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Terça-feira, Junho 22, 2021

Ao Fundo Pitangas

Vítor Burity da Silva, Angola
Ph.D em Filosofia das Ciências Políticas. Doutor Honorário em Literatura e Filosofia. Professor Universitário Auxiliar. Investigador Auxiliar. Escritor.

Sinto uma falta enorme dos teus beijos, este espaço é demasiado fechado para os meus horizontes, aglutinado nas tuas paredes, engolido pela tua ausência, tantos anos a dormir na mesma cama.

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Se soubesse dos recantos da sua calma, por onde se escondem e por que cantos, ruas, nada me fazem entender o que quer que seja a não ser o silêncio, as cores, sei do vento esticado sobre a folhagem nómada, das suas viagens pelo prado, empurrados, os galhos moribundos e felizes, numa manhã inocente e ali alojados sem preocupações nenhumas, livres de tudo, no verde seco e na luz sazonal que rompe os galhos, saltarem de galho em galho os pássaros da floresta, ramos entreabertos, e claramente, é vê-los saltarem de monte em monte, galgando o silêncio que ali se tempera devagar, ali não há pressa, a fauna é inocente, procuram enfim saciar a fome, engolindo restos que se soltam da vegetação, animais que se distam da vida, restos antes vivos, mortos na solidão de tantos quando a vida para eles termina, outros mais indefesos, e quando a noite regressa o conforto para o esconderijo criado para a família, onde filhos os esperam famintos, a luta rígida pela sobrevivência, esperam os pais de bico para fora, sugando com faro o alimento guardado nas guelras secretas onde só eles sabem, papás e mamas a regressarem calmos, durante o dia apenas almejaram guardar, para devolver às suas crias pequenas, famintas, solitárias, guardadas.

Ainda assim restos de um tempo por amargurar, a vitória enlutada, a falta que o meu pai lhes faz, lembro-me daquela tarde sozinhos em casa da minha mãe, o fumo que nascia em cada resto da casa, a cada pestanadela, fintei o medo, o escuro por si trazido sem conseguir, claro, abrir os olhos da ânsia, e ainda assim o fumo nas narinas percorria todos os lugares, assoalhadas vazias da casa, a minha mãe lá fora, assoalhadas nenhumas, e que mais havia?

Sinto uma falta enorme dos teus beijos, este espaço é demasiado fechado para os meus horizontes, aglutinado nas tuas paredes, engolido pela tua ausência, tantos anos a dormir na mesma cama. Se ouvisse alguma voz esquecida no alçapão dos vizinhos, a dona Beatriz pelo centro da cidade, na baixa de Luanda em rumos seus, era ainda o pólo norte na Mutamba, com frescos sorvetes e sandes de bife, não imagina ela a confusão aqui criada, a minha inocência presente, comungo com ela devagar, o fumo escorreito alonga-se e fecho todas as portas com medo que me vejam nada fazer, calculo, voltaria cedo a casa da minha mãe.

Não sei como. Um rebuliço nos meus olhos perdidos, inocentes, o sono perto vai surgindo, deitar-me nem sei como, vontade é coisa nula, nenhuma, o rebuliço crescente ainda nos compartimentos que desconheço e quando a realidade surge é na floresta que vivo, é onde repouso os meus restos esquecidos por mim mesmo, é onde me refugio das minhas agruras, das minhas insanidades, dos meus desleixos, e o olhar ainda, não me entendas se fizeres favor, prefiro o teu gesto contra o meu peito cansado de sonhos, e só a cabeça sonha, prefiro sentir-te abraçada a mim como uma árvore crescida embala a natureza, a floresta, o vento sem rumo que a assola, nem que os vendavais por ali passem, levem o resto do tempo, arrasem a tranquilidade tantas vezes perdida, dizem que a gente se habitua muito rapidamente, sei lá. Entendes o que quero dizer-te?

Se o meu presente se perde tantas vezes, ser uma árvore talvez resolvesse parte da questão, enterrado nas areias da vida, beber os sucos escondidos pelos fundos desta humidade de folhas quase secas, sei lá, penso tantas vezes em ti, neste prado sem horizontes, quem sabe se abandonado, esquecido pela razão da vida, lembro-me ainda do tempo enquanto milito sozinho memórias guardadas no armário dos meus silêncios, ouço dizerem, mas não sei se me dizem alguma coisa na realidade: Um recruta está abaixo de cão, amigo!

Se um dia me metesse a caminho, saísse de casa, desta casa da minha mãe, que embora ausente, deixava perdidas as minhas irmãs, todas mais novas que eu, houve-se daqui, mas iria para longe numa canoa feita às pressas com troncos de eucaliptos, se o regente agrícola estiver longe não me incomodará, ou se cortar da floresta for infringir a lei, corto troncos dos eucaliptos longos e crescidos, cheirosos, navegarei depois pelas águas do rio para um lugar qualquer, mesmo que não tenha nome, onde viva alguém talvez ou mesmo que não viva ninguém por lá, me conseguisse encontrar, se naufragasse morreria enrolado nas mãos ou braços dessa força da natureza que tantas vezes me delicia com as suas ondas e correntes, que me permite mergulhar nela molhando a pele desta cor seca da tarde onde o sol me cansa, rebolar nas areias, ou que sonhada praia, as quimeras enlutadas, soltos os ruídos na panorâmica tardia, esqueci-me de te dizer tantas vezes do meu amor por alguém, tantas vozes esquisitas na memória:

– Não tens cura, meu rapaz!

Tentei imitar a minha mãe:

– Espero por ti a todas as horas!

Nem que seja bafejada de lágrimas a criarem-lhe rio no rosto, a alma, essa, sobe caso esperes, e eu não sei esperar, a escola ensinou-me a ler, não a saber esperar, o resto não sabe de nada como eu de nada sei, quero seguir, talvez pressa de amar, morri sentado no jardim onde antes pássaros poisavam, um sim sem rugas e a pele cravada neste sargaço de tempo, não sei da voz:

– Quem vem lá, quem vem lá?

 (el Rei Dom João II)

E repete-se, não sei se o eco:

 (el Rei Dom João II)

Coisa nenhuma.

Longe o triângulo das bermudas. Livre um dia sentado nas escadas, que escadas? não importa, essas escadas não existem, acredito.

(descobri Portugal?)

E vir de Guimarães sem viaturas nem carros de combate, sinto que estafa, sinceramente, comer quilómetros que são e tantos, descer mata a baixo com uma espada pendurada nas costas e tentar expulsar quem não pertence a este reino, dizem-me que invadiram esta nação com nome diferente antes um Portugal de Afonso Henriques sentado no mosteiro dos Jerónimos sei.

– Expulsar invasores?

Sem dó nem piedade e que importa, são restos que ainda havia por Lisboa, antes ainda o terrível terramoto nesse tão feio mil setecentos e cinquenta e cinco dizem, não estava por aqui.

– Não vivia ainda, duvidas?

Mas um familiar contara-me. Nunca na vida senti a terra tremer como tremo quando me temo e como me temo tantas vezes, creio um dinossauro nesta demanda, Afonso também de nome vindo de Trás-os-Montes e viajando depois para bem longe, viveu pelo sul de Angola anos a fio e lá faleceu coitado, velho e cansado mas sincero e despido de males, apenas recordo a sua careca e os olhos verdes, e Mirandela, sua terra, ficou para trás. Contam-me das suas sensações, a minha mãe descendente com ele mas do seu pai nem recordações se quer incomodar, dizem que desnaturado a minha tia mais velha pelo norte, cansada, como quem nem sequer o nome de família possui, que caraças, como me havia eu de preocupar com essas andanças:

– Como estás velhinha, mãe.

Recordo-me das brancas na tua cabeça que tantas vezes terei visto, Afonso enfim a minha mãe nada disso, não me importa, a sério, improviso nestas cartas sensações apenas, há muito tempo ouço conversas de família e quero já esquecê-las, acreditem, incomoda de mais ouvir as mesmas coisas a vida toda, e ela nem brancas na cabeça sei que não pinta de negro é de si, são lápides vazias esses caminhos, as suas brancas mergulham e fogem da verdade, a vida não se quer recordar, lemos e estudamos dizem que história já gostei, há muito tempo vivi tudo isso anos a fio mas cansado, enquanto os carecas são memória nem esqueço que mal me fazem, sem cabelo nem vida o meu avô Afonso falam-me dele tantas vezes e por que razão, certamente alguma importância, dizem que cultura assim se faz, cultivo a ideia de pensá-lo, se bem quero mesmo é nada saber, nunca serei careca. Quem diria, e logo um velho a comandar este exército de tropas atrofiadas no silêncio das noites, onde insónias, cansaço, farto de tantas delongas, deixar-me fluir pelo campo, far-me-á certamente bem, Afonsos a mandarem e a comandarem o que será um dia, este país nascido, dizem, pelas mãos de um Afonso, já li algures, nem tempo mais tenho para as perceber, acreditem, porque se cansam os inocentes?

– Dom Afonso Henriques era primo do meu avô.

Dizem-me que na altura mouros, quem eram, hoje coisa nenhuma, garanto, mas sinceramente, ouvir o folclore dizimar-se nas ruas e centos comerciais que invadem e enervam, mas que importa coisa alguma nesta vida antiga e passada onde memórias moram, quem sabe se viagens regressivas ao silêncio das almas mortas nas tardes fundidas da vida que não se esquecem nunca. Não queria estar enganado, a sério!

De novo:

 (el rei Dom João II).

Enquanto morrer ficarei parado. Ecos nas florestas, onde livros me livrem, ouvi, onde não sei sequer, vi-os como vento, como tempo, nada! Caminho.

Falas-me em voz alta, que motivo? faz-me dor, sabes? Se numa cozinha cozinhar jantares, cozidos fugazes para um prato vazio, que mais importa? Rendo-me. O carcereiro ouve-me de longe, sentado na poltrona dos infelizes, corre a seguir ao número de outro é a vida que pretende, sem lutos nem lágrimas.

 (bom gesto, talvez).

Alinhadas, descem rampas e destinos, diria que uma cidade central deste país sem rumo, cidade apenas e nada mais vale comentar, iluminada, acesa, com trânsitos e gentes e mais, folhagens inusitadas e vadias, espalhadas pelo acaso, não sei se sim, mas queria acreditar, li de José Cardoso Pires uma vez que nada importa a não ser o cigarro contra o espelho perdido já naquela casa de banho do seu fim e Lobo a responder-lhe. Vi o fumo subir as paredes, depois a morte, não o conheci, mas que raio, que falta. A folhagem geme, o silêncio dorme, o Caminha para a fila estanca, paro de seguida enfim, como caminhar sem rumo? À minha frente resmas vazias, vozes caladas e coladas dizem que Sócrates verdade, gelam os meus pés, calados também, não falam, as folhas deitadas, sem alma, e quase secas, rastejam empurradas pelo resto que ainda sobra daquela tarde infinita, o chilrear do meu destino contido, coisa nenhuma, desiludido estou e não importa, a vida amigo, a vida, entendo senhor, diziam quem não sei, ouvi nem sequer de quem, devemos ouvir as vozes caladas, acreditem.

Ou se por vontade a floresta crescesse cansada, entrava por mim a dentro sem voz, apenas das cores verdes sobrem silêncios flutuantes neste verde perdido, espalhada pela rebelião acústica dos cânticos da folhagem, ou se por acaso a vida voltasse novamente aos meus desígnios entre que memórias, voltar atrás ser renascer, regressar à barriga da minha mãe, aninhado no seu útero quente e quereria jamais de lá sair, a floresta é também fêmea, sinto isso, e como me conforta dando-me a sua mão, não tenho útero tem-no a minha mãe, tenho-a a ela e embora cansada também, não se esquece do nome, cresci, vim das coisas que, lembro-me do que lhe contara, do que dela ouvira, da vontade de a rever sempre, e como sentem elas no silêncio de um filho, a voz adormecida, não falam, ouvem com as sensações. Não me perguntem nada, sinceramente, sei como nada disto percebo, mas sim como em tudo isto me sinto.


Como aperitivo à deliciosa prosa de Vítor Burity da Silva, apresentamos novo capítulo do livro Ao Fundo Pitangas

 

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