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Segunda-feira, Agosto 15, 2022

Sobre as águas da vida o silêncio dói

Vítor Burity da Silva, Angola
Vítor Burity da Silva, Angola
Ph.D em Filosofia das Ciências Políticas. Pós Doutorado em (Educação e Psicologia). Doutor Honorário em Literatura e Filosofia. Professor Honorário de Filosofia da Educação. Professor Catedrático. Investigador da Universidade de Évora. Membro da Sociedade Portuguesa de Filosofia. Membro da Associação Portuguesa de Escritores. Escritor.

Ao longe as ondas do mar encurraladas por diques para que não invadam o quartel da ilha enquanto militares na parada desfilam novas tácticas e o próximo ataque combinado em lisboa entre generais e o estado a viagem aproxima-se no semblante de soldados árduos e magros como cães rafeiros dentro das fardas com a bandeira da nação

XXXVIII

O desenho espalha-se numa garrafa vazia enquanto as mãos repletas encorajam o dilúvio, uma sensação onde o prazer esfuma ganancias que ao fundo se confundem, serão goivos e janelas abertas, o padre dirige a missa numa solução de aspirina como um refresco de limão sem açúcar as nossas bocas sedentas, a brisa encanta e a tarde esmorecida desnuda-se para que se festeje o verão num quintal ocupado e ciganos vadiando-se nele com burro e carroças magras que definham e cargas só para burros de trabalho forçado, os negros nos acides deitados na esperança da alforria zangada à esquina pedindo calados com a face cansada e trémula, onde tantos pendurados sorriam desgraças sem que o sargaço se transformasse, de cócoras as mulheres rendiam os donos sobre o solo empedrado e nada cobrando dos maridos castigados pendurados em árvores espalhadas, a ilha aberta desamuava a vista com as ondas recorrentes e repetidas contra as muralhas dos bares dos brancos entre soldados e criados. No lar de velhos em lisboa a parteira

– o meu António?

gargarejava as últimas palavras a minha mãe sem resposta olhava e pensava nos fradiques e diques entre a sua língua pendurada na garganta

“foi para áfrica defender a nossa pátria”

e ela numa solidão de pássaros enjaulados sentia a fome dos anos perdidos naquela cozinha para os amigos do meu pai que frequentavam a nossa casa aos fins de semana, falam de medicina e as conversam são como negócios à luz da vela sentados à volta da mesa enquanto a minha na cozinha prepara o almoço que termina às tantas.

(s.d.), “Guerra Colonial: exército português em operações.”, Fundação Mário Soares / AMS – Arquivo Mário Soares – Fotografias Exposição Permanente, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_114085 (2020-7-26)

Ao longe as ondas do mar encurraladas por diques para que não invadam o quartel da ilha enquanto militares na parada desfilam novas tácticas e o próximo ataque combinado em lisboa entre generais e o estado a viagem aproxima-se no semblante de soldados árduos e magros como cães rafeiros dentro das fardas com a bandeira da nação. O zinco esvoaça nos telhados das barracas de cerveja para negros e vinho martelado cor-de-nada para a diarreia nocturna tal cólera, bêbados gatinham atravessando a estrada inundada como chove meu Deus, ninguém vacila ainda assim, a chuva fez-se para os militares diziam no quartel os instrutores e no gabinete do general o uísque esvazia-se a cada gole de felicidade

– esta noite ganhamos mais dois terços no combate!

reunidos cumprindo a praxe, ouvem-se vozes e risos, a gente intrigada lá fora intermináveis horas sem comemorar o sangue do soldado ainda morto no meu quarto embrulhado nuns panos sujos da tenda,

– deixem-no, ele está a dormir!

um sono para sempre e quando o funeral

– ele não quer que o acordem!

e na enfermaria o furriel

– mais duas baixas doutor!

esteriliza os instrumentos num fogo de gaz avulso as botijas encostadas à lona,

– vou colocar-lhe o cateter doutor!

num calor sem cor suados corremos sem sentido como lobos esfomeados a cada gemido um só sal para que cura o morto ainda no meu quarto.

Não, não me dói nada, talvez um pouco a cabeça, uma insignificância, uma impressão, uma tontura. Este rumor monótono de conversa, estes odores misturados, as feições que se desarrumam e se deslocam no acto de falar atordoam-me: não conheço ninguém, não possuo o hábito destes templos exóticos em que se sacrificam não já vísceras de animais mas o próprio fígado, modernas catacumbas a que as lâmpadas votivas das luzes raras e o murmúrio de reza das conversas conferem uma tonalidade de religião sacrílega de que o barman é o bezerro de oiro, imóvel atrás do altar-mor do balcão, cercado pelos diáconos dos frequentadores do costume, que erguem em seu louvor black-velvets rituais. As cruzes do timol substituem os crucifixos, jejuamos pela Páscoa a fim de baixar as gorduras do sangue, comungamos aos domingos vitaminas purificadoras, confessamos ao grupanalista os atropelos à castidade, e recebemos de penitência a sua conta mensal; nada mudou, como vê, salvo que nos consideramos ateus porque, em lugar de batermos com a mão no peito, bate o médico por nós com o diafragma do estetoscópio. Sinto-me aqui, percebe, como sentia em pequeno o meu pai na igreja, nas missas pelos defuntos da família onde chegava invariavelmente a meio, plantado junto à pia de água benta, de mãos atrás das costas, Robespierre de canadiana a desafiar as caixas das esmolas e os olhos de barro triste dos santos. Pertenço sem dúvida a outro sítio, não sei bem qual, aliás, mas suponho que tão recuado no tempo e no espaço que jamais o recuperarei, talvez que ao Jardim Zoológico de dantes e ao professor preto a deslizar para trás no rinque de patinagem sob as árvores, entre os guinchos dos bichos e a campainha do vendedor de gelados. Se eu fosse girafa amá-la-ia em silêncio, fitando-a de cima da rede numa melancolia de guindaste, amá-la-ia com o amor desajeitado dos exageradamente altos, mastigando o chiclets de uma folha pensativa, ciumento dos ursos, dos papa-formigas, dos ornitorrincos, das catatuas e dos crocodilos, e desceria trabalhosamente o pescoço pelas roldanas dos tendões para esconder a cabeça no seu peito em trémulas marradas de ternura. Porque, deixe-me confidenciar-lho, sou terno, sou terno mesmo antes do sexto JB sem água ou do oitavo drambuie, sou estupidamente e submissamente terno como um cão doente, um desses cães implorativos de órbitas demasiado humanas que de quando em quando, na rua, sem motivo, nos colam o focinho aos calcanhares gemendo torturadas paixões de escravo, que acabamos por sacudir o pontapé e se afasta, a soluçar, decerto, interiormente sonetos de almanaque, chorando lágrimas de violetas murchas. Duas coisas, minha boa amiga, continuo a partilhar com a classe de que venho, desapontando o poster do Guevara, esse Carlos Gardel da Revolução, que pendurei sobre a cama a fim de que me proteja dos pesadelos burgueses, e que funciona um pouco para mim como uma espécie de jóia magnética Vitaphor da alma: a emoção fácil que me faz fungar diante da televisão da leitaria à hora da novela, e o medo arrepiado do ridículo. O que eu gostava, por exemplo, de conseguir, sem ostentação nem vergonha, coroar a minha calvície nascente de um chapéu tirolês de pena. Ou de deixar crescer a unha do dedo mínimo. Ou de entalar um bilhete de eléctrico dobrado na aliança. Ou de atender os meus doentes vestido de palhaço pobre. Ou de lhe oferecer o meu retracto em coração de esmalte para você usar quando for gorda, porque será gorda um dia, descanse, todos nós seremos gordos, gordos, gordos e tranquilos, como gatos capados à espera da morte nas matinées do Odeon”.


Como aperitivo à deliciosa prosa de Vítor Burity da Silva, apresentamos novo capítulo do livro Sobre As Águas Da Vida O Silêncio Dói


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