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Sexta-feira, Janeiro 21, 2022

O verdadeiro unicórnio da indústria nacional

J. Norberto Pires
Professor da Universidade de Coimbra, área de Robótica e Engenheiro

A AIMMAP, Associação dos Industriais Metalúrgicos e Metalomecânicos e Afins de Portugal, é uma associação que representa o sector metalúrgico e metalonecânico do país. São mais de 15 mil empresas que empregam mais de 200 mil trabalhadores, representam 18% do PIB nacional e exportaram em 2016, para mais de 200 mercados, cerca de 14.5 mil milhões de euros (mais de 3% para fora da União Europeia).

Este excelente resultado foi especialmente obtido tendo em conta as vendas para alguns mercados no interior da União Europeia, com especial relevo para França, Espanha e Reino Unido.

Para o mercado europeu

Concretamente, as exportações para países da UE aumentaram de 10.727 para 11.471 milhões de euros, o que consubstanciou um crescimento percentual de 6,9%.

O mercado espanhol não só foi o mais importante – com vendas de cerca de 3.387 milhões de euros -, como também aquele em que o crescimento em termos absolutos foi superior (cerca de 282 milhões de euros). Em termos percentuais, o crescimento em tal mercado foi 9,1%.

O Reino Unido justifica igualmente uma menção muito especial – com vendas no valor de cerca de 1.385 milhões de euros -, tendo sido aquele, entre os 10 maiores, em que o crescimento foi mais significativo em termos percentuais: 17,7%. Mesmo em valores absolutos, o aumento das vendas para esse mercado foi verdadeiramente notável: cerca de 208 milhões de euros. Com uma quota de mais de 9% nas vendas globais, este mercado assumiu-se definitivamente como o quarto mais importante.

O mercado francês justifica igualmente uma palavra de grande satisfação, tendo em conta os dados verificados: vendas de 2.136 milhões de euros, crescimento absoluto de 1196 milhões de euros, aumento percentual de 10,1% e uma quota de praticamente 15%.

Nos principais mercados europeus, o alemão foi o único em que se registou uma quebra – de 6,5% -, tendo as vendas para esse mercado caído de 2718 para 2.542 milhões de euros. Não obstante, a Alemanha mantém-se como o segundo mais importante destino das exportações das empresas portuguesas deste sector, com uma quota de 17,5% do total.

Fora da União Europeia

Quanto aos mercados de fora da União Europeia, a evolução foi negativa na maioria dos casos. Globalmente, houve aí uma quebra de 18,6% face ao ano anterior, de 3.836 para 3.123 milhões de euros (713 milhões de euros). Esta trajectória descendente foi claramente condicionada pelo mau desempenho nas vendas para Angola e China.

Na verdade, só nestes dois mercados foram perdidos mais 500 milhões de euros de vendas. O caso angolano foi de longe o mais negativo, com um decréscimo de 316 milhões de euros face ao ano anterior. Apesar de tudo, ainda no que concerne aos mercados extra-europeus, registaram-se crescimentos nas vendas para países como África do Sul, Tunísia, México, Cabo Verde e Estados Unidos da América.

Este último merece uma palavra particular, considerando o facto de ter passado a igualar Angola como o quinto principal destino das vendas do sector.

A tendência de aumento das exportações mantém-se em 2017. Na verdade, os números de Fevereiro de 2017 mostram que

Os 10 principais mercados em 2016*

# País *Milhões de euros
1 Espanha 3.387
 2  Alemanha  2.542
3  França  2.136
4  Reino Unido  1.385
5  Estados Unidos da América  399
6  Angola  398
7  Itália  385
8  Argélia  270
9  Bélgica  266
10  Países Baixos  228

nesse mês o valor da exportações foi de 1258 milhões de euros, o que compara com o valor de 1208 milhões de euros de igual período de 2016.

Impacto da inovação e desenvolvimento na AIMMAP para Portugal

A AIMMAP está a comemorar 60 anos de existência. Organizou no dia 23 de Maio, na Fundação Serralves, uma muito interessante conferência sobre os desafios da indústria. Muito interessante porque foi um debate realista sobre o futuro de um sector de elevado dinamismo, que aposta na inovação e desenvolvimento, mas recusa caminhos fáceis e baseados em buzzwords.

É muito importante colocar a indústria e os seus resultados no debate que fazemos sobre o futuro do país. É muito importante porque a indústria cria valor, gera actividade económica e, com isso, cria emprego. Mas também porque a indústria, pela sua essência e propósito, vive de realismo e de ter os pés bem assentes na terra, e isso é muito importante num mundo em transformação rápida que tem uma certa dificuldade em encontrar e manter referências.

Infelizmente, durante muito tempo dominou a ilusão de que o país poderia sobreviver somente com o turismo e com os serviços: isso ainda é um discurso que confrangedoramente vemos e ouvimos em alguns locais do país.

Mas mais grave do que isso, essa ilusão teve impacto na política económica e industrial do país, mas também em opções educativas e de formação e qualificação profissional.

A inversão que observamos no passado recente, com investimentos mais ou menos eficazes na inovação e na promoção da internacionalização (apesar de serem acompanhados de iniciativas menos felizes na área crítica da formação e qualificação profissional), permitiu alterações significativas em poucos anos: as exportações cresceram de 28% para 41% do PIB; A balança comercial passou a ser superavitária pela primeira vez em muitas décadas; O investimento aumentou significativamente; O emprego passou a ser mais qualificado.

No entanto, apesar destes resultados e da evidência que representam, a palavra indústria, a promoção da sua actividade, o foco no reforço da competitividade da indústria nacional, o reforço da capacidade de inovação, especialmente em colaboração com os centros de conhecimento, ainda não é uma prioridade nacional. Nem está perto disso, apesar das boas palavras e das boas intenções.

Startups e indústria. Amigas ou inimigas?

Para além disso, e tendo por base tendências oriundas de países mais desenvolvidos e uma certa imagem mais atractiva (mais sexy, mais cool) de que gozam certas áreas de actividade, nomeadamente ligadas às novas tecnologias, emergiu recentemente uma outra ilusão que pode ser também muito perigosa.

É a ilusão de que as startups, as empresas de crescimento rápido, também elas normalmente associadas a novas tecnologias, podem substituir, ou ser alternativa, a uma indústria que apesar de não ter nada de tradicional, pois vive de uma relação muito próxima dos centros de conhecimento e promove a inovação, é uma indústria de manufactura que exige instalações industriais, equipamentos produtivos caros e complexos, relações multidisciplinares que envolvem várias áreas de engenharia e que, por isso, cresce de forma mais lenta, exige competências muito diversas, investimentos elevados, mas que se caracteriza por ser sustentável.

Essa ideia é perigosa porque permite antever que os decisores políticos ainda não perceberam que os dois tipos de indústria são complementares, e que um grande dinamismo de empresas do sector tecnológico precisa de um sector industrial de manufactura e transformação muito forte que as suporte e dê propósito. Os bons resultados das empresas metalúrgicas e metalomecânicas, nomeadamente em termos de exportação, mostra bem que o país pode contar com este sector, que a aposta no sector industrial é uma aposta segura, mas também que as políticas de promoção e desenvolvimento industrial exigem reflexão estratégica, a longo prazo, que não é compatível com “modas 4.0”.

Às vezes, perante as declarações dos responsáveis políticos, fica uma sensação de ligeireza, de imediatismo, como se uma política para o sector industrial tivesse de ser sexy e basear-se nas buzzwords do momento.

O sector metalúrgico e metalomecânico não é um sector constituído por startups, nem por empresas gazela, nem gera com facilidade empresas unicórnio, mas antes é um sector formado por empresas bem sustentadas que cresceram de forma segura e são uma garantia de serviço, inovação e de resultados. O unicórnio aqui é o próprio sector que se gosta de caracterizar pela máxima: inovação que funciona e que dá resultados.

Pensem nisso.

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