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João de Sousa

Domingo, Outubro 24, 2021

Ao Fundo Pitangas

Vítor Burity da Silva, Angola
Ph.D em Filosofia das Ciências Políticas. Doutor Honorário em Literatura e Filosofia. Professor Honorário de Filosofia da Educação. Professor Universitário. Investigador. Escritor.

E numa rua qualquer, sei lá, morri, numa esquina à caminho da escola, a manhã rompia num vagar tão lento que irritava e não suportava e tombei

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– Ouvi… pensas sempre que nunca nada sinto, ou ouço, mas não penses… recordo ainda agora a exactidão do dia. Ai sim? Então repete tudo, tal e qual. Longe de nós, não muito longe, o mar subia lentamente as areias da manhã, com o toque que marcava a melodia que trouxera eu antes e te entregara, o ritmo continuava e tudo se ia transformando em certezas, criando na alma a luz do sorriso que engolira o desejo, de cabanas construídas numa areia verde, sem relvas nem ervas, com o ladrar que não sei de onde vinha, apenas o ouvia, do caos dali, o mar sobrepunha-se e eu dissecava lentamente um corpo que quase molhado, mergulhado, comungava restos que entregara ao dístico da vida deixada na cidade a cem metros, dum rés-do-chão por ali, o automóvel preto deixado à porta até sentir na pele como se é belo quando se sente o mar… esse distante dia na marca dura da pele ainda existe, e não seca. Sei, como vês sei. Nosso esse mar. Todos os pedacinhos dele, guardarei. Todas as gotas irei levar comigo, irão viajar comigo os meus sonhos, vou levá-los e poder um dia entregar-tos, num mar inteiro, redondinho, delicadamente cuidado, para que o sintas em mim como parte de mim contigo, nesse lugar onde nunca estive.

– Quero o sal dele. O ruído dele. O barulho matinal dos Verões. A calma quente. O azul imaginado. Romântica? – Às vezes.

– Oh, como explicas isso?

– Às vezes sim. Umas vezes devo sê-lo, outras nem por isso, independentemente do que na verdade sou, uma pessoa assim, mas que achas? É errado?

– O que é ser errado para ti?

– Tens outra interpretação? Romântica, às vezes… uma questão de língua, não achas? Desde o início estamos no mesmo idioma. Acredito. Os devaneios, é que às vezes despistam a lucidez da língua. Falemos então várias línguas, misturadas, somos líricos, que importa. São certezas e azedumes dos dias. São certezas da vida, que nos forjam a verdade.

– Entendo. Lidas com as coisas consoante estiveres disposta.

– Nem sempre.

– E hoje?

– Não sei. Sei.

– Que sabes?

– Que falar não me parece ser coisa que te apeteça.

– Fazes-me rir, não como gozo, mas achei piada.

– Também eu. Assim não nos entendemos…

– Bem, que queres dizer com isso?

– Nem tu falas nem eu… assim…

– Desconversas com a história do apetece ou não.

– Sou assim, falo pouco e quando falo, pouco digo.

– Escondes alguma coisa?

– Não. Talvez te deva dizer uma ou duas coisas.

– Podes começar.

– Pronto para ouvir e aceitar?

– Completamente! Que irás depois usar contra mim?

– Sobre quê?

– Sobre o que acho que devo contar-te.

– Oh Lúcia, são coisas que só a ti dizem respeito, logicamente devo aceitar ou não, se forem coisas que me prejudiquem.

– Não te prejudicam, começamos sem horizontes.

– Tens razão. Às vezes esqueço-me.

– É disso que não gosto.

– De que?

– Não é bem não gostar, mais recear.

– Desembucha Lúcia!

– Não é fácil. Nem simples. Nem sei como começar. Até porque nem acredito que vás entender. Temo isso sabes?

– Vou ficar preparado. Vou aceitar. Nem que isso implique diferentes maneiras de nos relacionarmos.

– Começas com essas coisas, inibes-me, cortas-me a vontade de dizer o que quer que seja…

– Não tarda, temos uma peça de teatro… romântico… dramático…

– Não seremos mais que uma peça de qualquer coisa mesmo… não é vaga nem casual, mas não é concreta nem será nunca…

– Se for inconcreta, mas ao menos andar…

– Empurramos…

– Brincalhona…

– Temos de dizer alguma coisa, nem que sejam parvoíces.

– Ouço tudo que queiras, nem que seja para desanuviares.

– De facto preciso mesmo. Às vezes sou assim também, meia parva.

– Vou dizer que não me importo nada que o sejas, problema teu não achas?

– Acho.

– Também eu. Sou louco. Não vivo parado. Preciso do movimento das inconstâncias.

– Que quer isso dizer?

– Gosto de movimento, acção. A minha vida é uma história que quero dar continuidade.

– Sobre quê?

– Poderiam ser até questões sentimentais.

– Namoradas?

– Também.

– Quantas?

– Nenhumas.

– Então?

– Viagens apenas, este telúrico silêncio da nossa vida.

– Então?

– Nada.

A lezíria rompia por entre canaviais um silêncio surdo. Os passos, ainda submersos, rangiam em ecos de cores que iam até ao fundo da rua, talvez mais depressa que a consciência, ou que o pensamento, e sob as sombras meio frias o meu rosto distendido numa vastidão de rumores e outras vozes, nada vendo, para além da lezíria que rompia por entre os canaviais.

Rangem enfim como resquícios. Sobram nuvens e dentro deles um temporal de vícios descoloridos como rosas sem rumo, um roseiral de sonhos na masmorra mais dúbia do tempo.

Ao longe o riso do vento sobre as giestas, o decorado silêncio dos palanques, a minha pele, a minha insónia, ao longe, não há como queira eu um destino secundado nesta perdida ausência dos meus pecúlios seguindo, como eu, este rumo sem cor sob as árvores esquecidas do meu quarto. Decorado de brancos lençóis num sonho de tédios, o requinte, nem ali, nem eu sei lá como, mas sempre uma dor desprovida, desentendida, num amargo de boca como refém dos meus próprios silêncios, que não me amarguram, não me aniquilam, mas lá ou ali, na sopra cósmica de ventos e de rumos sem caminho, na sombra avulsa dos silêncios, repito que sou, sublinho, desde muito novo, lembro-me de quando tinha catorze anos me diziam:

– Pensas que vieste do céu?

Coisas, nem coisa nenhuma, algum artefacto de barro na cama onde murmurava os meus dotes de ninguém calado, na almofada de cobertores dobrados sob a cabeça numa dor de raivas, o toque não existia, a solidão de remédios esquecidos no ambulatório desvairo dos meus destinos, para ninguém mais à cabeceira num gesto fraterno, um aconchego, um afoito toque na testa.

Dorme meu amor.

E numa rua qualquer, sei lá, morri, numa esquina à caminho da escola, a manhã rompia num vagar tão lento que irritava e não suportava e tombei, sobre um desenho fatídico no passeio, no meio da rua, onde ninguém reparava sequer, onde sou eu e a minha ambicionada morte cantávamos um delírio de funestas vontades e nesse amanhecer, a caminho da escola, o último grito sem vontade nenhuma de nada nem de mim, ali tombei como uma pedra atirada com raiva, a raiva da ausência, do pecúlio, sem vontade de nada, na cama de um hospital inventado na maresia mais lúgubre dos meus próprios desígnios, no sal descolorido da minha infância, do quintal proibido, do meu grito impedido.

Rodearam-me batas brancas para morrer sem razão. O olhar indefinido dos outros. Camas à minha volta num olá desprovido e frio. Não queria mesmo morrer, pensava, num torpor desguarnecido, mas morria à mesma velocidade que os que morrem sem pão nem pai.

Os meus passos voltados ao avesso nesta nuvem encardida e sem verdade nenhuma. Não havia nem como, nada dizia:

Que haveria eu de dizer naquele torpor estúpido?

Onde só os meus gritos se ouviam num corredor onde nada lá estava, as batas cercavam-me num desejo de estudo, e ouvia:

– Coitado!

Um eco perdido no silêncio obtuso e quadrado da sala, deitado estava eu ainda e seria mais que isso, o maqueiro esperava cansado numa contabilidade rarefeita, mais um menos um pensava ele, numa verdade matemática das nossas existências, restam os lugares nos arrumos mórbidos do hospital já farto de tantos morrerem sem vontade, como eu:

Vontade de te amar e não estavas lá, vontade das tuas mãos velhas e rugosas sobre a minha testa e não estavas lá, a memória estava alojada no peito, que a cabeça morrera já, cansada de afazeres displicentes, a tua mão voara, sei lá, vontade dos teus afoitos carinhos a dizerem o meu nome e não estavas.

Os olhos fechados fingiam que a morte me havia já levado, a ouvi-los cochicharem contra os meus vícios, raivas, indisciplina e nada eu lhes dizia, pensavam-me mais morto que a morte dos cisnes no quintal municipal, no jardim abandonado da cidade, lagos e charcos na cama numa memória meio adormecida e encher-me de tantos outros nadas, nem tremiam sequer tal era a verdade que lhes queria mostrar. Estava de facto a morrer.

Num frio eu calado, as janelas abertas do quarto, caserna ou que raio eu fingia que já havia morrido, ouvia como dissertavam, como alegavam os desígnios da razão:

Já não escapa. Ouvia.

Os “plim-plim-plim” das máquinas silenciaram-se após ouvi-los, pensava eu ter mesmo morrido, sem medo, não morri. Fechei os olhos e esqueci a solidão, a vontade, a dor, fingi que não estava vivo. Verdade!

O ranger de macas vadias para a frente e para trás, e saltava por dentro, para que não me ouvissem os meus delatores, submersos os meus passos naquele lugar onde a morte nasce sem o riso do pai, onde se vai desta para melhor na alegria do cangalheiro de fita métrica na mão:

Sinto muito, mas, paciência, mais um.

Um corredor moribundo por onde os ecos se confundem, a cor da vontade escarnecida num delírio de picadas, a pele furada outra vez e eu a fingir que morri. Muito mais vivo que pensavam.

Aos pés da cama o boletim clínico:

Clinicamente morto.

Um rosto negro dilacerava, às voltas, de guilhotina enferrujada, cabelos de diabo num sorriso amarelo:

Filho de quem?

De nada. O destino mora aqui.


Como aperitivo à deliciosa prosa de Vítor Burity da Silva, apresentamos novo capítulo do livro Ao Fundo Pitangas

 

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