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João de Sousa

Quinta-feira, Setembro 23, 2021

Sobre as águas da vida o silêncio dói

Vítor Burity da Silva, Angola
Ph.D em Filosofia das Ciências Políticas. Doutor Honorário em Literatura e Filosofia. Professor Honorário de Filosofia da Educação. Professor Universitário. Investigador. Escritor.

Ao longe as ondas do mar encurraladas por diques para que não invadam o quartel da ilha enquanto militares na parada desfilam novas tácticas e o próximo ataque combinado em lisboa entre generais e o estado a viagem aproxima-se no semblante de soldados árduos e magros como cães rafeiros dentro das fardas com a bandeira da nação

XXXVIII

O desenho espalha-se numa garrafa vazia enquanto as mãos repletas encorajam o dilúvio, uma sensação onde o prazer esfuma ganancias que ao fundo se confundem, serão goivos e janelas abertas, o padre dirige a missa numa solução de aspirina como um refresco de limão sem açúcar as nossas bocas sedentas, a brisa encanta e a tarde esmorecida desnuda-se para que se festeje o verão num quintal ocupado e ciganos vadiando-se nele com burro e carroças magras que definham e cargas só para burros de trabalho forçado, os negros nos acides deitados na esperança da alforria zangada à esquina pedindo calados com a face cansada e trémula, onde tantos pendurados sorriam desgraças sem que o sargaço se transformasse, de cócoras as mulheres rendiam os donos sobre o solo empedrado e nada cobrando dos maridos castigados pendurados em árvores espalhadas, a ilha aberta desamuava a vista com as ondas recorrentes e repetidas contra as muralhas dos bares dos brancos entre soldados e criados. No lar de velhos em lisboa a parteira

– o meu António?

gargarejava as últimas palavras a minha mãe sem resposta olhava e pensava nos fradiques e diques entre a sua língua pendurada na garganta

“foi para áfrica defender a nossa pátria”

e ela numa solidão de pássaros enjaulados sentia a fome dos anos perdidos naquela cozinha para os amigos do meu pai que frequentavam a nossa casa aos fins de semana, falam de medicina e as conversam são como negócios à luz da vela sentados à volta da mesa enquanto a minha na cozinha prepara o almoço que termina às tantas.

(s.d.), “Guerra Colonial: exército português em operações.”, Fundação Mário Soares / AMS – Arquivo Mário Soares – Fotografias Exposição Permanente, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_114085 (2020-7-26)

Ao longe as ondas do mar encurraladas por diques para que não invadam o quartel da ilha enquanto militares na parada desfilam novas tácticas e o próximo ataque combinado em lisboa entre generais e o estado a viagem aproxima-se no semblante de soldados árduos e magros como cães rafeiros dentro das fardas com a bandeira da nação. O zinco esvoaça nos telhados das barracas de cerveja para negros e vinho martelado cor-de-nada para a diarreia nocturna tal cólera, bêbados gatinham atravessando a estrada inundada como chove meu Deus, ninguém vacila ainda assim, a chuva fez-se para os militares diziam no quartel os instrutores e no gabinete do general o uísque esvazia-se a cada gole de felicidade

– esta noite ganhamos mais dois terços no combate!

reunidos cumprindo a praxe, ouvem-se vozes e risos, a gente intrigada lá fora intermináveis horas sem comemorar o sangue do soldado ainda morto no meu quarto embrulhado nuns panos sujos da tenda,

– deixem-no, ele está a dormir!

um sono para sempre e quando o funeral

– ele não quer que o acordem!

e na enfermaria o furriel

– mais duas baixas doutor!

esteriliza os instrumentos num fogo de gaz avulso as botijas encostadas à lona,

– vou colocar-lhe o cateter doutor!

num calor sem cor suados corremos sem sentido como lobos esfomeados a cada gemido um só sal para que cura o morto ainda no meu quarto.

Não, não me dói nada, talvez um pouco a cabeça, uma insignificância, uma impressão, uma tontura. Este rumor monótono de conversa, estes odores misturados, as feições que se desarrumam e se deslocam no acto de falar atordoam-me: não conheço ninguém, não possuo o hábito destes templos exóticos em que se sacrificam não já vísceras de animais mas o próprio fígado, modernas catacumbas a que as lâmpadas votivas das luzes raras e o murmúrio de reza das conversas conferem uma tonalidade de religião sacrílega de que o barman é o bezerro de oiro, imóvel atrás do altar-mor do balcão, cercado pelos diáconos dos frequentadores do costume, que erguem em seu louvor black-velvets rituais. As cruzes do timol substituem os crucifixos, jejuamos pela Páscoa a fim de baixar as gorduras do sangue, comungamos aos domingos vitaminas purificadoras, confessamos ao grupanalista os atropelos à castidade, e recebemos de penitência a sua conta mensal; nada mudou, como vê, salvo que nos consideramos ateus porque, em lugar de batermos com a mão no peito, bate o médico por nós com o diafragma do estetoscópio. Sinto-me aqui, percebe, como sentia em pequeno o meu pai na igreja, nas missas pelos defuntos da família onde chegava invariavelmente a meio, plantado junto à pia de água benta, de mãos atrás das costas, Robespierre de canadiana a desafiar as caixas das esmolas e os olhos de barro triste dos santos. Pertenço sem dúvida a outro sítio, não sei bem qual, aliás, mas suponho que tão recuado no tempo e no espaço que jamais o recuperarei, talvez que ao Jardim Zoológico de dantes e ao professor preto a deslizar para trás no rinque de patinagem sob as árvores, entre os guinchos dos bichos e a campainha do vendedor de gelados. Se eu fosse girafa amá-la-ia em silêncio, fitando-a de cima da rede numa melancolia de guindaste, amá-la-ia com o amor desajeitado dos exageradamente altos, mastigando o chiclets de uma folha pensativa, ciumento dos ursos, dos papa-formigas, dos ornitorrincos, das catatuas e dos crocodilos, e desceria trabalhosamente o pescoço pelas roldanas dos tendões para esconder a cabeça no seu peito em trémulas marradas de ternura. Porque, deixe-me confidenciar-lho, sou terno, sou terno mesmo antes do sexto JB sem água ou do oitavo drambuie, sou estupidamente e submissamente terno como um cão doente, um desses cães implorativos de órbitas demasiado humanas que de quando em quando, na rua, sem motivo, nos colam o focinho aos calcanhares gemendo torturadas paixões de escravo, que acabamos por sacudir o pontapé e se afasta, a soluçar, decerto, interiormente sonetos de almanaque, chorando lágrimas de violetas murchas. Duas coisas, minha boa amiga, continuo a partilhar com a classe de que venho, desapontando o poster do Guevara, esse Carlos Gardel da Revolução, que pendurei sobre a cama a fim de que me proteja dos pesadelos burgueses, e que funciona um pouco para mim como uma espécie de jóia magnética Vitaphor da alma: a emoção fácil que me faz fungar diante da televisão da leitaria à hora da novela, e o medo arrepiado do ridículo. O que eu gostava, por exemplo, de conseguir, sem ostentação nem vergonha, coroar a minha calvície nascente de um chapéu tirolês de pena. Ou de deixar crescer a unha do dedo mínimo. Ou de entalar um bilhete de eléctrico dobrado na aliança. Ou de atender os meus doentes vestido de palhaço pobre. Ou de lhe oferecer o meu retracto em coração de esmalte para você usar quando for gorda, porque será gorda um dia, descanse, todos nós seremos gordos, gordos, gordos e tranquilos, como gatos capados à espera da morte nas matinées do Odeon”.


Como aperitivo à deliciosa prosa de Vítor Burity da Silva, apresentamos novo capítulo do livro Sobre As Águas Da Vida O Silêncio Dói


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