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Sexta-feira, Dezembro 2, 2022

És meu amor, não és minha mãe

Vítor Burity da Silva, Angola
Vítor Burity da Silva, Angola
Ph.D em Filosofia das Ciências Políticas. Pós Doutorado em (Educação e Psicologia). Doutor Honorário em Literatura e Filosofia. Professor Honorário de Filosofia da Educação. Professor Catedrático. Investigador da Universidade de Évora. Membro da Sociedade Portuguesa de Filosofia. Membro da Associação Portuguesa de Escritores. Escritor.

Enrolar-me quase caladinho no teu corpo como se as sombras fossem naves no deserto dos meus sonhos. Ouvir o gesto dos beijos como plantas devagar, quando me enrolo nos teus lençóis de vidro na minha cama quentinha e amar

“o bom do amar”

aquele colo antigo onde gaivotas sobrevoavam embelezando sei lá, uma fantasia qualquer que me contente para sempre, sim, este de repente apetecer não cai do céu, apetece-me tanto o teu amor.

“és meu amor, não és minha mãe”

Assim num súbito de laivos como átomos devorados no esplendor da tarde, daqueles dias em que no teu leito bebia o soro do teu sangue como quem alimenta um faminto com um amor que nem sei se entendo ainda, por isso quero e peço e imploro, não sei se mereço, este escarpeio de vómitos nas palavras dilaceradas em páginas ínfimas para descrever tantas coisas que apenas o silêncio consegue em mim deixar, para que me sinta eu neste tanto desejo de ser teu,

“és meu amor, não és minha mãe”

Neste meu deserto inventar uma praia, transformar isso num paraíso, sim, os maus paraísos são ainda os dos contos de fadas no emblema da camisola do meu soldado derrotado numa guerra qualquer, deitado, tombado, como se tudo se resumisse a um fim e pronto, a guerra foi inventada para aniquilar e a gente entende, jogamos ao monopólio para decorar as páginas de uma história qualquer mas dói, mete medo, fica tudo muito escuro e envergonha, é verdade, lembro-me ainda de pequeno ser herói um dia, nem que fosse na colecção de cromos dos jogadores da bola num caderno qualquer e como me encantava isso, era a nossa guerra, mas não morria soldado nenhum, éramos todos heróis como o patinhas na fila do supermercado para comprar franjas de carnaval, só sorrisos,

“olá menino, a mãe está boa?”

“o bom do amar”

enquanto é ainda assim até que um dia tudo se modifique, multiplique, os mares enervam-se e invadem as areias onde tantas vezes corria desenfreado e imaginando sei lá,

“quero uma mulher que me ame como a minha mãe me ama”

para que a verdade seja uma água tão pura como o leite do mamilo mais doce de antes, agora, tenho-te.

“és meu amor, não és minha mãe”


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