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Segunda-feira, Dezembro 5, 2022

Ao Fundo Pitangas

Vítor Burity da Silva, Angola
Vítor Burity da Silva, Angola
Ph.D em Filosofia das Ciências Políticas. Pós Doutorado em (Educação e Psicologia). Doutor Honorário em Literatura e Filosofia. Professor Honorário de Filosofia da Educação. Professor Catedrático. Investigador da Universidade de Évora. Membro da Sociedade Portuguesa de Filosofia. Membro da Associação Portuguesa de Escritores. Escritor.

Nas areias perdidas o tédio sente-se. O isolamento é doloroso e só o movimento das ondas deste mar salgado chega até eles. Os pés gretados e as mãos doridas.

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Pensar no presente é não ter saudades. Esquecer. Se ao menos houver na mente algo existente, que recorde que futuro nos traga recônditos passos e um mar onde consiga navegar, aquele, o de sempre, que foi já passado, que seja também no futuro a mesma água que me molhou sempre, onde naveguei quando ainda em Inocêncio, o marinheiro, que nunca usou farda por nunca ter sido militar, mas marinheiro solteiro e déspota com todos os vagares, saudades sim, essa tenho eu, essa que me trás as inconstâncias residuais nos meus escombros de quando ainda as mãos de Lúcia se passeavam nuas e cruas as artérias da nossa vida, e desta casa os compartimentos da minha solidão agora, ele surgiu vagarosamente trazendo quem nunca fui. Não terei dor mais, que seja, se conseguir assim viver, que viva então, que queira então suplantar os piores momentos de todos os estados e circunstâncias, e todos os passos e todas as pessoas, Maria rasgada na maresia de pescadores aqui, refastelados numa embriaguez vulgar.

Nas areias perdidas o tédio sente-se. O isolamento é doloroso e só o movimento das ondas deste mar salgado chega até eles. Os pés gretados e as mãos doridas. Garrafas vazias espalhadas por todos os lados, o lixo expressa-se como rosto de abandono. Que fim de dia tão amargo, amargo destino, silêncio, sim, já ninguém procura afecto, procura carinho, todos se refastelam saboreando apenas o que do mar vem, as ondas que irrompem areia acima e trazem a única frescura conseguida ali, num restante doloroso de vida, talvez perdida de vez. Tenho de me retirar daqui. Vou mesmo sair e seguir, evito voltar a verificar coisas como as que aqui estão. Aqui a vista apenas consegue ver o mar, até a vista não mais alcançar.

Procuro ainda a casa onde ninguém esteve ainda. Com ou sem campainha, que remédio terei, terei de bater os portões. Talvez a longa marcha me tenha ofuscado, talvez, digo-o com uma certa convicção, talvez, porque se há certeza de estar ou não junto ao portão, ou imagino essa sensação, o portão está longe ainda, verdade, será? Carrego e nada ouço. Sem campainha quase me apetece arrombá-lo, violá-lo com a intenção de me colocar pelo lado de dentro, nas mãos do acaso, será? A não ser que me engane mesmo, a não ser que Lúcia tenha já abandonado o que nunca se conseguiu combinar, acertar. Melhor assim, nunca me pareceu que as coisas previamente marcadas tivessem melhor resultado… ainda assim, insisto no inevitável… ter de esperar ate me fartar do nada. Ou do todo nulo deste peso anunciado.

Quase noite, sentia uma brisa nómada resvalar-me as ânsias, parecia ser do frio, pensei ser nada, chovia longe, na alma a dor cansada, nas ruas a confusão do tempo em tempo de crise, manifestação sobre desemprego, gritos sobre polícias descontentes. As águas, como sempre, com ou sem vento, sem ou com gente, as lágrimas, que importa em que rosto, que adianta por quem ou sobre quem, os latifúndios, as agrárias reminiscências, os incultos e apolíticos, os gritos vindos da alma, sinto sem que saiba a ânsia bater por dentro um apelo que vinha vago e de longe, Desculpe, haverá onde possa eu passar esta noite aqui perto? Cheguei neste instante e nem sequer alguém conheço… uma pensão, hotel talvez não, algo simples e de pouco custo.

Estranhei de repente este pressentimento, reagi sem me aperceber, sem reagir e agi dizendo, Quem és? Que cara tão estranhamente conhecida… que queres? Repete, Sou Marco e vim de longe, quero apenas passar esta noite em repouso, vim de longe, nada conheço por estes lados, preciso de uns momentos de repouso, falaremos outra altura, indique-me por favor onde poderei ao menos passar a noite.

Tentei ser útil. Indiquei mesmo não sabendo. A rua mostrava o lar à esquina, ou alguém além, seguiria o mesmo que havia eu tentado. Marco seguiu e ficou, quase garanto, num lar que pretendia. Maria vestiu a noite. Maria sorriu comigo. É noite de amor. As portas da vida cerradas embaciavam o meu mundo.

Continuei caminhando. Andava sempre por ali aquela hora, dispersando os sonhos e os amargos dos momentos que perdia. Procurava nesses momentos afastar-me e encontrar-me, algas díspares dos meus sonhos nos braços que perdia, a maresia alienava a distância dos meus sonhos, sentia presentes os meus desejos de mim, enquanto permanecias nas entranhas da minha, vadia, vaga, presente, camuflada e na realidade, buscando-te, quem sejas e prepares como eu em mim, um lado de nós, um no outro, enquanto distraidamente chegava de longe e era ali eu, que fosses também, o mesmo reflexo dos nossos âmbitos e movimentos… pareces-me bem Lúcia… enquanto o mar aqui, nesta Lisboa, percorro as margens desta brilhante saliência, As ondas triviais de onde me chegas branda e calma, pensando como seguir contigo, um interior de mim, as nossas mãos unem-se… sentes-me? Ou serei claustros de Maria? Ou serei sorrisos que se explanam distraidamente a falésia de beijos. Um navio atracará ruas e destinos do meu corpo, que navega as ruas do tempo, perdido num templo de sorrisos onde procuro sentir-me, onde sei ter-me perdido, onde estarei a hora que vieres? Não espero do mar o teu sorriso, não perpétuo na distância as portas do teu lar, eu enclausurado num destino de ruas interiores, da minha sagacidade psicológica, buscando quando me sentir cansado um conforto real, nestes bancos de vista para o mar.

Das tuas portas cerradas num antigamente presente num futuro que busco e deixei, ou quando a minha voz entrar as cálidas janelas semicerradas, ocupando este quase frio de tarde terminada, porque sentir ai o meu caminho, quando da busca o distante me ocupa e desfalece, quando não sei onde me quero e me perco, não, talvez queira mais confundirem, conturbar as essências do meu intrínseco tu, lendo um jornal antigo as noticias de quando chego e me apresento às tuas preces, vem Maria, vem.

Há que continuar. Onde largaremos o futuro e os espinhos do momento. Há ainda assim memórias. Como tantas. Detestá-las, a impiedade da terra que nos cobre quando indefesos e mortos já. Nem mesmo da mão que antigamente se colocavam sobre o meu, transmitindo-me o teu calor com uma simples frase, me demonstrasses aí com uma simples frase que não, que estava só, Vem olhar comigo as estrelas consteladas no infinito belo desta noite… se inventássemos um estar solene aqui?

Tanto mar e nada. Nesta casa invadida pela ausência, onde as ervas quase fantasmas me rodopiam a pele, cercam o pescoço e cobrem os olhos completamente, tendo assim que fazer um esforço maior para me recolocar, os azulejos brancos já vencidos pelo verde do velho canto que era antes, local de duche.

Sei que devo continuar. Sempre acreditei nas profecias do velho Inocêncio, mesmo hoje, ou navegue interiormente e viaje por todos os cantos de mares descobertos numa óbvia ausência, que seja, do meu interior nómada, ou constrangidos silêncios descubram onde, do momento, nem mesmo agora na pele dele, onde há sempre um silêncio que não se explica, anoiteceu por lá. Parece ter sido mais cedo que o normal. Fiquei pelo menos com essa sensação, mas não me incomodo com isso, aceito as belas trevas do crepúsculo, um iluminar urgente das coisas que vou vendo, das coisas que vão entretanto surgindo, ao aproximarem-se do meu campo de visão, debaixo dos candeeiros anónimos e abandonados, e esquecidos, com uma saborosa iluminação. Mais adiante, Lúcia mantém bem cerrados os portões, colossais e de imenso ferro, parecia estar resguardada de ataques militares, tal a imensidão e o aparato da sua guarda. Porque será isso?

Havia por aí, disperso quem sabe, perdido ninguém sabe, havia, isso sim, sei, e mais do que isso, nada, havia e não sei que mais, mas o meu sorriso não.

Jardins, entrelaçados com o silêncio, charcos azedos a chapinhar no medo, rostos quase já não, vento e pouco mais, fantasia e eu, a entrar onde não cabia, sair de onde não me deixavam, segui e claro, nada mais que ser um havia por esses cantos redondos do entretanto, do nada todo e nenhum sentido, segui, como se fosse importante o meu rosto, ou valesse muito o meu havia, fui, ate que enfim, cansado, encostei na berma a minha nenhuma viatura, sem portas para abrir nem tão pouco para fechar, procurei colocá-lo a sombra, e protege-lo por não existir.

Havia, fui, degraus do desterro subindo, degraus sem aterro descendo, como menino ali, Havia, eu, senti que a liberdade não tem cor nem espaço, mesmo querendo inventar mais que ser livre, a escadaria suave e fria, as vezes quente, o esplendor de ninguém comigo que me sorria e eu sempre sério sorrir não queria, porque não sabia, mas seguia, sobre a escadaria do alem e dos vários tantos quase nadas ali recriados, sobre o que escorria dos varandins e dos jardins acima da cabeça, sem me cobrir, sem refugiar, espezinhava as calçadas e todos os passeios ultrajados de noiva, como eu ali, Havia, queria apenas vadiar a minha alma numa liberdade sazonal, num gesto invulgar, não para mim, apenas ao olhar de quem me via, ninguém ali existia, nem o meu rosto, nem eu, nem tu, ninguém, quem sou ali, Havia… sim, sou. E nada mais serei enquanto poder ser nada.

Ao longo da rua os meus passos ouviam-se. Sentia ecoarem quase no peito, largava as mãos quando me sentia preso ao vento, das vozes largadas bem longe, entre a folhagem que tombava a madrugada, longe o céu também, num mar de estrelas, num mar perdido entre as nuvens, num mar ansiado por dentro de sonhos que armam a minha calada caminhada, que não se percebe, ou entendo que destino, amarrando a ti as mãos soltas de mim. Quase sempre desaparecia e mesmo assim não me fazia perder dela coisas sempre antigas, o eco da voz nos ouvidos após um jantar, Lúcia, leva-me como aos pratos, as roupas, o lixo, ou as caixas das garrafas vazias nesta sala vadia, e ria parecendo ser verdade, aquele chocalhar de pratos sujos da refeição finda.

Enfim. Momentos descritos na orla da mais ínfima depressão. Ou no mais recôndito silêncio da noite. É como escrever e desprender quase surpreendentemente os resquícios escondidos do sangue, que se espanam escondidamente e assolam com certa dor, fingida, simulada, disfarce além do olhar e seguir engolindo o sal amargo. O sal doce. O sal destas paredes que não existem ou que se lixem, quando a memória procura e não encontra ou quando evita e foge e não se liberta, tem colada em si determinada azáfama que certamente nem percebemos de onde vem… enfim. Sem portas. Talvez. Repleto de um escuro inventado e gritar, ou que consiga ouvir-me e socorrer-me. Fazem doer-me os ouvidos estas águas estranhas escorrerem assim tão bruscamente por detrás das minhas costas. Fazem-me confusão os tiquetaques horríveis deste relógio de ninguém, ou da estação dos comboios desta cidade velha e suja. Como eu. Por dentro, as mãos içam saudades e buscam dentro de mim a fome de não ter vontade da refeição que arrefece num prato ignorado, quem sabe se é… enfim, ou mais do que isso, esta terrível dor de cabeça que me faz confundir as horas e as chuvas, sim, começam as primeiras gotas deste Dezembro em lugar nenhum e vens entretanto, como a chuva, quem sabe, e é por isso que chegas, vens como a chuva e com a chuva trazes a única solução que tenho para eliminar de vez esta sede que tenho e não sei se na verdade a sinto. Não tenho na realidade portas e essa sim, a preocupação maior de como me desenvencilhar deste claustro e passar estas, que acabam por ser barreiras, e sair, lugar escondido da luz do sol e branco, ou escuro, ou de cor nenhuma e impotente perante a minha raiva e gritos, que ninguém mais a não ser eu os ouço, gritos nenhuns, tenho a certeza, exactamente por não ter certezas e nem tão pouco saber como os evitar, ou devo arranjar como me enclausurar mais ainda nesta falésia viciada de paredes sem cor e horizontes nascidos para dentro do meu olhar que se brilha, nesta distância e vontade de coisa nenhuma, ou apenas e só isso, uma vontade que queira e não consiga, apesar de me esforçar e estrebuchar, sem conseguir, ou pelo que pareça não conseguir, enfim, abrir os olhos e desvendar que mar me assola as manhãs e mergulha a minha alma que te busca, que pesca, que vadia, que perde a cada instante que me experimente saltar nas areias escondidas e soltas nesta rua fechada de quatro paredes e sem janelas, e das coisas da rua apenas os sons aqui chegam e nada que o vento traga me chega, enfim, que serei? Onde serei? Onde estarei agora que não consigo mesmo abrir os olhos e desvendar qual calma e deslizante falésia me leva, suavemente, perdidamente, o desnorte deste mote emulado na garganta dos meus aprisionados sonhos e quatro paredes que cercam as ruas, da cidade onde me perco.


Como aperitivo à deliciosa prosa de Vítor Burity da Silva, apresentamos novo capítulo do livro Ao Fundo Pitangas

 

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