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João de Sousa

Quinta-feira, Fevereiro 29, 2024

Os 69 da Abstenção ou a Fractura da Democracia

Os 69% da abstenção são um aviso claro de que a actual oferta política não corresponde à procura do eleitorado.

Em contraciclo com a tendência europeia, a abstenção voltou a afirmar-se como o partido mais votado. E com muito mais votos que todos os outros partidos juntos. Se isto não é uma clara rejeição da oferta política disponibilizada ao eleitorado pela classe política, é o quê?

Choradinhos (à posteriori) como o de Paulo Rangel, a apelar aos cidadãos para que pensem melhor e se disponham a ir votar, ou apelos lancinantes (à priori) como o de Marcelo mostram bem como os dirigentes políticos pouco ou nada querem entender do que o eleitorado lhes está a querer dizer: a responsabilidade é vossa!

Há aqui uma aparente contradição: o sistema partidário mantém-se “firme e hirto” (ou como diria uma certa alentejana, “coeso nos cascos”) e não parece dar mostras de qualquer dinâmica séria de evolução enquanto apenas um em cada três eleitores condescendeu em dar-lhe o crédito suficiente para ir meter o voto na urna. A aparente contradição é, porém, uma disfunção real.

As “europeias”, dir-se-à, são umas eleições menores e, portanto, este alheamento do eleitorado não é significativo, se o jogo fosse a sério e não a feijões, o comportamento eleitoral seria outro. Erro. É precisamente por as “europeias” serem umas eleições menores que o eleitorado pôde e se sentiu à vontade para manifestar o que lhe vai na alma. O dramático apelo de Marcelo, feito de véspera, caiu em saco roto. O choradinho de Rangel não comoveu ninguém.

A oferta política disponível (incluindo as mais recentes “inovações” como o “Chega” ou o “Aliança” de Santana Lopes) claramente não motivou dois em cada três eleitores. Esqueçam-se as percentagens e olhe-se para os números absolutos, para os números que nos dizem quantos portugueses votaram em cada partido.

Dos potenciais 10 milhões de eleitores (sim, 10 milhões de eleitores), quantos votaram em cada partido…? Quantos partidos passaram os 500 mil eleitores…? Este exercício desoculta o que se esconde atrás de valores percentuais de votos expressos e ajuda a saber do que falamos… E, sobretudo, a visualizar a dimensão da disfunção instalada na nossa democracia e que a está a fracturar.

Mota Amaral diria que 69 é um “curioso número” mas, aqui e agora, ele sobretudo um “número de aviso”… O eleitorado está pronto para um Salvini ou uma Marine que sejam capazes de o convencer e seduzir.


Exclusivo Tornado / IntelNomics


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