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Sábado, Agosto 13, 2022

Sobre as águas da vida o silêncio dói

Vítor Burity da Silva, Angola
Vítor Burity da Silva, Angola
Ph.D em Filosofia das Ciências Políticas. Pós Doutorado em (Educação e Psicologia). Doutor Honorário em Literatura e Filosofia. Professor Honorário de Filosofia da Educação. Professor Catedrático. Investigador da Universidade de Évora. Membro da Sociedade Portuguesa de Filosofia. Membro da Associação Portuguesa de Escritores. Escritor.

os jeeps aquecem já na parada mais à frente, metralhadoras nas mãos e granadas penduradas à cintura começamos indo para nada como sempre, fervilhar o tempo num tremelico constante e medo,

XXXII

A formatura bem cedo, logo pela manhã, ainda o sol despontava no horizonte coberto pelas nuvens e a gente desfilava em frente ao comandante de companhia, lado a lado e organizados vinham instruções e o novo dia chegava, olhávamo-nos devagar,

– quem falta?

o semblante frio como se de uma agonia se tratasse, a brisa ainda e as boinas bem postas seguem-se as regras do comandante e a gente ali cumpre,

– companhia, firme!

como num carreiro de bois seguiam os soldados preparados para uma jornada,

“que nos espera hoje?”

Penso

a rotina cansa e a gente sabe, nunca nada diferente, marchar, marchar, e seguir para mais uma viagem ou incursão pelas matas tentando encontrar o mesmo de sempre, medo sempre, cansados já mal iniciamos a caminhada,

– há quantos dias não consigo dormir, doutor.

os jeeps aquecem já na parada mais à frente, metralhadoras nas mãos e granadas penduradas à cintura começamos indo para nada como sempre, fervilhar o tempo num tremelico constante e medo,

– sinto as pernas tremerem!

somos cada vez menos, somamos cada vez mais baixas e o dia à nossa frente, seguimos e que rumo?,

– isto é para homens!

em lisboa no gabinete o general calcula mapas e ordens para baixo, no gabinete a guerra é mais serena, não se ouvem as metralhadoras nem se sente a dor de camaradas mortos à nossa frente, no gabinete não se rasteja simulando o inimigo, em lisboa fazem banquetes e a gente nem bancos nesta selva sem verdade ou só mentiras, não encontro verdade nenhuma nisto tudo a não ser carne para canhão,

– o Alfredo?

tantos na enfermaria acumulados uns sobre os outros e ais sem fim estamos na guerra, estamos em defesa da pátria que nos pariu, excomungados como lagartixas e filhos de uma vida a perder-se devagar,

– cuidado, baixar!

enquanto aves selvagens nos assustam espalhando mais ainda o medo e a raiva que sentimos, aqui nem o sol se consegue ver tal a vegetação à nossa volta e sobre nós, vastidão nenhuma e carreiros feitos à pressa leva o jeep enquanto outros caminham em carreirinho rumo ao desconhecido, aquele onde já nos encontramos.

Nos braços tatuados “amor de mãe” e saudades, onde a família e a terra, se família ainda quem sabe, um dia o fim disto tudo e de novo a terra que nos viu nascer sem culpa nenhuma e ganância do nosso maior mal,

– viva Salazar!

um dia terminarás e tudo termina também, sinto o cheiro da chegada que pretendemos todos e Salazar findar-se nos escombros desta raiva que nos deixa sem fome, sozinhos e entregues à nossa sorte.


Como aperitivo à deliciosa prosa de Vítor Burity da Silva, apresentamos novo capítulo do livro Sobre As Águas Da Vida O Silêncio Dói


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