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João de Sousa

Sexta-feira, Junho 21, 2024

Para Joães, meus tios ferroviários

Assim. Tudo começou dessa maneira. Esse relógio está comigo e, fez parte de um período na vida de Antonio.

– Moço! Leva esse relógio para o senhor. Ele já está velhinho, mas é uma lembrança que ganhei do meu tio quando ele trabalhava na Estrada de Ferro Sorocabana.

Assim. Tudo começou dessa maneira. Esse relógio está comigo e, fez parte de um período na vida de Antonio.

Conheci Antonio quando fui fazer uma série de treinamentos na zona rural do Vale do Ribeira. Precisamente em Caixa D’Água. O ano não lembro bem, mas deve ter sido em 1999. Se não foi fica sendo. Antonio já estava adulto, mas a história que me contou foi da sua infância. Seus primeiros anos escolares. As lembranças daqueles tempos que todos nós guardamos para sempre.

Depois de servir uma limonada feita com limões cravos, descemos até o pouco que restava da estação, ou melhor, parada de trem: Caixa D’Água. Para quem não conhece Caixa D’Água está no início da serra, logo após Peruíbe. Ali o mar vai se afastando e formando uma costa litorânea mais ao largo, deixando as serras. Começa a subida em sentido a Itariri, Pedro de Toledo, Musácea. Falar em Musácea qualquer dia conto um conto de lá. Minha madrinha é de lá. Lugar bonitinho incrustada nas serras de São Lourenço. Mas espera se não vou me perder. Vou voltar lá para o início da serra: Caixa D’Água. Chegamos à estação. Solitária, fria e com a tarde caindo Antonio relembra: “Aqui, moço. Eu tinha de seis para sete anos. Morava ali naqueles altos com meus avós. Meu pai abandonou minha mãe depois que nasci e, minha mãe deixou-me com os meus avós. Assim, fui criado pelos meus avós e sempre com a promessa de que um dia minha mãe viria me buscar. Tive muitas dificuldades nos meus aprendizados. Demorei muito para aprender as letras do alfabeto e as quatro operações. Para ajudar em casa, ajudava meu avô a colher limões cravos ou mexericas e vinha vender na estação. O trem de passageiros vinha de Santos. Para continuar subindo a serra e fazer todo seu percurso era necessário abastecer a locomotiva nas caldeiras com a água. Daí Caixa D’Água. O meu tio era o chefe do trem. Ele quem autorizava ao maquinista dar a partida. Olhava nesse relógio de bolso, certificava-se que eu já estava satisfeito com as minhas vendas e aí dava o sinal para a partida. Ele deixava o trem parado por um bom tempo. Eu corria os vagões com uma cesta nas mãos e gritava: – olha as mexericas docinhas! Vendia bem, mas tinha dificuldades de fazer o troco e cobrar dos passageiros. Apertava-me nas contas até que um belo dia isso foi mudando. Entrei em um determinado vagão e, lá, no ultimo banco estavam sentadas duas moças. Não me esqueço delas até hoje. Bonitas, lembro que uma delas carregava sempre um monte de cadernos. Tinha um óculos aro grosso. Se chamava Inez. E a outra era Laura. Mas foi com Inez a quem devo tudo, moço. Ela percebeu que eu tinha dificuldades. Eu me escondia nas dificuldades mas ela, num relance, percebeu.

– Menino! Quanto custa uma mexerica?

– Vinte centavos.

– E duas?

Pronto. Eu não sabia. Engasgava-me todo.

– Como é o seu nome?

– Antonio.

– Que lindo. O meu Inez e o da minha amiga é Laura. Antonio, você sabe ler e escrever o seu nome?

– Sei não.

E foi assim moço que começou meu aprendizado. Tudo isso bem rapidinho, no tempo que o meu tio precisava para olhar seu relógio, certificar-se que tudo estava bem e dar o sinal de partida para o maquinista que punha a locomotiva e funcionar e dirigir-se serra adentro por entre essas matas e vilarejos.

Eu ficava feliz na plataforma vendo o trem iniciar a subida da serra. Ali, naquele trem, todos os dias estavam indo dois personagens importantes: meu tio que entendia o tempo suficiente para minhas vendas e meus aprendizados e, Inez que com seu jeito respeitador, a partir das minhas mexericas, limões, meus avós e da minha realidade ia me ajudando, dia a dia, adquirir os meus verdadeiros aprendizados. Nos finais de semana ela já me trazia pronto uma lição de casa para sábado e domingo e, na segunda feira eu devolvia para ela. Era uma lição de tudo que conversávamos na semana. Sobre as horas, sobre trem, as pessoas, as frutas, meus avos, as estações do ano, o sol, a lua, o vento, os pontos cardeais. Tudo, moço. Eu adorava quando amanhecia, pois sabia que dali a poucas horas viria minha professora. Nesse tempo, minha avó vivia me lembrando: – Tonho, qualquer dia desses sua mãe deverá aparecer por aquela porta para te levar. Eu, na verdade, queria era ver o trem apontando lá na curva e trazendo, com certeza, a minha professora.

Corria com minha cesta e aguardava o apito na passagem da via lá embaixo. Sabia que era ele. Meu coração pulava de alegria. As mexericas, cheirosas logo logo estariam nas mãos das pessoas e, Inêz iria tecer um montão de elogios por conta dos meus aprendizados.

O trem parava. Meu tio era o primeiro a saltar. Cumprimentava-me. Abraçava-me. Dava uma piscada e deixava que lá fosse eu para minhas tarefas. O mundo estava rodopiando na minha frente. Eu me desmanchava de tanta euforia.

E assim foram os dias, um mês. Dois, seis meses. Mas um belo dia, pelo qual não esperava, tudo aconteceu. Moço, quando lembro eu não “guento” me desculpe.

Como de costume o trem chegou à estação. Meu tio foi o primeiro a descer. Abraçou-me e deu a combinada piscada. Corri por entre os corredores dos vagões vendendo e querendo logo chegar aos bancos onde estariam Inez e Laura. Moço, quase morri. Nesse dia elas não estavam ali. Não sabia por quais motivos, mas elas não pegaram o trem.

Desci desanimado. Dei sinal para o meu tio que por sua vez deu sinal para o maquinista. O trem partiu. Partiu também meus pensamentos não sei para onde. Moço, partiu meu coração em diferentes pedaços.

Todos os dias o mesmo drama. Ansioso corria pelos corredores dos vagões e nada. Nada de Inez. Até que um belo dia, já sem esperanças nenhuma me deparei com Laura sentada como de costume. Sozinha. Em poucas palavras e num tom baixo falou-me: – Tonho, Inez foi presa. Sumiu, não consigo falar com ela para saber como está.

Eu chorei. O mundo desabou na minha frente. Desci do vagão perdido. Meu tio não entendeu nada. O trem partiu. Subi desesperadamente o morro. As laranjas, limões rolaram morro abaixo. Deixei tudo lá.

O trem apitava na curva, mas eu não me importava mais. Meu coração só chorava. Minha avó não entendia o porquê de tantas tristezas. Foram dias e dias assim.

– Tonho. Eu não aguento ver você assim, meu filho. Vou procurar sua mãe para que ela venha te buscar.

Chorando respondi:- Não precisa vó. Minha mãe não virá nunca mais.

E foi assim moço. Tudo que sei teve um começo. Uma escola bem diferente. Anos depois vim a saber. Inez foi presa, torturada e dada como desaparecida. O ano era 1971.

Foi assim. Agora eu contando para vocês.

Antonio contou-me tudo com tanta facilidade. De minha parte procurei ouvir e memorizar tudo.

A tarde vinha caindo fechando as cortinas. Olhei para os velhos trilhos que, em paralelas subiam a serra por entre as vegetações. Os trilhos em paralelas como Antonio e Inez: não se encontraram mais.

Para Antonios, Inez e Lauras. Meus tios Joães, verdadeiros ferroviários. Para José Mauro de Vasconcelos com quem peguei gosto de contar as coisas. Para João, Cido Beto.

Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães…(Guimarães Rosa) e daí o meu: Joães.


por José Aparecido Pereira, Metalúrgico aposentado, produtor de alimentos orgânicos  | Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial Rádio Peão Brasil / Tornado


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