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Sábado, Outubro 16, 2021

Sobre as águas da vida o silêncio dói

Vítor Burity da Silva, Angola
Ph.D em Filosofia das Ciências Políticas. Doutor Honorário em Literatura e Filosofia. Professor Honorário de Filosofia da Educação. Professor Universitário. Investigador. Escritor.

O soldado das transmissões conta notícias informando-nos de ordens chegadas de lisboa e a gente a ouvi-lo caminhamos, a bússola na mão ensina-nos a seguir o rumo certo enquanto o capitão nos orienta como bois num prado

XXXV

É horrível a gente sentir-se fora, longe de casa, da família, é difícil acordar e mesmo sem dormir pensar para nada, que adianta pensar onde nem sequer nos permitem falar, sento-me desvaído num degrau de pedra e conto os dias sitiados em estrelas cadentes que me desfiguram o rosto, aperto os atacadores e pés inchados revoltam-se contra mim porque nada sei a não ser ter que aceitar as pontas desfiadas destas conversas de caserna sem nenhum sentidos, perdemos a noção da realidade e inventamos momentos que nos consigam descontrair. À hora dos pensos o enfermeiro no corredor dirige-se a mim e vamos limpar o sangue jorrado em mais um dia de rotina, é isto que se vê todos os dias nesta enfermaria de campanha onde soldados esticados tentam fugir da morte lamuriando e o capitão nada, sem sentido de humor nenhum apenas ordens no seu uísque de todos os dias e a sede sobre a nossa cara desfigura-nos como cães famintos. Esta tarefa não cessa, uns descansam enquanto outros combate, desenfreados nas matas longas como uma régua da escola e seguem sem sequer se aperceberem do caminho, o jeep grita o ruído do motor cansado de velhice enquanto para trás a poeira desta areia encarnada, estradas construídas de terra para combatermos e continuamos e no acampamento desesperam o nosso regresso,

– feridos?

o soldado das transmissões conta notícias informando-nos de ordens chegadas de lisboa e a gente a ouvi-lo caminhamos, a bússola na mão ensina-nos a seguir o rumo certo enquanto o capitão nos orienta como bois num prado ou exilados de sua casa qual fome qual quê, caminhamos e só isso, pouco mais nos ensinaram. Abraça-me meu bebé, sabes?, apetece-me tanto o teu abraço, os beliscões que me fazias sempre ao acordar, beija-me também, sim, sem pressa, um beijo longo como as matas de áfrica no meu corpo, como as picadas entranhadas nesta dor que me amarga o coração e destrói os sentidos, abraça-me que eu não me cansarei, a sério, sou um menino agora que precisa tanto de um abraço que enrole a ti, algo que me envolva, sequioso, talvez me consigas tornar no vaidoso que sempre fui e que me esqueci entretanto, vejo as balas caírem sobre as tendas e obuses destruírem o nosso refeitório, sei, quando chegar a lisboa nunca mais sairei de casa, nunca mais te deixarei sozinha na sala a ver televisão procurando por mim, quero sentir o calor da família em vez do que sinto nesta mata lutando contra desconhecidos e perdido, sinto-te ausente meu amor, fala-me, preciso tanto de ouvir as tuas preces, ver e ouvir o teu sorriso, aqui mesmo neste lugar onde só nos encontramos os dois, talvez a mata desapareça de vez desta cabeça estiolada e os ouvidos doridos, abrir a janela da sala e ver passearem pelas ruas ou nas comprar de natal, está frio meu amor, este natal passarei convosco na nossa casa de benfica e ver o estádio da luz encher-se de alegrias que tanto preciso.

Soldados portugueses em Angola, 1961 à 1975 (Wikimédia/Guilmann)


Como aperitivo à deliciosa prosa de Vítor Burity da Silva, apresentamos novo capítulo do livro Sobre As Águas Da Vida O Silêncio Dói


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