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João de Sousa

Domingo, Outubro 24, 2021

3 perguntas a… João Carlos Brito

J. A. Nunes Carneiro, no Porto
Consultor e Formador

Dicionário de Calão do Norte | Ideias de Ler

 

Calão à moda do Norte

Qual a ideia que esteve na origem deste seu livro «Dicionário de Calão do Norte»?

Queria publicar um livro que desse conta deste imenso saber popular, da capacidade de reinventar a própria língua, através de metáforas e conceitos geniais, enfim, da riqueza infindável do património linguístico dos falantes do Norte. E é uma tentativa, também, de contribuir para dignificar a língua e as pessoas, pois é a língua, como define Pessoa, a marca primeira da pátria. Por último, quis apresentar um trabalho que fosse divertido, que despertasse um sorriso e, ao mesmo tempo, algum sentimento de nostalgia, em que o leitor se recordasse de palavras e expressões que já não ouvia há muito tempo.

Como nasceu o seu interesse pelo calão específico do norte?

Sempre me interessei pelos registos informais e marginais da língua portuguesa. Sendo do Porto, há 35 anos, fui estudar para outra cidade e, sendo um orgulhoso portador deste património portuense e nortenho, foi um choque constatar que muitas vezes não me entendiam. Nas disciplinas de Linguística, fiz as primeiras recolhas de termos não formais. Desde aí, fui sempre fazendo duas coisas: por um lado, recolha e, por outro, investigação sobre as palavras e expressões que ia recolhendo, tentando perceber por que motivo certa palavra era mais pronunciada numa determinada região, situação ou por um grupo mais específico de falantes e, claro, tentar perceber a sua origem sociológica e etimológica. De forma mais sistematizada com vista a este dicionário, foi um trabalho dos últimos 12 anos.

Do seu ponto de vista, quais as características mais marcantes do calão da região?

No Norte, a língua tem razões, claro, mas também tem coração! Há expressões que nascem numa determinada conjuntura, pela boca do povo e, por terem um toque de génio, conseguem, muito sucintamente, gerar grande impacto, e rapidamente se propagam como um vírus, entre os falantes e também passam de geração em geração. São a nossa cultura, o nosso legado. E quase sempre encontramos uma explicação para elas existirem, embora a maioria das pessoas as aplique sem saber o seu significado inicial. Na verdade, não me interessa rigorosamente nada o palavrão pelo palavrão, isto é, o calão carroceiro, que é pobre, repetitivo e quase sempre cinzento. De resto, é comum a todos os falantes, não só do Norte, mas de Portugal e do resto do mundo. Os nortenhos têm fama de usar e abusar do calão, o que é injusto, pois essa é uma realidade transversal a todos os falantes. Mas há uma grande diferença no Norte, que assenta na criação de palavras e expressões fantásticas, absolutamente geniais, onde, evidentemente, coexiste o calão carroceiro.

João Carlos Brito

Dicionário de Calão do Norte

Ideias de Ler  15,50€


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