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Domingo, Julho 21, 2024

Somos muito ignorantes

Alexandre Honrado
Alexandre Honrado
Historiador, Professor Universitário e investigador da área de Ciência das Religiões

Historiador, Professor Universitário; investigador da área de Ciência das Religiões

Ao longo dos últimos anos, nas disciplinas que lecciono – no ensino superior mas também em outros níveis de aprendizagem, em cursos que chamamos livres como se no nosso mundo ocidental existissem, por comparação, cursos prisioneiros– registo não só o interesse crescente nos temas que se prendem com as transformações operadas no mundo contemporâneo – em especial depois daquilo a que, de um modo alegórico – convencionámos chamar a Primavera Árabe – e os actos reivindicados em nome da religião, que é um mero álibi para crimes de enorme ou médio porte.

Noto também, em contrapartida, a falta de conhecimento que temos do mundo e do que nele se cria. Se pedir a um aluno que aponte no mapa a localização da Síria ou do Iraque, do Níger ou do Líbano, invariavelmente a resposta é uma desilusão. Mas outro tanto acontece quando, por diversão, sugiro que me digam onde fica Malta, ou a Macedónia, a Turquia ou a Bósnia.

Isto é o mundo global, o mundo glocal (global e local, a um tempo), o da multiculturalidade e da miscigenação? Não sabemos onde vivemos, mesmo com o GPS da realidade em cima das nossas cabeças, como a suspensa espada de Dâmocles – sim, bem sei que não sabem que raio era essa “coisa”, muito menos quem seria Dâmocles ou para que servia a sua inquietante e odiada espada.

A ideia de democratizar a cultura, tornando-a acessível e afastando-a do totalitarismo, da repressão e da forma fascizante, ou pelo menos autoritária e musculada, imposta como era imposta, gerou a confusão de que hoje sofremos as consequências: aprender é uma opção individual e portanto desconhecer aquilo que me incomoda ou simplesmente me apetece ignorar, é uma espécie de moda, apaziguadora, ignorar é não temer e por aí fora, equívoco sobre equívoco até à derrota final.

O resultado é sempre triste: uma massa manipulável de ignorantes que começa por virar-se para si mesma, passa ao estado da insensibilidade, torna-se obcecada por valores de consumo e juízos de valor que considera o “seu sentido crítico”, que manifesta nas redes sociais, nos órgãos de comunicação, à mesa do café ou perante o cônjuge ou finalmente o espelho onde nunca se revê completamente – e acaba em redutos de intolerância, de extremismo, de fundamentalismo, manifesto das já aqui aludidas redes sociais (sem saber bem o que diz), às bancadas de um estádio a bater no seu “adversário” (isto é, sem saber bem o que faz), ou um pouco mais tarde nas fileiras do DAESH a decapitar inocentes, a raptar e violar mulheres (apenas porque são mulheres) ou a brandir o nome de um deus para legitimar os seus fracassos (ou tudo isso ao mesmo tempo, com um líder a instigar e a contar a percentagem de lucro nos seus milhões arrecadados no banco ocidental de um desses países dos infiéis).

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Ser imbecil resulta muitas vezes do facto de ser inculto. Porém, paremos sobre a afirmação: é que, por cultura, devemos entender coisas diversas.

Não acredito que muitos dos líderes extremistas encontrem sozinhos o caminho para a abertura das suas precisões (penso agora na braguilha e em necessidades fisiológicas) ou atem sem esforço de raciocínio os atacadores das suas botas de campanha.

Todavia, são um fenómeno cultural e traduzem a cultura da violência e da intolerância que apreciam (que cultuam!) e aos seus seguidores impõem valores “culturais” que acabam por ver partilhados, louvados, levados à (discutível) glória. Como pequenas peças do jogo cultural, estamos todos disponíveis para actos contraditórios, dos mais irrelevantes aos mais revoltantes.

O tipo que reclama a morte ou a punição de um político no Facebook está ao mesmo nível de Abu Musab al-Zarqawi (o jordano que Collin Powell escolheu como o homem da Al-Qaeda no Iraque e que era uma figura mais do que secundária na linha de liderança. Powell – os americanos – criaram uma estrela. O pequenote viu-se a crescer, como num conto infantil. Capitalistas com interesses na zona transferiram dinheiro para as suas contas, deram-lhe armas, munições e outros utensílios de guerra. Foi a transformação do homem em animal, contrariando Darwin para consagrar o que o mundo contemporâneo estabelece).

A palavra coulter, que é cognata de «cultura», significa a lâmina do arado.

Depois de um longo caminho, ficámos com a percepção de uma palavra mais profunda, a que utilizamos para descrever as mais elevadas actividades humanas, do trabalho e da agricultura, das colheitas e do cultivo (mais tarde do pensamento e até do melhor pensamento, reflexivo ou lúdico). Francis Bacon escreve sobre «a cultura e o adubamento das mentes», numa sugestiva confluência entre o estrume e a distinção mental.

Hoje, cultura é também terreno árido, maninho. Do aluno ocidental que desconhece os valores elementares (e a geografia e a história) do mundo em que vive, mas que nem por isso desdenha da aprendizagem e do saber – e daquele que na sombra está à sua espera para engrossar as fileiras dos voluntários que, perante a anemia generalizada da sociedade deprimida – e decepcionada – reza a um deus que o ignora, até porque há poucos deuses que desprezem os homens e menos deuses ainda que indiquem como caminho o mal-estar do homem e a crueldade aplicada sobre si e sobre os seus semelhantes.

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