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Quinta-feira, Janeiro 20, 2022

Ao Fundo Pitangas

Vítor Burity da Silva, Angola
Ph.D em Filosofia das Ciências Políticas. Pós Doutorando em (Educação e Psicologia). Doutor Honorário em Literatura e Filosofia. Professor Honorário de Filosofia da Educação. Professor Universitário. Investigador. Membro da Sociedade Portuguesa de Filosofia. Membro da Associação Portuguesa de Escritores. Escritor.

De silêncio pardo estas ruas fogem do toque abismal de qualquer nada por aí, espelhando por todos os quatro cantos da cidade as orquídeas sentadas às janelas

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Ainda na memória refastelada, os instantes. Como orquídeas cortantes, os espelhos do futuro nesta margem árida da vida. Alabastros reconfortados, nesta ria curva, o olhar distante e claro e directo, rumo sem ausências, buscam-se quase sórdidos até que a mão sequiosa desfaleça árida, focando a seta que me rume diante balaústres rendidos num silêncio, onde o amor se definhe como o mar. Redundante percurso, diante do vazio entrelaçado nas têmporas, o rumo a que me guiam os pés, em desacordo com a razão, ou em concreto com o vão, que me rumo garanto e sei, onde nada já sei sentir, os pálidos sorrisos penetram o horizonte da imagem que se afasta das mãos, entre mãos, dedilhar ofegantes tactos, respirares perpetrados num odor que me arroja ao escuro do percurso dos meus desígnios, a morada da razão. Sobe as escadas Lúcia. O rosto amarelado da estância, murada, enlaçada, dois picos meio-escuros içados quase ao céu, de reflexo me forçam as vistas, olho pragmático, enfim, só me consumiram as guardas da razão que me ofuscam de tocar-te, ao de leve, sem o sopro do respirar e das palavras levadas pela ânsia, quase Gondomar aos pés, a vegetação ali, árvores bramiam o silêncio dos olhos que se confortavam, vendo longe este sonho matinal.

À janela. Como se sentem desfocados das essências, dos balastros. Dos compulsivos e eloquentes desafios, partes para dentro como a alma sai da cura, e se funde ao sonho da carne que se esmera na fantasia, o Hotel iluminado, luzes afrodisíacas espantam os loiros fios do cabelo, verdes sem se verem, os olhos migram tão longe quanta a distância, ao Pão de açúcar desta rua que gira, de frente o mar, atrás, a altura sórdida da montanha que te protege e não há vento que te espante, ou mova, baloiçam como brilhos os teus cabelos, Rio de Janeiro ao fim da tarde. Vinícius Piano Bar, ouve como arrufam quase alto, as melodias que escutas, sei como adoras ouvir as notas subtis do piano que sobrevoam Copacabana, entram pelo mar e recolhem-se depois, juntinho ao teu corpo que se deita, num longínquo e profícuo silêncio. Augustus Copacabana Hotel, sei como aprecias o mar antes de adormeceres.

Encapuzo este relento de estrelas. Do refúgio do quarto ancorado nas ostras verdes deste vazio sequioso e voluntário. Como se as manhãs continuassem a remar desejos e encantos proibidos, na ostentação óbvia da loucura, que estes olhos vendados desvirtuam, na ansiedade tépida destas águas que decorrem. Pareces rio.

Frenético este ritmo insano. Sub-reptício. Este talvez ser, abrangente e sepulcral, onde se busca num reino onde se perde, sei como divaga e nada, diante um luar que se esfuma, reage como quando sem ritmo já, grita, apela poemas rosnados em ostracismos e devaneios, em pleno luar. Se efectivamente noite fosse. Encapuzar as entrelinhas da noção, do óbvio existencialismo, das quimeras e dos versos e dos fados escutados, ah… se as guitarras orquestram o futuro, seguirei os preâmbulos da nulidade que a hortense vida me incumbe. Na restante essência, como que indo ainda assim, viajar os intrépidos da azáfama, sentir que paladar este sal amorfo me vende, restos das ideias que perdi, que sejam comuns então, sepulcrais dispersões pelos teus olhos que azedam a fantasia. Diante da vernácula aberta, entreaberta de versos invertidos, e passos que se elevam ao cimo da estancia, dormitar imbróglios desvanecidos deste moribundo e sagaz bruante, sentir na peladinha astuta os dedos invisíveis dela, ziguezagueando por entre o pensamento que oscila, a restante talvez, sequência de mais um nada ali, astuto, verbal, circunstancial como tiver de ser, entregue aos marasmos do real e cativante vento mortal deste fim de estação que acontecerá, mais dia, menos dia, ou já, que seja!

De silêncio pardo estas ruas fogem do toque abismal de qualquer nada por aí, espelhando por todos os quatro cantos da cidade as orquídeas sentadas às janelas, ou de varandins inventados, para comunicar existências que se sintam, sinais que regelem intenções abruptas, que um corrimão qualquer desventre enquanto a marcha segue, ainda assim, e para que se possa acreditar, descalços os luares e despidos os prenúncios de chuva, num hotel amarrotado nas entrelinhas da vida, o varandim veste e abre de olhares vulgares, a atenção que se escuta.

Sempre que o Verão regresse, voltam de novo mortáguas áridas, diabruras de festim dúbio, ontem na marca registada dos passeios colegiais da memória, das coisas que então contavas. Sobre as nuvens secava um jasmim tépido, um ecoar árido, os portões rosnavam, ecos válidos e crus, como se refastelavam e entoavam rua a baixo, segredos e martírios, descendo a calçada ou o empedrado do canto solto das ruas esquecidas dessa cidade lúdica, motores auspiciosos, mares a caminho da órbita e do olhar, o tremer constante de que futuro se segue depois de horas assim… por que alto-falantes se anunciam… como se fossem eclodir neles restantes desígnios de um amor renunciado. Anoitece breve segregar do olhar disperso, solene fim de dia, num abarcar solitário desventre ambígua, confrangedor, déspota da sentença assumida, este lacrimejar avassalador no decote rectilíneo da noite, ensaias a viagem de prenúncios díspares, dispersos, ventrais! Súbitas rimas renovam a sentença, o prelúdio ou o êmbolo de novo irado, o âmbar súbito renascido destas ambivalências mórbidas, destas precárias certezas, o sumo fruto das nossas concretas incertezas, e cintilante ainda o ultimo Verão, na distância entre dois poros, o odor ressarcido neste nariz ávido, que busca a cada instante o ainda existente nada, o concreto ainda por realizar, ou que pousada ignóbil de várias noites recordadas aqui, neste póstumo alucinante a viagem de tantas outras viagens, segregadas como balas alojadas na alma, na cama, a parede estarrecida abomina a certeza decorada nos pasmos crus de mais um frio passageiro, em mais este vento violador e arrasador, como comigo o destino das noitadas alucinadas, mal dormidas, viciadas quem sabe, não durmo.

Silencioso decano, neste auspicioso Setembro, barulhentos os cantos, as áridas penumbras, como escoa pela tarde este rio, como se dissipa vago este pensamento, que busca intrínseco, disperso, que navega aventurado desplante e ousado descontentamento, como penetra invisível dias de glória, como me busca e repele, ou como me desventras Lúcia.

Entre balastros e ataúdes, contemplação do óbvio, visceral decote da viagem, rumos imparciais, núpcias saboreando os desígnios do além, fora de horas e das marcas, a curva das distâncias intrínsecas ainda assim, de rosto sepulcral enfatizar-te nas orlas do meu côncavo destino. Restos do hotel, atirados contra margens auspiciosas do irascível, ora venerados sem tempo, num intemporal decorrer das fatídicas promessas, das odes descritas no silencioso marasmo do ocaso, onde morem no momento, as intenções carpiam-se em si mesmas, como algo improtelável, decorável, dormindo com o pensamento num dispersado momento da vida, a dor escondida que se sente doer, chega a manhã entretanto, e da noite o resquício da amargura. De lascar as entranhas do tempo. Desarrumar como uma ventania solitária, cantos por estas estradas que o silêncio inventa.

 

(Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir)

Fernando Pessoa

– O silêncio é um fantasma.

– Pudesse eu querer. Será?

– Espero ainda, e como resposta, o silêncio…

– Tentei mais que estar calada, não pude.

– Soube da madrugada, distante, o céu rompia entretendo as cores díspares do mar, quase parecia novo, tudo à volta dormia, cobrem lentamente a voz dos teus olhos, pálidos de silêncio.

– Como se estivesse eu a escutar da natureza, os contornos da voz, do tempo, parecem rios a deslizar canais da vida, rompendo as terras, montes, como quem procura um abrigo, um porto de chegada, o abraço ou o calor para uma vida, que se quer começar…

– Sinto o teu olhar telúrico, empalidecido, refrescado, com uma profundidade longe, rompem fronteiras, barreiras, abrem o futuro…

– Sim, sou como permanentes viagens, sinto tudo isto como por todos os lugares por onde viajei, outros por onde sonho viajar ainda, como sentir-te em Praga, Nova Iorque, resquícios solenes de qualquer Danúbio, ou sobre esta D. Maria, ponte velha, silêncio histórico, lugares por onde caminhava em tempos, sobre a água nocturna dos meus desejos, a intranquilidade dos meus momentos, gestos e gritos, apelando medos ressarcidos, porque fujo, sabes? Não sei se será isso, não sei se será não querer mais que a verdade, ou como foi sentir-te em tempos numa Grécia linda, carregada de história e pedras, coisas dum lugar que a história leva até ti, ou seria assim pensar-te também… na intemporalidade dos lugares, poder sentir que estejas lá também, estejas ou não, ou que me carrego em ti, que seja neste Porto antigo, ou belo, sinto ainda as águas do douro, quase a convidarem-me a fugir do belo que é estar contigo, lá, onde estive sempre, sem ti, ou só contigo… mergulharei nele um dia destes, poder vestir a minha alma com os restos do que sinto ainda, mas não quero, e preciso, como um calor refrescante de ti, sem que lá estejas… vou…

– Fantasma… rugidos do nada… ainda assim, lindo o silêncio, das noites inebriadas na forasteira cadência dos meus olhos, a alongada presença do meu pensamento, na varanda dos teus pensamentos, encubro lentamente a distância, vendo o rio repousar, quase noite…

– Que esta liberdade se materializasse na carne… rasgaria as grades disto tudo, voaria céus imensos, ah… sou e serei estúpida sempre, perco sempre, nem imaginas, acredita, como é sentir-me sempre na badanas da derrota, nos prelúdios de quem nunca sabe como romper as orlas da vida, assumi interiormente ocupar na vida este vazio que me preenche, com as dores dela mesma, o que de facto comprei, bem caro, a vida sem sorrisos, sorri apenas segundos, quando em ti vivia a minha ânsia, que fugiu, não, perdi, será? Não soube guardá-la onde queria mais que tudo sentir-te, não me sinto traída, mas garanto que sei como estou perdida… assumi mal o que tenho, e vivo-o…

– Na viagem. A meio, quase fantasma, bela a rua principal, dizem, decorada e sombria, iluminada a breves trechos, preenche o espaço por entre as mãos, sorridentes ventos, restos de felicidade, num condomínio privado de salientes relvas, abrasiva verdade, coberturas díspares, como a garagem real depondo ecos da viatura arrumada, estalos de fechos e sons de respiração, caminhas em direcção ao interior da manhã, como quem lá espera por ti, anseia ver-te, radiante… a maresia das tuas faces, elásticas, rosadas, sorris…

– Por que janelas vejo a rua. Porque sinto a brisa. Onde moro nos instantes limites, das minhas ânsias rudes, sei lá, preciso de ser tantas vezes displicente comigo mesma, desinteressada com a rotina destas tarefas antiquadas, sempre resignadas, às vezes, vontade de rasgá-las, atirá-las para longe dos meus braços, prende-las na estrada, como bacalhaus estendidos pelos postes que às vezes iluminam tal cidade, sentenciada nas minhas raivas, vertigens quando conduzo, miragens quando me sento aqui, de frente, o vidro, a rua abandonada, alguém disfarça por que razão não há vontade de ser mais, ser menos, a ruído depois de tudo chegar, todos aqui à volta das minhas heresias. Preciso das alucinações que me fazem encontrar curtos segredos de verdade que encubro, na orla do tempo.

– Fervem as florestas neste país que queima. Esta cidade, de um beiral sem cor. De recantos e silêncios, seria Viana, Viena, Villarreal, Valpaços, Valbom, percorrida esta estrada vezes sem conta, inúmeras passadas na borracha deste veículo antigo, sem as árvores, sei lá, acredito suportar sim, não contar com elas, as árvores, que ladeiam esta estrada por onde passo quando te busco, à esquerda um jardim fantasma, havia ali estado creio, contigo a meu lado acredito, e víamos fingindo dois namorados que ignoram até a chuva solta, sobre os cabelos esquecidos do tempo, da hora a que se devem abandonar, ansiar outros dias e caminhar, separadamente, como sempre foi, ires de vez até não mais voltares nesse dia, sentir o cabelo entrando, perturbando o olho, o esquerdo, o direito, sobre as narinas que nem sequer se sentem incomodadas, e tu vais. De repente parece até ter eu acordado, gritando… Lúcia! Valadares já dormia, que linda é esta cidade… como a terás tu descoberto?

– Pensei dizer-te como, um dia.

– Não irias descobrir, foi como pensei sempre, sabia como não podia esconder de ti o verdadeiro nome destes nomes todos, Valadares sim, é a minha cidade, aqui moro e tu cá estás, continua o teu sono, vai…


Como aperitivo à deliciosa prosa de Vítor Burity da Silva, apresentamos novo capítulo do livro Ao Fundo Pitangas

 

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