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João de Sousa

Sábado, Outubro 23, 2021

Patologias fabricadas

Beatriz Aquino
Formada em Publicidade e Propaganda. É escritora e atriz de teatro. Nascida no Brasil a viver em Portugal.

Certo dia, mulheres estripadas começaram a aparecer pelas vielas escuras de Londres. Toda a região era uma mistura de fog, sangue e dor. Prostitutas, maltrapilhas com as vísceras de fora. Era demais para a realeza. João rezava e pedia à todos compaixão. Mais honrarias. A paz do mundo. A balança do justo. O equilíbrio dos sensatos. Ele era a voz da bondade.

João carregava no semblante uma serenidade de menino bom.

Era asseado, cordato e fazia as lições de casa bem a tempo de ajudar a mãe nas lidas domésticas.

Na escola, era o segundo da classe, pois cedera silenciosamente o primeiro lugar a um colega que segundo ele, precisava mais do título.

No bairro, era querido por todos e tinha a moleira achatada de tantos tapinhas de aprovação. Na procissão, era sempre o anjo da Boa Nova. Tocava harpa e cantava em latim.

Certa manhã, uma galinha apareceu sem cabeça no quintal da sua casa. Um horror. Comer a bichinha frita em óleo quente na panela tudo bem, mas arrancar a cabeça dela assim às vistas claras, não podia. Felipe, o filho da Jandira, fora logo sentenciado. Afinal, era sempre ele quem aprontava essa coisas mesmo. João fez o enterro da bichinha. Latim e liturgias. Os pais e toda a vizinhança ficaram impressionados. O padre o indicou ao seminário. Doze anos e os gregorianos o pegaram. Era todinho deles. De corpo, orifícios e alma. João nada dizia e se doava. Pois era bom e cordato.

Um dia, um padre, o mais velho e o mais arfante, apareceu morto dentro do confessionário. Estava sem cabeça. A batina se debatendo sem voz e identidade. Um horror. Culparam o mendigo que dormia nos bancos da igreja porque era bêbado e as vezes violento. Mas que no fundo, gostava mesmo era de ouvir os cânticos da missa. João fez a missa de enterro do padre, a mais linda que já viram. Foi ordenado ali mesmo. Sua fama de bondade em púrpura atravessou os oceanos. O Vaticano o queria inteiro. Em corpo, latim e orifícios. Iguaria latina. Não poderiam perder. Mas ele preferiu a Inglaterra. Uma alma boa no reino. Uma igreja discreta por alguns meses, depois a Abadia, a tal de Westminster. A consagração, a espada sobre o ombro. Cavalheiro. Membro honorário da realeza. Jejum e orações em prol do mundo inteiro. Jamais comera carne, um santo. Enterrara uma galinha morta quando menino e desde então nunca mais tocara em corpo e em sangue. Um santo. O ombro envergado de honrarias. A cabeça pesada de ornamentos.

Certo dia, mulheres estripadas começaram a aparecer pelas vielas escuras de Londres. Toda a região era uma mistura de fog, sangue e dor. Prostitutas, maltrapilhas com as vísceras de fora. Era demais para a realeza. João rezava e pedia à todos compaixão. Mais honrarias. A paz do mundo. A balança do justo. O equilíbrio dos sensatos. Ele era a voz da bondade.

Uma vez por semana, João despia-se da batina. O frio a bater-lhe nas nádegas gastas. Tantas honrarias e ascensões sacerdotais haviam-lhe custado todos os orifícios. “O homem é um grande buraco.” Ele pensava, trémulo e vibrante enquanto colocava a roupa civil. Um casaco escuro e um chapéu misterioso.

Em um restaurante de quinta, o seu preferido, João comia galetos engordurados com as mãos, tomava vinho tinto barato e lambia os dedos em uma satisfação imensa. Os olhos faiscavam. O sexo rijo por baixo da mesa. Ereções gastronômicas, espasmos sensoriais. O cio do mundo dentro dele.

Lembrou-se da galinha sem cabeça da infância e do choro e espanto das senhoras medíocres e hipócritas do vilarejo que se chocavam com coisas do tipo, mas que à noite gastavam as costas nos colchões baratos ao serem penetradas por seu maridos adúlteros. Cheiro de sexo disfarçado e hipocrisia. Culpa, dissimulação e castigo. Era esse o cheiro da sua infância. A adolescência permeada pelos gritos e orgasmos dos padres anciões também não lhe deixaram boas lembranças. Os orifícios lhe doíam até hoje. Na boca, o gosto insalubre de espermas sacerdotais. Lembrou-se do grito de espanto do padre quando ele lhe cortara a cabeça. “Fucking old fag!” Ele disse baixinho em meio ao gole de vinho. Sua ereção dobrou de tamanho. Pediu mais meio galeto e mais uma taça de vinho barato. Estava com uma fome de touro.

Da saída do restaurante, um frequentador a quem um dia dera atenção e meia dúzia de informações desencontradas, lhe saudou:

– Hi Jack!

E o cheiro do grito e do medo das mulheres das vielas escuras lhes encheu as narinas…


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