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Segunda-feira, Setembro 20, 2021

Sobre as águas da vida o silêncio dói

Vítor Burity da Silva, Angola
Ph.D em Filosofia das Ciências Políticas. Doutor Honorário em Literatura e Filosofia. Professor Honorário de Filosofia da Educação. Professor Universitário. Investigador. Escritor.

Eramos muitos e juntos corríamos de um lado para o outro, o sabor da companhia, todos de olhos azuis como o velho que vendia cebolas perto da pousada em carmona.

LIII

Escorre um mel de tentáculos dispersos ao fundo, onde a vista consiga alcançar desesperada pela ânsia de renascer a cada segundo do próprio casulo verde com pontas e agulhas de metal sombrio sobre a máquina de costura. A minha mãe costumava fazer na altura uns belos vestidos de noiva, fazia fatos de pai natal para as crianças do bairro, lembro-me como gostava e tantas vezes me deitava por baixo da máquina enquanto ele passava no seu vagar descontraído a produzir emblemas aos quadradinhos para enfeitar as tardes.

Eramos muitos e juntos corríamos de um lado para o outro, o sabor da companhia, todos de olhos azuis como o velho que vendia cebolas perto da pousada em carmona, mais a cima, a mercearia do senhor Fagundes amigo dela e que costumava registar no seu livro as despesas que se pagavam ao fim de cada mês, onde tantas vezes me dirigia para comprar bombons de mel que adorava, descia e ficava escondido no quarto para ninguém me ver, lá fora o calor ainda e o criado Samuel cuidava do quintal arrastando as folhas que caíam das árvores de fruta que me enlambuzavam os dentes, o meu pai no consultório de vício ou no banco de urgências recebia acidentados, chegava sempre muito tarde a casa e a minha mãe lá se dirigia para a cozinha para enfeitar a mesa de comidas sadias.

Pela noite os rios e a cabeça entalada na almofada sossegado como um gato no divã da sala, escuro, a janela meio aberta, trazia uma luz breve à minha cama sozinha comigo sobre e eu com ela sozinho e comigo sei lá onde, sim, sei da estrada das traseiras da casa velha onde moramos com fatias separadas de amendoins assados a vendedora cansada, descia pela calada da noite e dentro de mim um sorriso que me decorava sem tédio e que rumo sorver o tempo ainda que escuro, crescia para ser um tropa para me cansar de morrer em matas tão parecidas, eucaliptos desaparecidos no escuro apareciam pela manhã e chovia devagar sobre as montras do rosto como os mármores da sala de jantar sobre a mesa ou estátuas para decorar e tudo me parecia um monte de juncos separados pela indiferença e o Zacarias no quintal fardado de preto num luto sem cerimónias do óbito na sanzala onde os soldados invadiram sem querer buscando migalhas de balas e granadas ensanguentadas inventando um fim naquela noite de tiroteio onde os metais luziam solidão.

O meu percurso impiedoso de medo agigantado nas montras de costelas saídas quase que mostrando o grito seco na garganta a cada salto ou assalto na mata e mais uma sanzala sem nome neste norte de ninda enfraquecer o jeep cansado e a g3 a tiracolo para inventar saudades, nem dores pelo peso da tarde sobre nós em mais uma jornada renascida para descobrimentos com Diogo Cão ao lado numa jaula de tela pendurada nas paredes do campo e a norte um rio de reis antigos, diziam os moradores já velhotes da sanzala enquanto se sentavam connosco e comiam sedentos cabritos assados sobre lenhas molhadas ainda.


Como aperitivo à deliciosa prosa de Vítor Burity da Silva, apresentamos novo capítulo do livro Sobre As Águas Da Vida O Silêncio Dói


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