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Sábado, Outubro 23, 2021

Sobre as águas da vida o silêncio dói

Vítor Burity da Silva, Angola
Ph.D em Filosofia das Ciências Políticas. Doutor Honorário em Literatura e Filosofia. Professor Honorário de Filosofia da Educação. Professor Universitário. Investigador. Escritor.

Mais velho e cansado sim, oficial médico que não estudou para isto, ser enviado sem apelo nem agravo para um longe por nós completamente desconhecido, não conhecia os cheiros, de ventos, não sabia do cacimbo nem de que calor sobre a farda quente e suja, nem tempo para a lavar, acredita, somos atirados a um canto e mandam-nos desenrascar como conseguirmos.

XXIII

Tivemos um primeiro dia, viemos no primeiro dia, resta-nos agora e ao fim de uns bons anos saber do regresso, coisa que me parece estar longe ainda, não recebo informações nem sei às quantas ando!, mas no meu calendário de bolso risco cada dia passado, cada dia vencido numa luta desenfreada e Lisboa espera-me, garanto!,

– está para breve Deolinda!

É uma coisa pacífica, as coisas ao princípio parecem piores mas disso nada é verdade, apenas o cansaço de ter que suportar tanta ausência das minhas coisas, do meu bairro e amigos, da minha filha a crescer sem o pai por perto, são dores que nunca desaparecem, venham aspirinas e mesmo assim nada, apenas as tuas cartas me enchem de felicidade, saber de ti e como estão as coisas, saber da minha mãe e do meu pai no consultório e eu numa enfermaria de campanha, a minha mãe na cozinha fabrica cozidos e feijoadas pensando nos meus gostos, sei que ela nunca se esqueceu do que aprecio comer refastelado numa mesa cheia de gente.

– fala-me da nossa filha!

Risco folhas de memórias enquanto descansam soldados feridos, rabisco, rasgo, volto a escrever, nem me sai como pretendo, dizer-te bem a fundo das minhas saudades e da minha vida nestes isolados silêncios a que fui atirado. Um dia a missão terminada, o nosso regresso como heróis que lutaram pela pátria, a pátria que nos viu nascer e alguns morrerem, nem todos chegaremos vitoriosos, eu não voltarei preenchido com a falta de camaradas perdidos nas balas atiradas do desconhecido, é triste amor, mas que fazer?, da nossa filha perdi o rumo e a idade dela, não sei ao certo a sua idade, acredita Deolinda, escreve-me e dá-me informações, coisas de que preciso para acalmar.

Que navio nos levará de volta?

Que idade terei nessa altura?

Mais velho e cansado sim, oficial médico que não estudou para isto, ser enviado sem apelo nem agravo para um longe por nós completamente desconhecido, não conhecia os cheiros, de ventos, não sabia do cacimbo nem de que calor sobre a farda quente e suja, nem tempo para a lavar, acredita, somos atirados a um canto e mandam-nos desenrascar como conseguirmos.

– está para breve Deolinda!

(1968), “Guerra da Guiné: artilharia portuguesa.”, Fundação Mário Soares / AMS – Arquivo Mário Soares – Fotografias Exposição Permanente, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_114440 (2020-9-7)

Sento-me a um canto da tenda e só tu e a nossa filha na minha cabeça, sei da tua paciência miúda, da tua fé, da tua força, sei do nosso amor separado por um ditador que nos quer ver enferrujar nas matas. O soldado quase analfabeto não recebe cartas de ninguém, arranjamos madrinhas de guerra que ao menos consolam, lemos desconhecidos que se dirigem a nós com um discurso lindo a apaziguar uma dor feia, cansada, solitária, o capelão dá a missa e todos os domingos lá estamos, ouvir a palavra de Deus neste fim do mundo algures em Angola.

Adoro as gentes, as paisagens, as aldeias que nos acolhem e recebem com salvas e palmas, recebem-nos como irmãos, e somos de facto irmãos, comemos sentados no chão churrascos e assados saborosos, nem sempre nos entendemos, pois nem todos falam português, mas sabemos lidar com as diferenças e somos humanos a viver o mesmo dilúvio.

– bem-vindos irmãos fardados!

Sentados e conversávamos, não existem cadeiras, o lugar mais adequado é mesmo o chão, cada um com o seu pedaço na mão, viemos numa missão de paz e somos irmãos, bebemos vinho e quiçângua, a galinha assada e um belo churrasco, nós, soldados, um grupo de muitos naquele lugar humilde e belo, uma povoação de irmãos nesta comissão de paz.

Recebidos pelo soba, com toda a vénia e consideração, assim se faz o respeito e sentimo-lo com uma vénia, mais uma tarde feliz num lugar tão distante como todos os meus sonhos e delírios, confraternizar com gente pura e sã.


Como aperitivo à deliciosa prosa de Vítor Burity da Silva, apresentamos novo capítulo do livro Sobre As Águas Da Vida O Silêncio Dói


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