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Sábado, Novembro 27, 2021

Ao Fundo Pitangas

Vítor Burity da Silva, Angola
Ph.D em Filosofia das Ciências Políticas. Pós Doutorando em (Educação e Psicologia). Doutor Honorário em Literatura e Filosofia. Professor Honorário de Filosofia da Educação. Professor Universitário. Investigador. Membro da Sociedade Portuguesa de Filosofia. Membro da Associação Portuguesa de Escritores. Escritor.

E por isso justamente, aguardo, lendo num jornal perdido por este jardim de frio, Inverno silencioso, aguardo pela hora prometida, ou que toque o telefone a tua chamada

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A noite surge fria aqui, e risos mais para quê, sou ainda só, sou ainda mais que pequeno, e tu aí, a sorrir porquê? Mas quando o frio aqui estiver, tu sabes bem que vou buscar daí, tirar aí, o quente templo do momento. Que perco a chance, que perco a história sim, mas que me dizem, os silêncios aqui estão, acompanhando o sol, acompanhando o mar. Tento mais que rir e só, tento mais que não sorrir tão só. E tu aí, e tu aí. Não digas, não, não digas. Estou aqui, eu aqui ainda estou, mas quando cá estiveres também, vais por ti sentir, a marca deste sol. A lua dorme já, a lua parte já, e mais de ti, nada sei, a não ser que vais. Vais, e que sentir? Onde me sentir? Não digas, não, não digas. Há horas assim, sim, horas, como as outras, sabes, já contei em tempos, as horas consumiram, entretanto, veio mais lua, mais sol, e as horas continuaram, acrescentaram a este lugar o resto que falta, outro pedaço sem ti, só tu, aí, e vais, vais. Como as palavras que esqueci, já não dizes, nem lembras, vais e ficas longe. Engoles do restante nada ser, o ser que te leva ao fim do tempo, onde estás ainda e estarás, conspurcando o sal do mar, dançando como requiem, como réptil, como amada.

Por quem ficou, do lado da margem seca a vida foi, a vida vai, a vida marca apenas restos dos momentos, réstias da saudade, da vontade, a parte engolida a sós, após o refrão o saque e sono, e sonho, e palavra, mais ainda e depois, só isso, ficou comigo o nada, que a vida conspurcou, comprou, vendeu daí a solidão até que venhas, nunca sentir a melodia antiga, outro dia, vezes repetidas sem sequência, vai, a vida aí é cantata séria, do sério sepulcro, sentido efeito e feito tudo, vai, que esperas encontrar?

Não, não esperes, nem querias mais do que nada foi, nada vai ser, nunca será após isto, este dançar alucinado esquecendo o verdadeiro desejo naquelas horas do toque vão da pele, do toque vão do refrão, dos meus beijos vendidos horas seguidas, montes de tantos sonhos que a lua adormeceu sentida.

Dei chances sim, por mim esperei, e tu nem sabes que mais, deste a ti quem és, foste mais que mim, por isso vai, vai dormir sonhando, a vida nasce aí, a vida cresce sim, certamente, em quem esperar, onde ir sonhar, o sol partiu e a lua aqui, até dormir, e dormirei olhando o mar fugir, sinto sim, sentes mais, quando já for tarde, vais também sentar-te aí, já lá não estou, já não me vês, pede à lua que regresse aí, pede e vai, a lua é tua sim, é tua sim, da chance que perdi, antes de ti, até adormecer, fica com Deus, fica até sempre, ama-te tanto assim, ao luar do teu lugar, até sentir, onde seguir, a lua aí, a lua em ti.

Saboreio o infinito neste mar de verdade, a molhar-me por completo contra as ondas, a molhar-me por completo, a balouçar e a suportar os ventos. Um barco de plástico nesta vida de verdade. Tão verdade quanto ao ser verdade sentir-te, quando te toco. E o rosto, como um barco de plástico em alto mar, vulnerável, violável, permeável, mas aproveito os prazeres do mar, engulo a água salgada e sou feliz, sinto-me bem enquanto posso por ti e quando saio de lá, tenho saudades, nostalgias. Vejo o infinito e o pôr-do-sol, bravas ondas e coloridos ruidosos, a espuma que me invade e a sua bela profundidade. Toda ela tão verdade. Toda ela, tanta, realidade. Ser um barco de plástico e na tempestade, serei abalroado, atirado às margens, destroçado, pedacinhos do meu plástico, atirados pela areia. Sim, sabes? Sou um barco de plástico nesse mar tão perfeito, tu! Entre duas viagens, ida e regresso, banhada à esquerda, como quem viaja de sul para norte, Valadares, ladeada por mar e um rio, que desce suavemente, que traz nocturnamente, beleza, de onde vislumbras com uma regularidade pura, o seu percurso sinuoso, calma, verde. Quando a floresta o absorve. O rio de Lúcia. Pintado à janela do seu sonho, pescam nele a distância da vida, os sonhos emergem na ponta de um anzol, na margem, esplanadas díspares, onde bebo café contigo, onde espreito o fim dos dias, regularmente.

Perto de qualquer parte. Soube da distância entre os eixos. Subi a velha dom Luís, caminhei como quem busca a vontade, como quem deseja amar de verdade o sentido dos silêncios amargurados na ausência, de qualquer voz ali, rompendo disfarces ou de eternas viagens, quase secando a vida, caminho, oxigeno enfim tal ânsia, o percurso parece sem fim, sem destino entretanto, e logo ali, a distância de um desejo, Porto, a velha rotunda e a direita, subo quase a estação de Campanhã, cheiro como que se as lágrimas ainda a marcarem a alma, o ruído de comboios frequentes fazem-me regressar a outro dia qualquer de uma viagem sempre real, e na bilheteira, o bilhete, o troco, sigo… esperando não sei que mais, nem mais, como quase que adormecendo, ou Lisboa nos braços, ou casa alojada e tudo assim de repente quase impossível, o perfume, soletra-me calmamente o resto que ficara ainda de ti, vieste entretanto Lúcia, num odor de colónia cara, demarcar a saudade que não parte, nunca.

Obstipada a folhagem neste relento quase puro, estendidas pela ausência das coisas nestas ruas díspares, de lado algum, ou que cidade alimentasse como embrião este solfejo de sons apátridas, suave pestanejar e resquícios ainda do que a alma resolve não largar nunca, os intempestivos passeios logrados assim num rumo de cheiros e cigarros largados à berma da vida.

Quando se sentem díspares, reminiscências talvez, sons vários entrando ou saindo, sem qualquer sentido nem orientação sobre os mesmos, apenas a única verdade sobre eles e como o sinto, na verdade, explodirem com sinos sentidos e beleza guardada na memória que recorda e reorienta de facto, qual o sentido, porque se sente e dessa forma, tal reviver como que dormindo uma falésia dos teus braços alagando-me por completo, como um anjo sobre o vértice esquerdo da janela semiaberta desta viagem silenciosa, talvez, que importa, é verdade, se na realidade se recoloca ante mim tal necessidade?

Sinto-as assim, como Casablanca junto ao berço por que passei, prováveis e quentes recordações, acopladas ainda à pele nunca ausente, fotos coladas à memória, recordações aqui, como um jasmim telúrico balouçando radiante este esplêndido alpendre quase nunca exposto ao sol destas maresias esquecidas de uma vida sonhada, janelas várias de cidades perdidas como tantos sonhos recolocados por estas praias, sob o refrescante silêncio sentindo breve o vento de Esmoriz, que nos assola a ânsia adormecida na vontade, entre os atalhos curtos do segredo desvendado, após trocas vagas como beijos enclausurados, como quem pretende na verdade fugir aos apelos da alma, sentir a cidade escoar a sirene sónica do quartel de bombeiros, perto de nós, gasolineira fugaz. A viatura recomeça a sua marcha sem mais sentido nenhum, encontrando apenas o cíclico regresso, ao lar alugado à vizinha desconhecida desta cidade inventada. Se ao menos fantasma fosse.

Sensualidade soalheira. À breve demagogia, que se espreitam, os olhos esbugalhados, reflexos inflectindo o que a vontade abarque, estrada a fora enfim, caminhos que se queiram certamente, confraternizem então os lados opostos à vontade de mais noites calados e colados, destinos ambíguos, raros, e sempre repetidos, como consequência de todos os outros actos, normais e anormais nesta recto cintilante dos teus últimos sorrisos, da portagem que filtre os meus remotos intentos, vendo na estrada ao lado, o regresso inglório do meu anterior desejo, numa fumarada esfoliante arrasando o temporal que viera mais tarde, quando chegado ao centro da cidade, não mais te encontrara sentada, junto ao sequioso silêncio de douros que param jamais, ainda que a lágrima ali permaneça até novo rumo despertar, ou a escola aberta de uma rotina que recomeça, ao amanhecer de mais esta quinta-feira abandonada em si mesma.

E por isso justamente, aguardo, lendo num jornal perdido por este jardim de frio, Inverno silencioso, aguardo pela hora prometida, ou que toque o telefone a tua chamada, sentado ali, como jovins acelerados a correria de gente solta, reparo sobranceiramente nas nuvens, júbilos a sul, seguem, gotas suaves também, marcam pingos alastrantes este chão que me suporta, escorregadio e brilhante, desfolho seguramente e com a descontracção aconselhável pelos meus próprios desígnios, noticias de orbitas fugazes, recados e desplantes, o resultado do jogo ainda na página de desporto, os olhos embargados ao fundo da página lida e relida, vezes quase infinitas, deflagrando um tempo sem horas, consumindo relentos e vagas manhãs sem dó nem piedade.

Por palavras tuas. Nova Iorque, como a distância de uma vontade. Ouvira de ti, o desejo por lá, deambulares, que sentidos nada importem, o circuito vago da vontade e caminhares por uma 29ª avenida, dos lamentos e alegrias, a tua sensível alma desperta entretanto, a esmola aqui, ali, acolá, sempre o mesmo sorriso de quem partiu e nem sequer uma despedida aqui ficara, que importa de facto tudo isso?

É como se fosse regressares, chegam fotos das Twin Towers, a altíssima elegância do longe, a passagem caminhante pelo aeroporto internacional John Kennedy, e que mais fazer senão guardá-las, aqui, à sobranceria de um simples gesto, para todos os outros movimentos prementes, ao despertar, ou quando forem de insónias as permanentes noites que se transformem, como se de um dia se tratasse, nesta cidade sem regresso de ambos, onde vieras talvez como nunca, distorcer de fantasias tantos sonhos embargados neste cais do oriente, junto ao lago ali situado, sentados os dois, calças de ganga sem cor, sei lá, entrelaçadas as mãos num recuo dos dois, quase verdadeiramente ali, entre isto e Nova Iorque, apenas o pensamento nos separa. Sobrancerias intrínsecadas, como tudo por que garantidamente passamos, seguimos, sabes que sim, dispersos, ainda que sem intenção, entregues à liberdade dos nossos movimentos, à nostalgia dos nossos sonhos, requisitados quase sempre, pelos desígnios silenciosos dos nossos passos que nos encharcam voluntariamente, afogam-se em nós outros sonhos.

E as têmporas da noite, restos embarcados nas ondas do vento, repteis e voláteis talvez, sobranceiros e empolados, roscas e alegria girando os castelos das nossas orlas embranquecidas pelo desejo silencioso à porta do pensamento, pelos comboios desta terra e terras desta gente, suplantaremos estas viagens mesmo derretendo a pele, interiorizando a vida, reflectindo como cascatas, ondas dum mar que ali dormindo, como nós, suaviza entre um ruído quase nenhum, discursa também restos da sua vida.

Como um navio selvagem, restos da aventura, gritos e sorrisos do teu corpo, ali, suado, como que espremendo-se, sob o sol, canta, a voz salpica, suplica, dita, recita, ao longe, num distante talvez, para além das mãos, dos sentimentos, resumidos os momentos, a viagem sórdida, casta, fervilhando sobre os carris o comboio azul que ruma sei lá como, nem mais, nem para onde, se para parte nenhuma, ou que passageiros mais, além de ti, tal viagem novamente Entre-Os-Rios ou da ponte colorida, a norte encarniçada pelo sol que dorme sobre ela, onde refutam sonhos, alienações, vertigens, sobe então e segue, sê mais que passageira e sendo tu, a viagem desse comboio compartilha a imensidão do mundo, o resto dos que ainda choram, dos que emparedados buscam sem que saibam como, os retractos do resto do mundo, onde visionem sem delírios o mergulho em qualquer água das ruas todas, de onde chapinham crianças pequenas, como as suas mães agarradas aos seus braços as puxem, gritam, ambas gritam, a mãe preocupada a criança feliz, e de resto, a volta, qual felicidade inebria qualquer falésia, qualquer o reflexo por diante, os efeitos desfeitos nos olhos encharcados de brilho feliz, chapinham as ostras, pisam nos peixitos, ou se existirem, puxam os navios, se houver, tocam o céu, se lá chegarem, trepam os edifícios, se conseguirem, mas saltam até onde a noite não mais os deixar.


Como aperitivo à deliciosa prosa de Vítor Burity da Silva, apresentamos novo capítulo do livro Ao Fundo Pitangas

 

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