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João de Sousa

Sábado, Outubro 23, 2021

Ao Fundo Pitangas

Vítor Burity da Silva, Angola
Ph.D em Filosofia das Ciências Políticas. Doutor Honorário em Literatura e Filosofia. Professor Honorário de Filosofia da Educação. Professor Universitário. Investigador. Escritor.

O telefone rangia na mala a tua filha mãe estás onde?, nua, nas minhas mãos o curso contigo e Lisboa sem sons que importavam, de jantar não me lembrei as horas eram difusas

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(Pensei:

Um repente alojara-se num repelente desejo, e eu, Se quisesses, se me quiseres tens-me como árdua andorinha, quem sabe a gente case e filhos não sei também que importa já sou um tanto gasto mas queria que me amasses, me gastasses nas últimas esquinas da vida desta sala com enfeites de ruas desprovidas mas tens nas mãos o sonho rijo do teu irmão na sala a cantar raivas de desgosto e eu).

 

– Películas de?

Amanhã vou contigo adormecer devagar, na cama da tua casa seja como for, devorar-te como puder,

– Neste hotel, lembras-te?

Fiz um amor que me sucumbiu não querias que te beijasse os invólucros sapientes ainda escondias,

– Vou amar-te para sempre

Deitada o silêncio sopra como um fumo à mão, detesto em ti uma única coisa, dizias, o corpo nu na rua avulsa do nosso segredo, fechei as janelas e cobri-me nas ondas que devastei do teu corpo queria tanto mais ainda depois continuar,

– Fumas tanto!…

Há tanto tempo não me sentia mulher, lágrimas nas lantejoulas sem cor do olhar que é o teu olhar eu olhava vendo-te,

– Nunca fui feliz Vítor, não me faças mal, tenho vergonha do meu corpo, sempre me acusaram e remeteram-me a isto.

No hall um beijo forasteiro a rastejar séculos como um quintal jardinado, não vi sequer o teu rosto beijava-te alguma coisa não sei diferente na alma senti não me deixes, nas mãos o livro era um lobo Antunes de cu nas matas selvagens dizia ele, mataram-te porque havia raiva e culpados quem foram não sei nem quero larguei num abraço de perfume o teu cheiro rasgado senti não sei a tua alma, vamos dormir um pouco?, bem dormir não era a intenção queria era desaguar em ti por ti como se o rio ejaculasse torrentes quentes num mar há muito desaparecido eu passava fome, naquela casa de ruínas, aquele caso de casado com a imagem nutrida mal dormida, e fiz contigo uma vez tantas, um orgasmo não se sente, vive-se, o hotel não sei, ali, o chilrear metálico do espaço os meus braços vândalos sobre a tua testa.

– És muito linda Sara!

Pensava dizendo-te como se me ouvisses e pensava que sim, estava apenas calado sobre o teu corpo naquela cama onde volúpias nos vigiavam vou viver contigo para as ruas da tua casa

– És de onde?

O telefone rangia na mala a tua filha mãe estás onde?, nua, nas minhas mãos o curso contigo e Lisboa sem sons que importavam, de jantar não me lembrei as horas eram difusas, mergulhado nos escombros do passado a dissuadi-los, Protege-me com o teu rosto, leva-me contigo há muito não faço amor um dia a sonhar  masturbação cinzenta contigo a carne na tua carne a viver séculos feliz tu nua diante do espelho escondias as fantasias o orgasmo escorria sobre a tua barriga sem pelos depilada querias mostrar-me que apenas a mim desejavas ouvir sussurrar a respiração longa alongava depois dos anos que nada sabia de como era e contigo não sei quantos, jorrei amor e amo não me deixes.

– Como está lindo o dia hoje…

– Maravilhoso, realmente, destes momentos, instantes assim…

– Como nos é legítimo sonhar Lúcia, como podemos inventar o percurso e juntos, e sentados, ou andando, comandamos a nossa vida, sem os limites da realidade, sem os constrangimentos que impedem anjos de tocarem-se, aqui ninguém nos vê, neste mundo sonhado onde só nós sorrimos, a acrescentar, o Verão aquece a ousadia, nossa ousadia…

– Como quero, ser paralelamente ao que sou, o que aqui me sinto ser, como realizadores dos nossos passos, a tela onde quem nos quiser, entenderá jamais o que somos, parecemos invisíveis, e somos omnipresentes…

– Somos…

– Escutar como se ama o mar…

– Cantar…

– Descobre a maresia…

– Sinto-a…

– Ri como se riem das coisas da vida…

– Abanadas como as árvores…

– As nossas palavras, isso?

– Isso, o coração que nos nutre o futuro…

– Ai como sou realmente frágil…

– Viagem suburbana. Sobre as nuvens, do alto, vendo as cicatrizes da terra, ou do que não conseguimos, viagem, viagens certamente, o itinerário permanente das vidas que despoletamos, é esta a tranquilidade óbvia do que seriamos, se algo fossemos…

– Sinto tanto medo…

– De quê Lúcia?

– Do que não conheço…

– Não faz mal, todos nós o sentimos, o desconhecido faz mal, e bem, o desconhecido ensina, mas não temas…

– Se te disser que tremo também, que pensarás?

– Dois medrosos, ou aumentamos o medo, ou reforçamos um no outro a protecção que conseguirmos…

– Foi bonito isso, mas acredita, o amor é como um escudo, reforça o que quer que seja, garante de segurança, nada temos, acreditas?

– Prefiro seguir a forma como as águas seguem, ou descobrir porque fluem, ou porque sorriem, ou porque nadam…

– Agora perdi-me…

– E eu perdida há muito já…

– És realmente forte. Interiormente bélica, ou frágil como sempre senti seres…

– Por ser bom demais, o amor fragiliza.

Fonte nauseabunda de pecúlios sem regra, um esquimó sôfrego de espinha entalada, a rastejar-se sozinho nos gelos imaginados das janelas avulsas da cidade a perder-se, um céu à esquina, um delírio inventado para me contorcer como ele em vómitos corrosivos de agentes da lei a deflagram-se sem fim, como quando era pequeno e ia devagar ao zoo ver os desenhos animados à volta da minha casa, pendurados nos estribos de arame esticados para me deliciarem, o cheiro arruinado estendia-se pelos enxofres varridos da tarde naquela visita solitária da minha vontade, às paredes fechadas. A voz da minha mãe enxotava-me para o interior, recriava sem regras, enfim, passos como outra coisa qualquer na andadura do tempo, na andadura das sementes que secam no quintal das nossas rezas, sim, ela era fiel, é ainda fiel aos pergaminhos divinos da igreja. Talvez eu soubesse do riso, sentisse sobre o mar os navios enxotados nas ondas, um dia a margem incumbira como recado desligar-me das coisas desta rua onde moro, um lugar distante da terra com efeitos de estrelas, uma viagem dos sonhos na viatura de ninguém na estrada de nada num refutado silêncio, de dois que apenas se falam no silêncio dos lençóis, despidos, de costas um para o outro, ninguém ali sabe rezar e isso nunca me agradou, pergunto:

Que aventas do terço? Nada a responder na sala, ninguém segue comigo o silêncio secreto ou sagrado desta morte de vícios, queira um dia a mata sufragar-me, deleitar-me nos seus silêncios escondidos por trás da vontade como quem se embala num refego de calmas perdidas: Explica-me então tu o que souberes dos passos a caminho das nuvens, fala-me das coragens inventadas das leituras abortadas, desse rosto sem explicação faz-me entender o silêncio, explica-me o retorno dos beijos e que mais, como uma estrada difusa de lados barrados pela alcofa metálica dos rails, como se um raio nos invadisse madrugadas a fim, a fim de descobrir-me por margens caladas. Ao ler deliciosamente este recreio descrito nas páginas da vida vou lentamente entrando numa dispersão vagabunda dos meus vícios, sem medos, como se fosse por ventura, um soldado abandonado nos claustros da razão e deglutir-me, ali mesmo, para que se saiba, os recreios elaborados por dissertações de filosofias encarnadas na pele da gente de lá, ou fossem refrães de cânticos natalícios estes beijos que sinto na tua pele?

Deuses?

Quem sejas. Pronto para que sim, num dia fúnebre soubesses desta casa defronte, a cintilarem cânticos de cortesia à lapela dos degolados ares destes, não, porque se assim fosse, sentiria o ar prurido dos teus sargaços arejados e deles, apenas a suculenta acedência fronteiriça dos teus desgostos, acamados, na estrofe dos ribeiros de ares sem graça, como se fossem por ventura o estropício cru da verdade, diria.  Quem sejas?

Grego de Deus nesta casa de Deus nenhum à janela e fumar o último deposto da noite. Esvaziado, o meu último silêncio vai no decote vândalo da nuvem que se perde, na coragem de nada por estes devaneios de outros sisais ocasionais, nos fumos depostos, varridos, sucumbidos, e do quarto, um apenas, nenhum algum nos vidros varridos pela gota escorrida.

Era do duche anterior ainda e disso, culpam-me os segredos ali alojados, de fumares, ou beberes, que sejas enfim um mar de nadas que és e sou, sei, o último silencioso gesto que terei será morrer, ainda, enfim, o zurzir acre dos motores nesta falência aguda por entre ruídos de metais disfarçados, na atmosfera metafísica da sala fria os ruins silêncios dos motores, na compota coberta dos capons de cinza disfarçado, de rodas girando nos carris férreos do medo que sinto ser de facto, medo de que um dia, me enferrujem na cabeça que não tenho porque se tivesse nada temeria mas não, ela, a cabeça, existe num deflagrado desdém a uma distância de silêncios, de uma cobertura enfática, dum gesto, num gesticular quem sabe, ainda na barriga, imparido, da mãe.

O ruído descendente das cascatas contra as rochas fundas nas águas adormecidas, num eco nocturno o longe deposto nas mãos voláteis. Por entre uma palha de júbilos um sono esquecido, na barriga da mãe ainda este desgosto, dos ventos feitos na rua, e senti-los no relógio biológico da pele que se despe quando rasgada já se sente morrer, como num fundo oco, num fundo híbrido remar como se fossem rodas estas barbatanas de marinheiro, ao colo se houver a tua mão, alga nuvem socorre um coração, triando se de pétalas como sonho, quem me mar, sorver, alma cúbica desse Janeiro entrando me subtil, divago este mar medonho, esta profundeza escarnecida escura, entro em compassos imaginar te, sentir a distância carpir se dentro de mim, um colorido entregando se, armar me tanto sempre segurar te, Outono brilhando me permanente

O ruído constante deste vento ao lado, a saudade marcando me imaculadamente, As tuas áreas, sobre os lábios, entre as mãos, as tuas, bocejos lindos, quanto doces, estar-te, independentemente da distância, ter te como jamais perdível, a maravilha de tu seres… como amar-te jamais terminável, este coração de dar te, entregar me em tuas mãos, boca, lábios corpo, e adormecer em ti, até sempre e sempre: Amo te.

Não sei nem consigo, onde queres que esteja não estarei, não consigo chegar sem que me remes com os teus braços, não conseguirei incorporar nos teus gestos o leque veludoso da tua voz, nas tuas mãos, não sei constituir os teus desejos nem a vontade que alimentes, não sei, mesmo que tente fragilizar a minha verdade, a minha essência, não sei, mesmo que viole os meus princípios, faça guerra contra as minhas limitações, não sei, onde conseguir inventar passos que me devassem e arruínem, até que me despreze e me entregue aos teus deliciosos beijos, não consigo percorrer os vazios da minha alma e alimentar-me como se tua vida fosse, beber de ti e alimentar-me de sonhos teus, não consigo, não, mesmo tentando, perco, perco-me nos escombros do meu silêncio e na minha incapacidade de decidir-me, se vou até ti ou se me deixe por cá, entregue aos instantes que me façam escutar-me, aos sonhos que tivera sobre ti, aos momentos porque ainda em ti vivi, vi, senti, mais não sei, nem consigo, nem forças mais tenho, fico-me nas ostras do meu tempo e nas limitações do meu desejo, porque chegar aí, onde estás, me é impossibilitado pelas tuas próprias inconstâncias e passos, que se deslocam, cada vez mais, aos glossários oriundos de ti mesma, que se distam da vida que subestimas, e vives, num rol próprio dos teus ideais, que ultrapassem ou não o que tu mesma saberás entender.


Como aperitivo à deliciosa prosa de Vítor Burity da Silva, apresentamos novo capítulo do livro Ao Fundo Pitangas

 

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