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Segunda-feira, Agosto 2, 2021

Sobre as águas da vida o silêncio dói

Vítor Burity da Silva, Angola
Ph.D em Filosofia das Ciências Políticas. Doutor Honorário em Literatura e Filosofia. Professor Universitário Auxiliar. Investigador Auxiliar. Escritor.

A enfermaria repleta de feridos e eu a acudi-los, a missão sabes?, cosê-los, colar pernas cortadas e cabeças estioladas, gente a morrer e eu vê-los definhar, soluços de morte amor, tudo a meu lado, apenas e só, a meu lado.

XXII

E a vida é um jogo, jogo onde tiver que dormir, a vida joga a minha melancolia, a minha ausência em pertencê-la, a minha inocência em ser sua, a tabuada da minha casa, a fome no quintal onde plasmava saudades, sinto sono, sim, sono por partir um dia e deixar o que for de mim num reflexo vazio e sem a matemática da tua sapiente contabilidade, saudade de ser novamente inocente e não pertencer a mais nada, a não ser à minha inconsciência de viver escondido nos mirabolantes desvios sem sentido da minha própria existência. Por isso mesmo e mais não vivo. Sonho.

De par em par as jangadas como que portadas para as traseiras, abertas ao dilúvio digo eu, uma rima singular de porta fechadas e a fachada era pendular como quem entra e sai sem se aperceber, era lá dentro o tempo, a quimera avultava em si esse desejo e levar-te era risonho, a gente sentávamo-nos nos divãs do tempo da minha casa e lá conversávamos como se ainda fossemos desse tempo.

Se as fontes deste rio fossem as minhas lágrimas, se fossem as minhas mágoas, é tudo um princípio e restam arestas por limar quando me canso.

Sentado nesta poltrona sei lá feita de quê, observo a janela aberta num ar de fuga, fugir dos meus medos e ânsias, fugir dos meus medos e presságios, divagar por entre a floresta como um pássaro sem rumo e beber das cacimbas, saciar tantas vontades escondidas nestes escombros da mente que me arreliam e despertam sonos e sonhos calados na alma aferroada de raivas e destinos.

Pairam ainda sobre mim balas, ruídos e gritos, sinto ainda na pele o arrepio do medo, o frio do vazio e o cansaço, medos que se não se esquecem, sabes?, há coisas em que a gente, por muito que queira, não consegue desligar nem tirar do lugar onde residem ainda. Sou um psiquiatra a curar-me a mim mesmo, a sarar da alma as feridas da vida, vagueio o recreio da minha imaginação e encontros escombros de anos perdidos, coisas que não se varrem com uma simples vassourada e pronto, são coisas interiorizadas e a alma cansada absorve e devolve-nos durante o sono como se fossem pesadelos e são, resquícios de tanto deixado naquelas savanas e matas, onde leões e goivos, onde gente nada, experiências que ninguém quer, acredito e afirmo!, fui levado como uma sardinha enlatado naquele navio, Dom Afonso Henriques, atracado em sines e lá está, tal como eu, acabado.

Ao longe a sirene da ambulância rompe o silêncio de mais uma tarde sem paz nenhuma, o condutor apressado aparece e o maqueiro carrega mais um ferido, mais um soldado desconhecido nestas matas do longe, eu ali, esperando o momento de o diagnosticar, espero feridas profundas se de uma mina ou bala, se de uma queda do jeep ou uma rasteira de um inimigo escondido em que trincheiras, e gritos e ais eu sentado no consultório preparo anestesia para o acalmar, sinto-me só Deolinda, cansado de estar cansado até e que mais nem sei, por dentro esta cabeça esvazia-se ou aziaga-se, a gente promete a nós mesmos um futuro melhor e o meu não foi este, garanto, não gosto de guerra nem ver morrer tanta gente inocente como eu inocente também.

Longe o cais do sodré onde bebia tardes, onde o mar passava deixando no ar a sua maresia, longe alcântara, o bairro alto, o meu bairro, longe a minha filha e a minha vida, tudo longe, tudo distante dos meus olhos e a cabeça apenas nessas viagens interiores beber sonhos e amarguras, cansado amor, desabafo com a vegetação e degluto cigarros uns atrás dos outros, fumo tardes infinitas onde que fumo a dispersar-me disto, da noite cansativa repleta de insónias, nem sonhos nem desejos apenas calafrios e dores, a garganta a arder e um dia febre, a morte nunca esteve longe e nós parados num mato desconhecido e o soldado do rádio guia-nos, a gente segue orientações via rádio, helicópteros sondam a floresta e leões nem vê-los, só tiros senão nossos ou do desconhecido que surge sem se esperar, sei, talvez por isso mesmo seja o desconhecido, a gente no conhecido o que fazer e nada fazemos, observamos apenas o nosso atirador especial a apontar a metralhadora e aniquilar o nada.

A enfermaria repleta de feridos e eu a acudi-los, a missão sabes?, cosê-los, colar pernas cortadas e cabeças estioladas, gente a morrer e eu vê-los definhar, soluços de morte amor, tudo a meu lado, apenas e só, a meu lado.

(s.d.), “Guerra da Guiné: exército português em operações de guerra na Guiné. Aspecto da enfermaria do Hospital de Bissau, com soldados em convalescença.”, Fundação Mário Soares / AMS – Arquivo Mário Soares – Fotografias Exposição Permanente, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_114446 (2020-8-30)


Como aperitivo à deliciosa prosa de Vítor Burity da Silva, apresentamos novo capítulo do livro Sobre As Águas Da Vida O Silêncio Dói


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