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Segunda-feira, Setembro 20, 2021

Ao Fundo Pitangas

Vítor Burity da Silva, Angola
Ph.D em Filosofia das Ciências Políticas. Doutor Honorário em Literatura e Filosofia. Professor Honorário de Filosofia da Educação. Professor Universitário. Investigador. Escritor.

Um dia, o desejo de partir num voo rasteiro arredondando a falésia como a cor dos flamingos, ao longe, largar este cansaço na alma, ou este arrepio vulgo na pele.

9

A uma distância nunca imaginada. Sinto, sim, reflexos breves, sortirem como calçadas, um país repleto diante olhos vendados, com gratidão Lúcia, que importaria afinal repetir ecos, cidade na mesma ainda que diferente, só que de facto a tua. Que significado. Isso sim.

Vendada sim. Ai como foge lesta a idade. Ai como se perde assim o caminho, estrada esta, onde findará?

Do outro lado. Da estrada. Do lado de lá, repleta, exposta ao vento e às circunstâncias, de lágrimas vandalizando a derrota, serpenteava estrada fora, o ruído de automóveis por desligar, parecia a pólvora subindo, quase já se viam as nuvens.

Por isso digo… vendada… já nem mais me recorda desse dia… que me terá passado pela cabeça? …

Não sei… ou de uma madrugada que nasce súbita, descendo o horizonte ou porque trevas, a cada giro do olhar espalhado afincadamente, vendo júbilos de silêncio como pássaros voando, não sei… permanentes sempre as viagens inócuas carimbando a palma de cada mão reflectindo em todo o corpo, tudo quanto foi sincero, o que de mais garantido fica, a certeza da nobreza, como pássaros pelos fios que trazem ate a cidade a iluminação de mais e mais noites, como quando recebi o telefonema de Creta, mãos de grega felicidade, risos de Jerusalém, mesmo lá, a ausência ou presença, não sei… ou serem lábios reencontrados sempre que cada momento reivindique o contrario do que for o contrario do que tiver de ser, quando se explanam e estendem pelas janelas da verdade as memórias de tantos instantes, vertentes de cada momento, se esqueces, apenas isso, se esqueces, não sei… ou quando a áurea da tua alma se abre aos caminhos libertados da vida atirada a cada desejo, da própria vida, ali, onde quem quiser veja e sinta, onde todos possam testemunhar qual veracidade incutida como prelúdios da razão, não sei… ou serão como sempre foram o mesmo que sempre desejamos, intemporalidade da vida nos mais diversos lugares de sensações, psicológicas realidades ali alicerçadas pela única, nua e crua, verdade, Fortaleza da foto neste quarto único da vida. De sol abrasivo. De mar, enchendo os fundos da alma, como se me sentisse a abraçar o mundo num assopro sem crueldade, torneada vaidade esse corpo teu, no horizonte de permanentes sonhos, Lúcia, não sei…

– Esses ditongos abrasivos e avassaladores. Esses rios compridos que levam a cor dos meus olhos, dispersos, lúdicos, quase formando na estratosfera a viagem de todas as vidas sentidas na superfície das águas, que vagas, vagueando sinceras, com os sorrisos guardados no mais profundo do âmago, carregando mais e mais a estadia desta fantasia sobre a nuvem, ou no limiar de Barcelona castanha em pleno dia. Danço-me secreta como Rio de Janeiro. Um dia será assim, carnaval qualquer.

Em frente, o auto da barca do inferno, num jasmim telúrico, rodopiado por contornos luzidios, enfeitam-se tolerantes gritos diante da casa, a calçada rompia ligeiramente pela tarde, soterrados os passos antigos e por onde havias passado, a letargia dos lençóis cálidos sorrirem, linho argelino, decorado suavemente, saltitantes cores árabes preenchem os quatro cantos, dormias efémero o mais longínquo silêncio.

Olhos de cor italiana confundem o horizonte. Aqui perto, a estação do oriente leva as mazelas da partida. Resta o saco vazio e o peito quase rebentava, acenava displicente, quase fingia não ver a cor dos últimos momentos, repletos silêncios ocupam os instantes seguintes, como desabar o mundo, quis novamente sentir Lisboa, o arrufar das imensas atribulações, o galgar das insanidades preenchiam tamanha dor, tu em Roma e eu, impávido, nesta cascata velha de cor nenhuma, pensando no que restava deste rio de fim de Verão.

Cansaço, sim, cansado deste eco surdo a rebentar-se-me sobre as têmporas.

Um dia, o desejo de partir num voo rasteiro arredondando a falésia como a cor dos flamingos, ao longe, largar este cansaço na alma, ou este arrepio vulgo na pele.

Se o sargaço tivesse a cor do bagaço, outra ideia qualquer por onde nem sequer o horizonte repouse, como esta força que sinto faltar-me nas pernas, o pêndulo avariado nos arrumos silenciosos e imundos da minha casa estuprada e fria, ou como quando alguma coisa se sente nada.

Talvez um tédio me mate um dia. Um dia, o desejo será a alquimia dos meus restos alicerçados em pedaços de existência abandonada nos quintais dos mortos, onde que jazigo me alojem os ossos mais secos e duros que a imortalidade dos anjos.

Em que voz me repito?

Mais morto, só mesmo estando vivo nestas ruas aniquiladas onde quem haja nada sendo, um relógio de estação de comboios, pendurado no verde antigo das paredes esquecidas e não há silêncio, de hora a hora o toque que determina uma hora mais, tempo passado assim, não faz mal, vê-los partir rangendo nos carris a despedida dos que vão, sentados na fantasia escura dos vagões com destino ou nem isso, sei que sim, de pedra este banco onde encosto os marasmos da minha consciência corroída pelos amargos de boca do meu corpo frio, ao relento, despedido de todas as certezas que possa imaginar.

Em que voz me repito?

Penso. Não pergunto. Não há perguntas abandonadas à chuva como a árvore que se mexe em rebuliços quase se parte e não cai, um dia será heroína deste vendaval avulso de movimentos em carne e osso aos solavancos consigo mesmo, creio, e porque não?

Como espectros melancólicos. Como estes mares que viajam as minhas almas, onde possam as minhas ideias repousar num horizonte, onde possa buscar uma calma suficiente como pretendo tantas vezes, dissipar em todos os momentos, como estes ventos frios que assolam as incursões solitárias das minhas manhãs, todos os dias, numa proporção suficiente, equilibrar lentamente os desígnios sóbrios do meu silêncio.

Abro as janelas. Tentando talvez refrescar a iluminação interior de todos estes cantos, ligo em volume bastante alto algo de Vivaldi, espalhar ansiosamente por todo aquele momento sons de violino, numa sessão ininterrupta da mesma faixa, ou sentir como ele na voz, Anna Giroud, que não encontrei, apenas a vigem deste belíssimo som, as quatro estações, me recortava lentamente, de olhos virados para Veneza, o rio esculpia os contornos da cidade que adormece diariamente diante da sua paz.

Ao adormecer talvez já tudo seja passado. Nos escombros. Nos porões. Nos portões. Ao cimo de prantos aligeirados no refego seríssimo de que vozes, uma certa ideia li, colada com colas de forno ao aquecer, sei lá, quando se é certo uma certeza que seja mesmo que nunca, uma janela desperta pelo meu sangue sem gente, a mão de diva talvez num beijo de dedos espetados neste resto que dorme à deriva, acredite!

Por entre portões de ferro um silêncio a cânticos de frio, sei lá, incertezas aglutinadas ou quimeras, dizia quem escrevia um poema vendido em leilão, numa feira do livro ao abandono um indivíduo qualquer quem sabe por não saber ler, diziam as línguas ali alojadas no balcão onde se vendia Saramago ou que outro não me importa, sou assim, desligado dessas meninices de vedeta, acredito, acredito nos meus desígnios forasteiros de invenções escritas e lapelas e ventres e desejos e fúrias num clima repleto num silêncio em que eu, longe ainda, ousava pensar e não posso, não me adiantam nada ideias que sejam o que quer que seja.

Qualquer filho de puta o inventasse e o ouviriam, sei.

Chegados os últimos sons desta resposta ainda na sala, ninguém soube enfim, eu, perguntava aos desígnios da minha voz acoplados no resto talvez escondido num marasmo de raivas que me levam como quem voa mortes entre salas e marés, descendo a areia do sótão deste amor sem vozes diria, e que falariam um amor de escombros amontoados no peito despedaçado num resto arrumado para mais tarde tu lá ires e pegares com mãos de fada e renasceria uma ave de asas brancas como um anjo de peito para ti a aveludar-te direitos e que mais, razões aos magotes, bastaria para isso dizerem-te o que chegaria.

Qualquer filho de puta me arremessasse desta noite em que me julgava no teu colo um dormir mais descansado e não.

E na feira do livro aquele traste resignado pela dor que o impunham os dogmas, lia bem alto um resto que entendi mal demais para o citar mas senti, entre linhas, uma voz fugida da cidade, mera coincidência repleta nos galinheiros espartanos dos espertos que não dormem ouvindo os que querem um sono repleto de paz e vida na família dos seus dotes na pela e na cama e na sala e na rua e enfim, ate que a morte os chame.

Senegal. Senti chegar o ritmo do fim-de-semana quente. Odores tropicais refastelando-se como qualquer outro instinto, o verde seco já sob um sol imenso, como gostas de estender a tua singular beleza ao sol… como sorris esses lábios umas vezes espelhando felicidade imensa, outra tristeza peculiar de alguém, que como tu, prefere tantas vezes, regressar a casa numa calma particular, sem cumprimentos nem olás, passando ainda assim breves olhares à suave margem dum rio ali perto, junto à estrada, ladeando o silêncio tantas vezes partilhado pela alegria, melancolia, dos sorrisos e confidências entre ti mesma, e só tu sabes como calar esse grito abafado e guardado nos pensamentos que levas, talvez sempre, aos últimos momentos de vigília de mais uma noite. Outras se repetirão certamente. Todos os dias.

Entre cacos deambulantes num ruído de estilhaços o meu grito, os dedos feridos numa dor de dentro, para dentro o olhar perdido nesta floresta de reflexos e efeitos o meu rosto desaparecido nos enxames abertos ao estoirarem-se contra a minha face desabitada e sem pronúncia, esta maresia rangente no fundo de qualquer silêncio molhado a cobrir-me a pele de toadas e atoardas como se uma melodia a chegar devagar pelas colunas do fim de tudo deste rádio sem nada a dizer-me.

Talvez pelas madrugadas me sinta voar nos rastilhos inventados do meu desassossego num breu que estoira como vidros ao tombarem desamparados pelo soalho deste tédio esquecido e sem rumo, onde nem sequer quem nem dono me deite a mão, como se por ventura o vidro fossem os meus membros desfalcados e desprotegidos, a caíres sozinhos na cor côncava da sala que me regela, numa dor fenícia, pelo deserto, pelo concreto azedo das tuas palavras que naufragam razão nenhuma e eu, sobre a areia branca do templo que me engole aos pedaços como este vidro estiolado e doido e como doido, escutar nem consigo estou perdido nos azedumes irracionais do meu mais concreto caminho a levar-me nesta estrada ao fim da vila a arder nestes fogos férreos de mais Verões que detesto, detesto, garanto, estes ensinamentos de convénio, esta plateia de igreja num rum-rum de morte e morrerei ao amanhecer se assim me quiser Deus levar sem purgatórios ou sentenças por ter errado cem por cento da minha vida.

Da janela sinto o ar fecundo dos meus delírios como pássaros na estrada a debicarem restos de nada, numa capacidade única de verem espalhados sob um olhar microscópico os despojos de mais uma noitada varrida a loucuras desperdiçadas num apogeu de vadios sossegadamente no alpendre do tempo. Far-se-á dia um dia, desde que acorde deste empedrado sono de sonhos rasteiros a refutarem-me contra mim talvez se assim for, e que seja, palavra de honra, sem dor nem mágoa esta mácula infinita sobre o rosto perdido vendo quem passa sobre as folhagens por secar estatelados na ribeira de alcatrão da via, até que algum buraco forrado a ferro o dissolva ou engula num ritmo de pianos perdidos na solidão do seu próprio sonho e arderem se for no fogo dos cigarros consumidos ao longo do tempo.

Nesta maresia rangente o mar devora-me. Aos solavancos, nem em barcos a minha alma repousa como a alma do gasóleo o move levando-o ao fundo num longe tão primário como tudo que nos faz andar sem destino, sigo a falésia perdida do momento enquanto este suor estripado me fizer cansar os membros refastelados na janela cinzenta do meu ímpio aposento e cansado, na areia do meu destino ousado.

E a cidade onde moras. Onde estive ontem, hoje, e estarei amanhã quem sabe, quem mesmo poderá dizer-me ou que seja na mesma impossível, cidades há muitas sei, ou que possa em qualquer momento reinventar como lá estar, beber à beira-rio um café qualquer e contigo falar imensos momentos, períodos inesquecíveis espalharem-se pelo dia, movimentam-se as águas quase viajando pelas nossas pernas, o vento trazia até nós o percurso das suas águas, quase parecia querem dizer-nos alguma coisa, transparentes eram e belas também, nós, conversávamos, sobre quê… não sei, ouvíamos o que dizíamos simplesmente e interiorizando o momento até sempre poder nele voltar a falar, mesmo que a memória nos atraiçoasse a conversa.

Do lado de lá, um horizonte verde eternizava a beleza do momento, coloria a viagem, atravessavam pela imaginação os meus olhares e todos os movimentos eram registados, brilhavam as águas que a alma guarda e contigo ali, falavas, falavas enquanto escutava, dizias o que dizias e eu, ouvia certamente, como se a viagem começasse todas as vezes que falavas.

Desconhecia completamente esta cidade. Nem tinha sequer ouvido falar nela. Hoje já pouco importa ser perto do Porto ou de Lisboa. Ou que a ponte embeleze ainda mais a sua realidade. Bela simplesmente, sei, e quantos quilómetros amarfanharam com glória revisitando-a, ingerindo as áridas caminhadas, refresco a qualquer momento bastando para isso pensá-la.

Musicalidades encriptam com velocidade o momento. Restos vagueando, círculos, vozes, ecos quase estranhos, gritam como um mar descobre a vontade de amar, a primeira ponte, o vazio, onde estiveras, quantos barcos vi partir… pudesse então anarquizar silenciosamente esta Valadares, entrar o espólio dos teus olhos que seguem, cobrir colorindo estas viagens permanentes, prementes, enriquecendo por dentro o meu desejo de saber-te, ou Londres que não sei se conheces, Paris de Marx, capital de todos os tempos, não esqueço a melódica vontade de sorrir contigo, aqui, onde não estarei estes dias, na Estrela, onde encontro frente a mim a Basílica, sento-me no jardim, vendo a relva urgente crescer.

Lúcia comigo neste parque, sei como Lisboa em nada te agrada.

Seguindo esta rua um edifício meio lúdico de barbatanas nas janelas, o riso espreita, entro, à janela uma voz de cânticos dourados resplandecendo-me, subi sei lá como e tu lá

– Vítor e tu?

Não sabia ainda como e dizia apenas, tentando um beijo suculento por entre as pálpebras iluminadas, tu ias a sair pelos altivos rudes de um quintal, parecia, era uma saída de garagem

– Sou Sara apenas

– Posso amá-la?


Como aperitivo à deliciosa prosa de Vítor Burity da Silva, apresentamos novo capítulo do livro Ao Fundo Pitangas

 

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