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João de Sousa

Domingo, Outubro 24, 2021

Ao Fundo Pitangas

Vítor Burity da Silva, Angola
Ph.D em Filosofia das Ciências Políticas. Doutor Honorário em Literatura e Filosofia. Professor Honorário de Filosofia da Educação. Professor Universitário. Investigador. Escritor.

Cores de mar abeiçam copos, bebo noites no vulgar. Sou assim um ar de nada como a águia do torpor sobre as casas moribundas, este jeito de encantar

19

Certo escuro. Repentino. Intencionalmente me envolvo nestas penumbras ocasionais. Neste marasmo nocturno de peles secas. Neste esconderijo vulgar. Recanto meu, entre diversas ruas movimentadas. Num local sem bares nem fantasias. Sem janelas, o vento cúmplice anuncia-se, reclama o encerramento da sua antiga via. Do seu quarto de passagem pelos cantos do mundo enfurecido pela sua agora ausência. Encerrei-lhe a vontade. Como que se os gritos me comprassem numa tentativa só, paz completa. Não encontro neste mar o teu apelo.

A cor do nefasto nas bermas ocupa as madrugadas. Restos de sonho como ribeiras escondidas. Como pétalas aventadas. Como ira dos destinos nas bermas:

– De que ecos a fantasia?

Com o fim as luzes abrem, são os ecos do calor, rios andam como velas pela encosta do silêncio. E o nefasto entre as brumas como dores de matar, dói o som dói a alma resta a noite por viver, ainda ontem éramos juntos naquele bar a naufragar, e agora nem sorrisos:

– Porque a morte te levou?

Cores de mar abeiçam copos, bebo noites no vulgar. Sou assim um ar de nada como a águia do torpor sobre as casas moribundas, este jeito de encantar, abrir então as mãos neste silêncio devagar, ver voar como gelos os degelos do desgosto que a morte faz sentir, sem que ouças ou que vejas nada como sintas, não consigo ver na cor dos olhos quando perdido me debruço numas grades de ferro cor de ponte, e voar como um sublime que se abraça a Deus, no espaço que se rege por dogmas de inventar e ser ave naquele rápido instante em que nada está perdido, e morrer como morrem os pássaros, espetados na areia de patas para o ar, sem riso, sem rio, sem vida:

– Se disserem que morri, duvidas?

Não caias aqui se morreres, neste lado furtivo, onde a manhã cheira ao bafio dos lábios magros da fome, não, aqui não, se conselhos aceitas, morre na casa ao lado, onde morem déspotas, foragidos, moribundos a gesticular submersos na geada do teu olhar gélido, sim, queria que ouvisses, que me ouvisses decalcar os ossos, a arruinar o degelo dos dedos que me tocam e não chegam a mim, queria inventar-te se conseguisse nesta parede de onde as cores já partiram, numa cal de risos a brindarem contra mim, numa calúnia de remorsos a infligirem-te, mas não caias assim, porque tão simplesmente te perdeste de ti, dos que nunca nada te disseram como eram as noites em que os copos te enchiam a barriga na miséria anoitecida ali, num marasmo inócuo de copos severamente cheios de falência, como sou, como poderás, sei ser, a viajar delírios de esconder a saudade por palma nenhuma na mão de ninguém e eu, como déspota que sou, apenas vislumbro o caminho que me destina cada vez mais além, do lugar do morto que morre mais tarde que todos, eu nele, na parte de trás, nos fundos, na sapiência saliente do destino, não me faças sentir mais este cheiro que me adormece sem rumo.

Acredito que consigas fazer-me recordar quem sou, onde estou, acredito que me atires ou tires deste casulo de berros onde o medo mora, que me faças rir como riem num infantário, como contam os contabilistas das finanças, acredito que me devolvas o que nunca te dei, nunca te contei, num dia qualquer cantarás comigo se não conseguir fazê-lo na ausência verde dos frios que a cidade ainda ali, me faz retomá-la, a bebê-la num balcão de coisa nenhuma porque nada do que ali se fuma é licor que quero para adormecer.

Rio acima e vou. Num barco onde os contadores desta blasfémia são corrupios de verificadores de cadastros, de flagelos, de impedimentos se assim for, rio acima na tua cálida petulância de avaliar a minha incipiente ira de sempre, nascido que sou na masmorra cor de ponte por onde me assalto num salto de morte a esvoaçar o equilíbrio dos meus desejos. É nela que vou, rio acima, beber restos e fim como nascer todos os dias. Nunca a noite tem fim.

Entre a garganta, dissecada distância saciada a goles de água, pedaços disfarçados de ingestão súbita, os passos alheios, sinto-os, como se nada fosse. Em ti, ainda o meu olhar divaga, do lado de dentro do tempo. Que chova, das mãos renderem-se, quase glória ouvir de ti silêncio, às portas quebradas como arrufos a arranharem a pele ou qualquer gemido súbdito do prazer que encanta, senti à sombra do tempo a tua voz demolir-me como graus de mar, esta cascata sensual de olhares paralelos até ao outro lado do rio, vistos através dum beijo que nos engole o tempo. De portas completamente abertas despi a noite. Despi o mar neste quarto enfadado e tu sorris, vestidos louros gesticulando pelo corredor as canções que fervilham por dentro, a alma voadora dos desejos de cristal, que se superam como répteis entrando o corpo a dentro.

Gotas gesticulam fantasias e desenhos quadrados, em tela de sorrisos que se espalham junto a calçada entreaberta, dos teus saltos tacteando com esplendor divino, o novo regresso às margens do nosso corpo. Sobre nós a árvore. A sombra irrompe o fresco doce de que nos tocam as brisas, como um campo nosso, nos beijos alheios que gotejam em ti, uma sensação de nuvem que se arruma por debaixo do corpo. Pela margem da noite, fomos lentamente sentindo o nosso silêncio, com a calma da maré, desfrutando do sorriso que nos enchia o peito de sonhos. Quando se despiam vagarosamente os nossos olhos. Quando se sentiam como que desfraldados os nossos toques, enchiam a distância sem a água deste rio, cobrindo o teu corpo de beijos, os dois, numa simplicidade absoluta, buscando a realidade do nosso percurso que bruscamente crescia na alma.

Que raiam as cores arrojadas deste templo onde fui orar, das quimeras ébrias onde fui parar um dia sem saber, toquei sobre as madeiras humedecidas com a ponta dos meus dedos cansados de viajar, e entrei, logo de seguida parei, parei, é como quem diz, fiquei sobre o soalho andante daquela viagem dentro de que paredes, não sei, não, não sei, e ao fundo de mim, o adamastor em estéreo, como outras tantas coisas que nas viagens que faço de carro, ouço as colunas estremecerem com os gritos de guitarras famintas em soltarem-se:

Entra em paz meu rapaz, que temes?

O eco, nem sei também. Quantos anos já esta casa terá? andava, enquanto isso, o ruído dos meus próprios passos a fazerem-me parar:

Quem vem aí?

Restos sobre a cabeça ou que obra por concluir, e o vento devagar lá dentro, eu devagar lá dentro, ninguém lá dentro e passos, os meus apenas, num eco que varria o silêncio escuro do salão onde sem saber me metera, quem seriam as ideias que me roubavam outro destino, paredes de quilos e sementes num torpor quando pisava voando, os azulejos magros desta casa envidraçada na minha alma. Parado, literalmente parado enquanto tento decifrar o ruído esquecido por cada olhar, cada vertigem, como se tudo naquele momento mais que verdade fosse fantasia, viagem, entrando de pés juntos e barrando, sem conseguir, os centímetros árduos de madeira da porta maciça daquele lugar ainda espesso e a cogitar silêncios, silêncios, que silêncios, ruídos, isso sim, sobre o escuro ao fundo fechasse eu à porta por onde terei entrado e nada mais a partir dali, medo, sim, medo, medo nenhum se não for um palerma que tantas vezes sou, mas sou tantas mais vezes que as que penso, ou imagino, como não depende de mim nem entenderás, coisa despojada ou atirado dos sarcasmos:

Sei lá disso!

São as vozes de quando pequenos, imaginamos ouvir ao fundo do escuro, do quarto, ninguém perto, a mãe certamente dorme já.

– Que bom teres vindo.

– Não resisti. Sempre acreditei que seria aqui, nesta brilhante e agitada água que iriam surgir os teus olhos, e cá estás, comigo, os dois juntos, a tomar café. Parece um sonho, não achas? A última vez que falamos, fiquei com a sensação de que iria perder tudo.

– E eu por ti. Agora, bem meu amor, estamos finalmente juntos, com esta realidade absoluta, os dois a saborear esta cidade, estas ruas, estes lugares, vamos ficar para sempre?

– Por isso e mais vim. Por tudo o que sinto por ti, aqui estou. Já não consigo mais ficar sem ti.

– Lúcia, aprecia comigo esta falésia, esta rara beleza, este reflexo sóbrio da noite, que importa mesmo acabar o mundo, a vida, agora que estamos aqui os dois? Como conquistamos o mundo… obrigado por teres vindo.

– Sim… vais suportar-me? Sei como te quero. Sabes que mais existe?

Nada, nada mais por todo este campo imenso que rodeia o nosso olhar, nada mais por toda esta iluminada noite nos ofusca. Chegas-te ainda agora e já só te quero. Vamos sem destino desbravar estas imensas águas agitadas, sentir em nós o amor descoberto quase ao acaso, giro, ao acaso se descobre um amor… nunca acreditei que pudesse ser possível, sabias?

– Sempre procurei algo assim como tu, um homem que me ensinasse a ver nas águas o silêncio dum amor, assim calados e juntos, deixar fluir um sonho. Vim de longe e só por ti, aqui estou, para sempre, não sei como, mas fiquei louca, completamente louca, és especial para mim.

– Não digas mais nada, quero mesmo ficar calado, contigo, assim como estamos e sentir apenas a noite eternizar-se dentro de nós. Qualquer sabor a vento vem, algo da orla se enrola como tempo e neste lugar te vejo, ah, sorri, sorri sim mesmo que lentamente, mesmo que não seja sorrir o teu semblante chega aqui, o sorriso penetra o longínquo do meu lugar, e pelas frinchas do escuro se aloja, se refastela confortavelmente lendo palavras espalhadas por todos os cantos da casa, por todos os buracos por onde entras, está a minha distância ate ti, por quem te imagino, sinto como falas quando o vento nos leva e qualquer regresso acontece, intemporal destino e percurso qualquer, que seja uma viagem omnipresente, fantasiada ausência do lugar onde cada um estiver, juntos na maresia ou mesmo marasmo, quando me escreves restos de beijos, sobras de noite, partidas de imensos regressos, amar apenas que importa onde, que importa como, não interessa sequer saber que fazer disso, o amor é o estado da alma que nos envolverá sempre, mesmo que palavras apenas digam tudo como queremos, e fisicamente nada fazemos em prol disso, ou porque está já feito, ou sempre existiu já sem que saibamos, envolveremos entre nós resquícios desse estado então, sobras duma vontade nossa e nossa apenas, dispamos ou não a vontade, marcando em cada poro da pele o silêncio que nos toca, ou que entre por ai o desejo de ouvirmos quem consiga dizer por nós como nos queremos pertencer, somos omnipresentes eternamente e assim estamos, aqui debaixo do sonho que nos envolverá qualquer dia, discando ao ar que o vento e o perfume dos nossos beijos.


Como aperitivo à deliciosa prosa de Vítor Burity da Silva, apresentamos novo capítulo do livro Ao Fundo Pitangas

 

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