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Sábado, Outubro 23, 2021

Sobre as águas da vida o silêncio dói

Vítor Burity da Silva, Angola
Ph.D em Filosofia das Ciências Políticas. Doutor Honorário em Literatura e Filosofia. Professor Honorário de Filosofia da Educação. Professor Universitário. Investigador. Escritor.

bem perto rajadas fuzilam a solidão, atiramo-nos para o chão e medo sobre a floresta escondendo-nos, a nossa camuflagem sobre nós e outros corriam tal o medo e só isso, medo de tudo, até da própria sombra

XXXI

É uma comissão de lágrimas tudo isto, sangue jorrado contra as paredes que nem existem nesta tenda de campanha, enorme mesmo assim com a enfermaria ao fundo, camas que são macas de lona estendidas até ao fundo e passos continuados noite e dia entre ais e gemidos, soldados deitados ou sentados gritam,

– quero a minha terra doutor!

e eu ali, ouvindo sem solução e apenas tentando sarar por dentro e por fora todas as dores e feridas, pernas partidas, braços estendidos e outros completamente destruídos, barrigas cosidas com a agulha possível e nada mais, a solução encontrada é esta, a melhor possível naquela circunstância de abandonados numa mata qualquer de um país quente.

O calor entra pelas frinchas na tenda e que chuva lá fora, a gente sente em cada gesto a dor, uma coisa horrível, mas onde a cabeça?, sim, mães e esposas abandonadas e até sozinhas sei lá, quantas nos imaginam mortos já com um tiro na cabeça e enterrados num baldio ali nas redondezas do nosso acampamento camuflado onde tudo acontece, basta fechar os olhos e todas as imagens são possíveis, um filme para dentro do que imaginamos ou talvez pelo tanto que queríamos, sim, estar em casa com os nossos.

Ainda assim as cartas vão chegando, leio-as tão vagarosamente tentando existir nelas a tua mão agarrada à minha, com que a sentir o perfume que sempre usaste, o palpitar do teu coração contra o meu peito,

– escreve-me sempre Deolinda!

uma voz nascida neste renascer permanente ao ler-te, escutar de ti os conselhos de sempre e eu deitado a teu lado, a nossa filha

– papá!

sorri e brinca no meu colo antes de todos adormecer-mos e ainda cedo, descansar e amanhã no consultório bem cedo onde que consultas me esperam, a minha cabeça está em ti Deolinda, na minha família, sim, a nossa família nessa cidade que me vira nascer e crescer, ser um simples médico que vive o dia a dia descansado como outro mortal qualquer, as tuas cartas são imensas viagens e eu aqui, nesta realidade bem diferente e apenas imagino quando escrevo e leio os recados de longe, as paisagens dos meus sonhos deambulando a realidade, perdido, é verdade, eu os meus camaradas nesta absurda realidade que nem serve para ser vida, um escroto sobre a pele e somos salvadores da pátria morrendo devagar todos os dias.

Deslocação na estrada Catió-Bedanda durante a “Operação Rolo”, Março de 1965. Fonte: Arquivo Histórico Militar, Fotografias da Guerra Colonial na Guiné-Bissau. PT/AHM/FE/110/B4/PQ/1

O cabo Esperança amputado por uma mina disfarçada de castelo nestas areias que com o vento levam o pó, voando como cucos nos céus de que terra e nós perdidos olhando-nos,

– um dia eu meu capitão!

bem perto rajadas fuzilam a solidão, atiramo-nos para o chão e medo sobre a floresta escondendo-nos, a nossa camuflagem sobre nós e outros corriam tal o medo e só isso, medo de tudo, até da própria sombra.

– tem calma rapaz!

Era a minha voz confundida com tudo, nem sequer percebi se me ouviam e gritos repetidos,

– baixem-se!

gotas do céu súbitas molham-nos a farda e a cabeça sem pensar nem sente se molhados, a terra encarnada confunde-nos,

– sangue?

– não meu capitão, estamos bem!

e escurece tão de repente como quem fecha os olhos.


Como aperitivo à deliciosa prosa de Vítor Burity da Silva, apresentamos novo capítulo do livro Sobre As Águas Da Vida O Silêncio Dói


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