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Quinta-feira, Julho 7, 2022

É desporto matar um homem à pancada?

João Vasco AlmeidaDesporto. É assim que se chama ao MMA, ou Artes Marciais Mistas, a modalidade onde vale tudo menos tirar olhos – ainda que ter ficado cego fosse melhor para o português João Carvalho.

O atleta morreu depois de um combate na Irlanda, onde levou uma sova das antigas. Morreu passado dois dias no hospital.

O MMA tem regras, segundo o DN: “Proibido atacar virilhas, coluna, garganta, olhos e nuca, assim como morder, puxar o cabelo ou dar pontapés e joelhadas na cabeça do rival, se ele estiver caído no ringue”. Há aqui um poema, quando se diz que não se deve morder ou puxar cabelos.

É aquilo que ensinamos aos putos para que sobrevivam à escola e o que queremos evitar diariamente nas ruas. É chato velar o falecido e perguntar de que morreu, tendo como resposta: “levou dezoito joelhadas na cabeça, coitadinho” ou “foi o Adalberto que lhe mordeu o pescoço”.

Não se sabe ao certo porque há árbitros neste tipo de desporto. Em princípio é para evitar que um combate acabe em desgraça. Claro que morre muito atleta pelo mundo fora na prática desportiva, mas são raros os casos de morte provocados pelo adversário. No ténis pode acontecer, claro. Diz-se que Dick Wertheim morreu depois de Stefan Edberg lhe ter acertado com uma bola de serviço nos testículos. Dick era um dos oficiais de linha no Open dos EUA em 1983.

Ora, há uma distância entre esta morte e a de João Carvalho. Um desporto que vive da agressão física entre dois seres humanos tem o risco elevado de acabar em asneira. A necessidade de violência entre pessoas, como espectáculo, é ancestral. O que podia começar a ser verdade é travar as cabeças que só se sentem bem na audiência a gritar “mata” e “esfola”.

mma, desporto, combateA testosterona, a adrenalina, as hormonas todas devem estar aos saltos. Podem estes atletas dedicar-se a outra coisa em vez de morrer. Ou partir ossos e provocar lesões no fígado e nos rins. Ou, no octogonal ringue em que combatem aceitar a companhia de um touro e voltar aos jogos antigos. A tourada agradecia e as mortes ficariam sempre nas mãos dos animais, à cornada.

A Irlanda diz que vai investigar a morte do português. A federação do MMA abriu uma conta de solidariedade com a família. O pai do adversário diz que este está consternado. Uma das estrelas de desporto acusa o árbitro de incúria.

Talvez, assim por alto, fosse o momento certo de acabar a brincadeira e, tendo tanta vontade de andar à pancada, gastar energia a construir a linha de Sines.

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