértica desta áfrica longe e a minha mãe,

– que Deus te proteja meu filho!

o meu dedo picado a agulha enganada, ele em prantos, nervoso sem cicatriz no corpo e um carro lá fora,

– ambulância?

não sabia quem eras.

Quem era eu não sei, o jazigo em viagem, a terra enfurnada sobre as memórias gastas de tiros e balas o inimigo escondido como eu, inimigo também, vozes sobre os ecos vadios um grito, o meu pensamento sem cal e cor e coisa nenhuma a alma arde como carcere voluntário quem quer, a tenda nunca escondida à vista do céu sobrevoa a cansada vontade de morrer com alma de guerreiro nunca fui nem nunca o quis,

– queira Deus sobreviva!

um soldado sem arma amado em fugitivo,

– um cobarde!

diz o coronel, foi. Vi-os na lavra onde quimbos, onde cubatas, galinhas definhadas sem asas um churrasco apenas era fome, fome nenhuma se medo,

– Doutor, ai doutor.

a bala alojada e com calma dorme sobre a rótula de que perna,

– esconde-a se faz favor!

disse,

o céu aceso onde descansam os meus olhos de sonho ainda, a minha casa, o meu gato parido na arma lembrada e a caça onde o tio Zeca sacava pérolas.

– a metrópole, a metrópole!, estou cansado destes gajos doutor.

(voz morta!)

Que barca navio, que viagem suculenta sobre as áridas paisagens de tanto nada, a ferrugem esquecida tal a vontade de ver um leão sobre quintais alheios, um preto escorreito se gente, uma bala na testa se acertares e acertas, nem que fugir solucione, não, não nasci para isto, tudo isto é mentira juro, nunca imaginei ser parte disto nuca o fui, o alfredo fugiu e que espanha de franco o recambiou a caxias, um morto sem sangue e que bandeira o devolveu, a minha amada lá, sei lá se viva.

(1964), “Guerra Colonial: exército português em operações.”, Fundação Mário Soares / AMS – Arquivo Mário Soares – Fotografias Exposição Permanente

Aprendi a desencantar-me como o tédio, a confundir rosas com acácias, sonhar como os pássaros ao fim do dia e que deserto este, o sonho amedronta-me, acordo arrepiado e enervado e cheio de sede e fome e sei lá que mais nem como, o desencanto é o meu encanto neste desconhecido pela maioria dos mortais dispersos pelos casebres castelos ou palácios ou que raio seja, a usar uma arma como um garfo picando a carne seca vinda de mandíbulas esdrúxulas, a língua moribunda aprendi,  a reencontrar-me na criança que fui, no velho obtuso e cansado, sim, estou cansado, cansado destas hipérboles vadias a incomodarem-me, mas é este o tédio que me enerva, vozes sem discurso, palavras escuras, olhos vendados quando toca a olhar em frente, estou desencantado como o tédio. São estas simples gotas de chuva a animarem-te? Porque te calas então? Precisas de mais sol e o inverno consome a tua essência?

Morres devagar sabes, ninguém morre depressa amigo, ninguém tem pressa de morrer, vicia-te então, o vício sacia os monstros e somos desgraça, à hora do jantar tu lá, a minha mãe lá, os meus irmãos lá, à hora da refeição rezamos sentados, dormirei a seguir sem conseguir coisa nenhuma e dormir, fecho os olhos e descanso um descanso enganador, pois, aprendi a desencantar-me como o tédio!

O peso era singelo, uma régua nem tu, a imagem volúpia emergente sem ti, noites ainda nem idas nem sofridas sem que se saiba sei lá,

– deita-te filho

esta voz ocorrida ou discorrida eu deitado se sentado sei lá, queria um milagre se fosse de facto nem coisa nenhuma levantei-me e era o claustro à minha mãe à beira nem tu,

– sorri Maria

ela nem olhos, o vento bramia eu sentado sei lá, a minha irmã coitada no hospital eu sem coisa alguma a fazer,

– espere as primeiras vinte e quatro horas.

ninguém morto e havia perecido, talvez.

A minha irmã na cozinha sentada na tristeza não a Maria, somos muitos e que mais, o sangue jorra o nosso destino,

– fica aqui comigo meu irmão!

a memória deambula e regresso magoado, o meu destino sofrido esta casa tua eu nela sei lá que mais a minha é tua somos do mesmo prato e comemos sozinhos neste destempero solitário a família nunca se perde por mais que a vontade que é nómada quando assim quisermos que seja, ouço tanta coisa nem penso já, a cabeça estiola a vontade nem miolos que reflictam e tu comigo nesta cozinha da tua casa mastigando percursos.

Ainda pequeno arrulhava a minha mãe,

– cala-te!

nem calado nem quieto zorilha a minha vida eu, nostalgias infindas sentava-me nas escadas para o quintal o bolinhas comigo. O meu pequeno cão preto e branco comigo.

Um dia serei, quero ser, nem que seja um empréstimo vadio da minha sorte!


Como aperitivo à deliciosa prosa de Vítor Burity da Silva, apresentamos o primeiro capítulo do livro Sobre As Águas Da Vida O Silêncio Dói


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