69ª edição

Entre o glamour das estrelas e o receio do terrorismo

O receio de um ataque terrorista foi um pensamento que já terá atravessado a cabeça da maior parte das pessoas que circulam na Avenida Croisette, por estes dias, uma das artérias mais mediáticas do globo

Festival de Cannes 2016 - Cannes Red Carpet
Receio, sobretudo porque por ali irão desfilar os nomes mais celebrados da indústria do cinema. Falamos, e não por exemplo, de Steven Spielberg, que irá apresentar o seu novo filme, O Amigo Gigante, o patusco que se recusa a comer criancinhas, antes de chegar em Julho a Portugal, bem como Kristen Stewart, que acompanhou Woody Allen no filme de abertura, Café Society, mas regressará depois para Personal Shopper, ao lado do francês Olivier Assayas.

É claro que teremos também Almodóvar, tal como Sean Penn, a regressar a Cannes no papel de realizador, de The Last Face, nove anos depois de aqui ter estado com O Lado Selvagem. Serão ainda aguardados o irreverente Jim Jarmusch, realizador de Paterson, com Adam Driver, ou ainda Paul Verhoeven, que fará desfilar Isabelle Hupert, agora em Elle, ela que já foi por duas vezes vencedora do prémio de interpretação feminina de Cannes, num filme em que sobrevive a uma violenta violação, mas que depois decide conhecer o seu atacante. No entanto, um dos verdadeiros campeões deste festival mediático é mesmo o realizador britânico Ken Loach, este ano a apresentar o seu 13º filme na competição.

Isto sem esquecer, naturalmente, a presença do australiano George Miller, o Presidente do Júri e realizador de Mad Max – Estrada da Fúria, devidamente acompanhado pelos outros membros do júri oficial que incluem a americana Kirsten Dunst, o dinamarquês Mads Mikkelsen, a italiana Valeria Golino, o canadiano Donald Sutherland ou a francesa Vanessa Paradis. A eles competirá a tarefa de eleger o filme para a Palma de Ouro.

De tal forma é vivida a questão da segurança que veio mesmo à tona durante a entrevista com a equipa do filme Money Monster,  já em exibição em Portugal mas que teve a estreia mundial em Cannes. O filme trouxe de volta à Côte D’Azur Jodie Foster, agora na qualidade de realizadora do filme, ela que se estreou aqui em 1976, aos doze anos, em Taxi Driver, bem como George Clooney, um habitué nestas andanças, e ainda a ‘estreante’ Julia Roberts.

Não me sinto insegura em lado nenhum, replicou Julia, ao ser confrontada na conferência de imprensa com esse risco hipotético, aproveitando ainda para elogiar a oportunidade de poder estrear-se neste lugar muito louco e nesta celebração do cinema e, em particular, por ter a seu lado como cicerones pessoas como Jodie Foster e George Clooney.

Clooney gracejou e traçou um paralelismo com a personagem que interpreta no filme, um apresentador de um programa sensacionalista de economia, sublinhando estar habituado a esse estatuto, embora considere que em geral a celebridade é algo que nos é exterior e fabricado pelos media.

É claro que na memória de quase todos estão com os ataques em Paris e Bruxelas, a administração da cidade operou uma simulação vistosa e bastante realista em que elementos terroristas ocupavam as escadarias que conduzem ao Palácio dos Festivais, chegando mesmo a produzir uma troca de tiros com a polícia e provocando mesmo alguns feridos.

Em todo o caso, apesar da preocupação que se sente, no cuidado mais apertado na revista aos sacos, prevalece a calma e domina a colaboração. Até porque, como disse recentemente um elemento responsável pelo dispositivo de segurança, o melhor é quando as medidas de segurança não se notam.

O mesmo tema é vivido, ainda que de forma ligeira, pela barreira dos entusiastas mirones e coleccionadores de autógrafos que desde cedo prendem com cadeados os escadotes em cima dos quais irão fotografar e pedir autógrafos às vedetas que passam. Ao trocar impressões com alguns deles, confirmam, sorridentes, que frequentam o festival há algumas dezenas de anos, havendo mesmo casos de verdadeiras ‘celebridades’ com direito a entrevista para a cadeia TF1.

No entanto, já se sabe, em Cannes as verdadeiras ‘vedetas’ são mesmo os filmes. É por esta fervorosa paixão pelo cinema que passamos diariamente por centenas de franceses a exibir com esperança cartões a solicitar um dos milhares de convites que circulam pela cidade para uma sessão de gala. É para esse momento que elas se vestem com as melhores roupas de marca e eles com o smoking da praxe.

Assim foi para a sessão de abertura que nos deu o festivo Café Society, de Woody Allen, e depois para o igualmente concorrido Money Monster, de Jodie Foster.

Ainda assim, mesmo os filmes de autor ganham toda a notoriedade por parte do espectador cinéfilo que poderá viajar para poder gozar a acreditação para o festival com um número de filmes que poderá desfrutar.

Até ao próximo dia 22, a red carpet irá receber ainda a presença de inúmeros notáveis. No entanto, mais do que todos os americanos, franceses ou do resto do mundo, temos uma particular curiosidade. No caso, de apreciar a brasileira Sónia Braga, que muitos conhecem apenas por Gabriela, agora com 65 anos, a desfilar ao lado do realizador e ex-crítico de cinema Kléber Mendonça Filho, com quem chegamos mesmo a partilhar entrevistas durante o festival, no filme Aquarius. Palmas para eles.

 

Portugueses em Cannes

Uma vez mais, é no formato das curtas-metragens que os jovens cineastas portugueses dão nas vistas. Neste caso, com a presença de dois filmes na 55ª Semana da Crítica, um evento paralelo ao festival: Ascensão, de Pedro Peralta, e Campo de Víboras, de Cristèle Alves Meira, sendo que ambos os filmes foram exibidos recentemente no IndieLisboa.

Também em Cannes estão as representações de vários distribuidores, embora o produtor Paulo Branco seja acompanhado pela imprensa internacional, ele que irá produzir o muito aguardado projecto de Terry Gillian The Man Who Killed Quixote, e que se sabe agora que contará com o actor americano Adam Driver.

 

Onde se escondem as estrelas?

Onde? Nos luxuosos hotéis, claro. Onde nestes dias, a estadia ficará apenas assegurada por largas centenas de euros. Fizemos uma pequena busca pelos jornais diários locais e ficamos a saber, por exemplo, que no Barrière Majestic, o hotel mais próximo do Cinema Lumière, apenas a escassas dezenas de metros, fica alojado o Presidente do júri George Miller e a sua equipa.

No entanto, esse destino foi também o preferido de Jane Birkin, Jessica Chastain, Vincent Lindon ou Vanessa Paradis. Pelo mais luxuoso Grand Hyat Martinez optaram Julianne Moore, Susan Sarandon, Blake Livey, Doutzen Kroes, Eva Longoria, Naomi Watts.

Sendo que outras vedetas preferem o Carlton, como os boys da banda One Direction e ainda Justin Timberlake. Sabemos ainda que George Clooney e a sua mulher Amal Alamuddin ficam longe do bulício de Cannes, no mais distante e reservado Hotel Du Cap-Eden Roc.

(Nota do autor: artigo originalmente publicado no Jornal Sol)

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