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Segunda-feira, Agosto 2, 2021

Sobre as águas da vida o silêncio dói

Vítor Burity da Silva, Angola
Ph.D em Filosofia das Ciências Políticas. Doutor Honorário em Literatura e Filosofia. Professor Universitário Auxiliar. Investigador Auxiliar. Escritor.

… o cabo carvoeiro nas agruras do feroz mar entrando com as suas subtis vagas, sei que nem só isso, o mar quando invade também leva a espuma que flutua sobre si, rodopiando e tantas vezes gemendo também, respeito pelo chefe que é a força dos antípodas

XX

A noite é um monte de prantos. Apenas lagartixas viajam as paredes e num sono tão profundo que voz, tudo se parece com um sonho e a voz é uma verdade inventada. Cala-se quando acordo. Sonho, dizem os indígenas da minha cabeça evaporada de tantos cansaços. Não um presídio, uma viagem refastelante e com tudo a meu lado um cansaço sagaz vadia-me por dentro como que a instigar-me e a voz lá,

– ainda és uma criança rapaz.

refastelada no sofá da sala onde tantos anos dormi e sentado eu do outro lado, uma almofada acoplada às costas,

– preciso tanto deste repouso.

quem não tem mãe deixa de sonhar, os gafanhotos no quintal sem patas nem asas, e eu em reparos olhando, uma corrida de galos ainda enfeitavam o momento e eu distraído, a cabeça frita silêncios, a alma é um corredor distante e nesta casa tudo é distante, as vozes ecoam apenas palavras esquecidas e nós nada, o crocodilo enjaulado num lago lá fora, a minha esposa ainda dorme e nem ela comigo as vozes calam-se tão de repente que nem eu me apercebo de onde me chegam,

– acordas amor?

tão cedo ainda e que relógio a registar a minha ausência da tua cama, a minha mão tão fria enquanto o teu sono tão teu, chamo calado o teu nome, e tu num sono tão profundo nem lá, todos os outros ruídos são paredes pintadas de branco. As folhas tilintam uma chuvinha brame, o açúcar enche a chávena e mais um café para saciar o cansaço, não entendo este cansaço, não há motivos e o cansaço mora comigo tantas noites e durmo se acordo às vezes sem vozes a irritarem-me, um chapéu distante na televisão em vez de trilhos, os tiros cansados também já me chateiam, sentei-me à porta da casa velha onde ainda a minha mãe, os meus irmãos corriam atrás de que bolas chutadas jogam a vida num percurso nosso para onde, o espelho à frente revejo-me nele a minha cara destapada miro-me de cigarro entre as falanges desdentadas e desembrulhadas de gargalhadas penduradas e que telas lá, a parede branca, ainda branca.

Uma parede onde ninguém, jaziam apenas memórias de um tempo sem idade e o escuro lá, nada a fazer esquecer o vomitado contra as ânsias, contra as inconstâncias, apenas e só um tempo espetado numa parede de ninguém.

Nem dormi, nem li…

– Talvez, sabes dizer onde?

… o cabo carvoeiro nas agruras do feroz mar entrando com as suas subtis vagas, sei que nem só isso, o mar quando invade também leva a espuma que flutua sobre si, rodopiando e tantas vezes gemendo também, respeito pelo chefe que é a força dos antípodas, essas águas são tantas vezes selvagens e ignorantes que levam até inocentes, meninos e mastros, onde marinheiros e não só sucumbem, bandos de madeira levada e morte não devolvida, a espuma teme o chefe e por isso responde, indo com ele, sabemos que é o mar e o que com ele existe, miséria, mistério, beleza, força, morte…

– aprendi na ria.

… e tu cansada nessa cama quem me dera, olhavas para as nuvens que rumavam ou mesmo que sem rumo, te guiavam ao Egipto e sobre esfinges, pirâmides, o seco duro na terra, pensas num deus e sabes do mar, deitada sonhas como Epicuro, viajas como Diogo, voas como Sacadura em aviões com asas de água, afagas com um amor o engenho nazi o suor seca…

– Sonho margens e séculos e não paro, toca-me!

… ponta de sagres adormece, e sob os seus pés um frio do sul este mar nem dorme, nunca dorme, é noite e dia assim, fere e apazigua, Saramago dizia sem mar não escrevo, Antunes diz sem mar não escrevo, Beckett vivia no mar, Pessoa andava pelo mar nas suas esfinges de latão e subia o mediterrâneo numa canoa de pau e sem remos, velas quem sabe ou como seria possível navegar ostras e durezas tão duras como o metal dos céus a caírem sobre os telhados, Cardoso num bar e eu sem nada aqui, escrevera nevralgias para que os destinos não adormeçam, fria a cerveja na trindade com Hélder, barbudo e de chapéu vendido, largo longo e escuro porque nem sei, se um dia perguntasse responder-me-ia o dilúvio, escrito num guardanapo de óleos sacados dos lábios no marisco comido entre coisas bebidas, e a rua desce, um cansaço sem fim entre aspas, após a noitada nem sei se é descida ou subida ou coisa nenhuma, como se a noite fosse portimão a eclodir-se nas castas do douro.


Como aperitivo à deliciosa prosa de Vítor Burity da Silva, apresentamos novo capítulo do livro Sobre As Águas Da Vida O Silêncio Dói


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