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Quinta-feira, Janeiro 20, 2022

Vivo como quem espera

Beatriz Aquino
Formada em Publicidade e Propaganda. É escritora e atriz de teatro. Nascida no Brasil a viver em Portugal.

Poema inédito de Beatriz Aquino

Vivo como quem espera.

Vivo como quem espera.
Como quem sonha.
Observo as ruas acidentadas. Suas árvores se tornando castanhas.
O verde se despedindo.
É preciso de uma fé robusta para atravessar invernos.
Os de fora.
E os de dentro.

Hoje fui à um miradouro.
E a paisagem não me disse nada. Parecia adormecer sobre os braços do silêncio.
É verdade que as coisas hibernam esperando que a paz floresça no coração dos homens?
Não sei.

O que sei é que dias assim cansam.
Exigem de nós um fôlego extra.
Um passo a mais.
E na aridez da paisagem, o peito inteiro vira um altar de lembranças.
De esperanças, de buscas.

O alpinismo da vida nos cega,
o ar rarefeito da subida nos confunde a razão.
E ao chegarmos no tão sonhado topo,
nos damos conta que parte de nós ficou pelo caminho.
E o que sobra são alguns membros atrofiados. E outros amputados para o avançar na caminhada.
Quantos rostos, quantos beijos, quantos nomes deixamos na estrada.

A trilha que desenhamos atrás de nós é deveras confusa. Ninguém fará justiça à nossa arqueologia.

Volto pra casa.
Não encontro solução para esse poema. Esse é um dia sem encanto. Sem nenhuma dádiva a agradecer além daquela de estar vivo.
E sei que deveria ser o bastante. Mas em dias assim permito que o cansaço cubra de cinza o meu verbo.
Amanhã estarei de pé novamente. Para observar a mesma paisagem.
E garimpar nela, quem sabe,
um pouco de luz e melodia.

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