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João de Sousa

Terça-feira, Novembro 30, 2021

Entrincheirados. Entre a rede e o medo

Escreva algo hoje. Escreva sobre os nossos dias. Lave as mãos com frequência e cumpra o isolamento social. Sente-se no sofá, use as redes e as videochamadas, trabalhe a partir de casa mas não acredite quando lhe dizem que “beber Vodka” mata o Coronavírus. “Se não sabe se é verdade, não publique”. Não partilhe. Controle as emoções. Portugal entra em estado de emergência. E o mundo – atemorizado – reinventa-se a cada 24 horas

«A história do presente é muito importante. Não temos memória histórica de um período semelhante ao que estamos a viver em Portugal.

A minha sugestão é que comece a escrever um diário hoje. Compre um caderno e escreva sobre o que sente, o que lhe dizem, o que lê nos jornais e nas redes sociais, o que ouve na rádio e o que vê nas ruas e nas televisões.

Estes dias serão importantes na história de Portugal. As nossas primeiras impressões sobre a saúde pública, economia, medos e receios, inovação numa situação de emergência social, tecnologia, processo de decisão e escolha política merecem ficar registadas.

Um diário escrito em papel agora tem, pelo menos, duas vantagens. Dá-nos a oportunidade de sair do mundo digital e reflectir sobre os nossos dias. Além disso, ajudará imenso os historiadores, cientistas políticos e autores que escreverão sobre o nosso tempo em 2040-2050.

Não somos diaristas do calibre de Samuel Pepys, que escreveu um diário extraordinário entre 1660 e 1669, nem pessoas com a capacidade de análise política de Tucídides, que conseguiu escrever através do tempo, mas devemos escrever sobre os nossos dias.

Esta é uma oportunidade única para sermos historiadores do presente de Portugal. Escreva algo hoje»

 

A mensagem partilhada nas redes sociais é de Miguel Monjardino, especialista em Geopolítica e Geoestratégia. O comentador de política internacional que vive «entre a História, a Ciência, a Política e a Literatura», e é autor da coluna “Guerra e Paz” no jornal Expresso, não tem dúvida de «que a pandemia será uma enorme experiência social e política».

Hoje, também já não restam dúvidas de que todos estamos convocados para o combate de final incerto. Na frente de batalha está um inimigo comum. Sem rosto, silencioso, mas com poder para dizimar mais de onze mil humanos, em apenas três meses. Entrincheirados uns, camuflados outros, a mobilização para abater o alvo invisível é global. E quando o medo se torna viral? E Quando o pânico tolhe a racionalidade? E quando corremos o risco de entrar em disrupção social? O que urge fazer nestes dias de Pandemia?

Esta é uma oportunidade única para sermos historiadores do presente de Portugal»

Além de seguirem a repetidas recomendações das autoridades de Saúde (distanciamento/ isolamento social / medidas obrigatórias de etiqueta respiratória), o que pode fazer o País para apaziguar o alarme social?  Que alertas e conselhos deixam dois professores universitários aos portugueses?

 

“Se não sabe se é verdade, não publique”

«O alarme social era inevitável», responde Vítor Tomé, especialista em Educação para a Cidadania Digital, ao recordar o que «se passou e passa com as máscaras, com o álcool, com o gel desinfetante e até com os rolos de papel higiénico».  *(Depoimento completo no final do artigo)

A mensagem que deixa aos internautas é simples: «se não sabe se é verdade, não publique. Se lhe disseram que mãe e filha, infectadas com Covid-19, fugiram do hospital, mas não sabe se é verdade, não publique. Se leu que tomar banho de água quente ou fria, ou que o vodka X matam o coronavírus, mas não tem a certeza, não publique. Se lhe disseram que o vírus se espalha através da rede 5G, ou que há vírus no papel higiénico, não publique».

«Use um cepticismo saudável para validar o que lhe enviam e o que envia aos outros», apela também o docente. Vítor Tomé insiste na pedagogia: «Se quer publicar, veja primeiro quem é a fonte da notícia, o endereço do site ou do mail, se conhece a pessoa ou marca, veja as datas, faça uma leitura lateral (veja se essa notícia/informação existe noutros canais de informação) e, sobretudo, quando algo apelar de tal forma à sua emoção que o leve de imediato a partilhar ou a comentar, conte até 10 antes de o fazer». «Controlar as emoções é o que mais precisamos neste momento», remata.

A economia vai sofrer muito, mas em tempo de guerra não se limpam armas e a saúde deve ser a principal prioridade»

«Se quer bater palmas aos profissionais de saúde, faça-o. Se quer publicar um vídeo a fazê-lo, força. E se acredita nos especialistas, a ponto de lhes bater palmas, em uníssono, acredite também no que eles dizem, seja o seu médico, as autoridades de saúde nacionais ou internacionais. Lave as mãos frequentemente, não toque com as mãos na cara, preserve-se do convívio social (use as redes, as videochamadas…) Preocupe-se mais com a forma como a comunidade tem de combater o COVID19 e menos com o “C” tem “OVID” dizer», acrescenta.

 

«Em tempo de guerra não se limpam armas»

«Não há pior medo do que o medo do medo, pois o medo tolhe a razão e excita a emoção», diz Rui Brites ao referir que “os tempos são duros e as ideias são moles”, como escreveu Huyghe no livro  – La Soft Ideologie.

Ainda sobre a posição do Conselho Nacional de Saúde Público da semana passada (que recusava recomendar o fecho de todas as escolas), o professor universitário diz que as ideias «moles» e «conservadoras», «certamente para evitar alarmismos», acabaram por “minimizar a percepção dos riscos”. A par de “mensagens errática da Directora-Geral de Saúde”, os “portugueses fizeram como diz a história do Pastor Mentiroso e o Lobo, ignoraram os avisos e inundaram praias e Centros comerciais”.

O investigador acrescenta: “Ora, parafraseando Eça de Queiroz, por debaixo do manto diáfano da fantasia, estava a nudez crua da verdade”. “Mas, como diz o povo: casa roubada, trancas à porta. Deixa, por fim, os seguintes conselhos: “As mensagens do Governo sobre a necessidade do isolamento social são para levar a sério. A economia vai sofrer muito, mas em tempo de guerra não se limpam armas e a saúde deve ser a principal prioridade.

Rui Brites, Sociólogo

Sobre a cobertura exaustiva do Covid19 durante as últimas semanas, Rui Brites, que também é professor do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) aproveita para alertar: “O excesso de informação torna-se desinformação”. Refere estudos sobre campanhas de informação, para sublinhar que muitas falham porque:

  1. Existe sempre um grupo de pessoas desinformadas que não é atingido pela informação, qualquer que seja a sua natureza;
  2. A possibilidade de exposição à informação aumenta com o interesse pelo assunto;
  3. As pessoas têm tendência a evitar informações desagradáveis;
  4. As pessoas interpretam normalmente a informação a que estão expostas de acordo com as suas crenças e valores.

No entanto, o investigador na área dos “Valores, Felicidade e Bem-estar subjectivo” recusa a ideia de que estamos perante uma “overdose informativa”. Prefere dizer que temos assistido a “uma repetição excessiva da mesma informação”. E para o sociólogo, do ponto de vista comunicacional, “é um erro tremendo”. Recorda o tempo de antena da mulher do primeiro infectado, tripulante do navio de cruzeiro, para referir que, neste caso, não havia rigorosamente nada para acrescentar à notícia. “É o efeito perverso da comunicação e os profissionais de comunicação deviam saber isso”. “Mas como se sabe, para certa comunicação social, uma boa notícia é uma má notícia”, conclui.

 

Luta pela sobrevivência

A última sexta-feira 13 acabava com o Conselho de Ministros a decretar “estado de alerta” em todo o País, colocando os meios de proteção civil e as forças de seguranças “em prontidão”. E a segunda-feira seguinte amanhecia mais silenciosa do que nunca em época de ano lectivo : a maioria das escolas de Norte a Sul tinham as portas encerradas. No mesmo dia, a Ministra da Saúde anunciava a primeira morte motivada pelo Covid19 em Portugal.

Depois de o Primeiro-Ministro, António Costa, ter avisado que estava em causa a «luta pela nossa própria sobrevivência”, e que o surto «ainda não atingiu o seu pico», foram-se sucedendo conferências de imprensa diárias atrás de comunicações, alertas e apelos. A população começava a incorporar abruptamente a crua realidade que se agigantava.

Ao longo da semana vão sendo anunciadas várias medidas para fazer face ao impacto da pandemia, entre elas, linhas de crédito (três mil milhões de euros) para as empresas na área da restauração, turismo, hotelaria e indústria; outras para os trabalhadores por conta de outrem que ficam em casa com filhos menores de 12 anos (66% do salário pagos pelo empregador e pela Segurança Social). Anunciado é também o reforço de ventiladores, máscaras e material de protecção para enfrentar a curva ascendente de internamentos. E novas medidas de apoio social, económico e fiscal urgem responder à pandemia e à calamidade social que se avizinha

Depois de os ministérios da Administração Interna e da Saúde decretarem o estado de alerta, o Presidente da República decreta o estado de emergência. O Governo e a Assembleia da República aprovam. E a decisão que impõe aos portugueses medidas de carácter excepcional, como a suspensão de direitos, liberdades e garantias, entra em vigor à meia-noite de 22 de Março, próximo Domingo, pelo menos, até 5 de Abril. A medida nunca foi declarada no Portugal democrático pós-25 de Abril, mas Marcelo Rebelo de Sousa entende que «isto é uma guerra» e a «unidade permite vencer guerras».

«Nesta guerra, ninguém mente nem vai mentir a ninguém. Isto vos diz e vos garante o Presidente da República. Por vós diretamente eleito para ser, em todos os instantes, os bons e os maus, o primeiro dos responsáveis perante os Portugueses, e não o último», afirma Marcelo, a partir do Palácio de Belém, num discurso institucional que ficará na História por todas as razões.

No dia em que começa a Primavera, Portugal, em vésperas do estado de emergência, ultrapassa os 12 mil de casos confirmados, doze mortes e perto de 10 mil em vigilância. A nível global, o surto atingiu as 300 mil pessoas, e cerca de 13 mil morreram.

Entre os países mais afectados está Itália (a chegar aos 5000 óbitos) que já superou as mortes registadas na China (cerca de 3.300). Os números vão aumentando a todas as horas, e segundo as últimas estatísticas o Irão vai aproximando-se dos 1600 casos fatais, tal como a Espanha que já ultrapassou aceleradamente a barreira do milhar.

O gabinete da Organização Mundial de Saúde da China (OMS) informa sobre mais de duas dezenas de casos de pneumonia de origem desconhecida, detetados na cidade chinesa de Wuhan, na província de Hubei. O lead da notícia data do último dia de 2019. A 11 de Março de 2020, a Organização Mundial de Saúde declara que o novo coronavírus, designado SARS-CoV-2 é uma Pandemia. A fonte da infecção é ainda desconhecida. E durante a redacção do artigo, os números de óbitos foram alterados, pelo menos, uma dezena de vezes.

 

Vitor Tomé, investigador em Literacia dos Media e Jornalismo

Em dias de infodemia

«Quantos sites, blogues, mensagens de mail e de redes sociais prometem curas milagrosas e cujos ficheiros anexos servem para invadir computadores e roubar dados?

Há pessoas a açambarcar iogurtes e outros bens mais perecíveis. Ora, um cidadão menos informado entra num supermercado e vê uma prateleira vazia, nem que seja a do vinagre, e entra em pânico. Não vai ler o Público ou o site da Direção-Geral de Saúde, mas sim o que dizem os seus “amigos” no trabalho, no café, nas redes sociais digitais… e vai começar a procurar vinagre! Pode fazê-lo inconscientemente, mais vai estar preocupado com o vinagre.

Tocamos milhares de vezes por dia nos telemóveis e as campanhas de desinformação proliferaram. Nesta sociedade high-tech, as pessoas habituaram-se a procurar soluções rápidas para tudo. Inovações como o pronto-a-vestir criado anteontem, ou a comida rápida inventada ontem, têm hoje paralelo na web, nas aplicações e na chamada inteligência artificial que, em conjunto, prometem resolver tudo, com rapidez e quase sem custos.

Para o comum do cidadão, a informação não custa nada e está à distância de um click. Pois está, mas é tanta (é uma overdose informativa) que é preciso saber analisá-la e selecioná-la, o que é complicado numa sociedade em que as pessoas parecem nem sequer ter tempo para aprenderem a fazê-lo, quando mais para terem tempo de praticar efetivamente essa análise crítica (e produção reflexiva) de informação, a capacidade de a disseminar pelos canais adequados para atingir as audiências alvo e, assim, intervir socialmente.

Controlar as emoções é o que mais precisamos neste momento»

Ora, o pronto-a-vestir não acabou com a alfaiataria, nem a comida rápida com a comida lenta e de qualidade, da mesma forma que a web e as aplicações não vão resolver tudo como que por milagre. O mesmo acontece com a informação. Há informação de qualidade e informação com outros objetivos. Quantos sites, blogues, mensagens de mail e de redes sociais prometem curas milagrosas (com alhos, vinagre, pedras abençoadas ou até com álcool traficado, que matou pelo menos 44 pessoas no Irão?) e cujos ficheiros anexos servem para invadir computadores e roubar dados? Quanto dinheiro faturam com anúncios, links ocultos e outros? Quem está por trás deles sabe que funcionam. E aposta!

Vivemos numa sociedade muito centrada no sucesso educativo a todo o custo (tantas vezes de forma opaca e validado apenas pelas notas e não pelo que se sabe efetivamente fazer), quase exclusivamente focada nas capacidades do indivíduo (que são, obviamente fundamentais) e muito menos preocupada com os valores, as atitudes e com a compreensão crítica. O comum do cidadão desconfia por vezes de informação fidedigna científica e que implica tempo e dedicação para a perceber, mas tende a confiar na informação simplista, direta, adequada ao que já pensa sobre o assunto (a chamada bolha) e ainda mais o faz se apelar à emoção.

Em tese, desconfia do que a Direção-Geral de Saúde diz ao Público, mas acredita no que um amigo ou um amigo de um amigo virtual escreve no Facebook ou no WhatsApp. Portanto, em tese, está mais centrado em si próprio do que no outro, não percebe a necessidade da empatia, e vai passear para a rua em tempo de quarentena, mesmo que isso depois venha a ter como consequência a morte de um familiar ou amigo.

Os níveis de literacia mediática dos cidadãos não mudam por decreto nem se fazem com projetos giros, com resultados espetaculares e números impressionantes. As competências de literacia mediática (cuja dificuldade de medição é uma realidade) não são desenvolvidas porque sim, mas sim com tempo, dedicação e com projetos de terreno, por vezes pequenos, pois só fazem sentido se adaptados ao contexto, à comunidade.

É preciso que a comunidade prepare os seus membros neste particular e cada comunidade tem necessidades diferentes. Um projeto de excelência desenvolvido no centro de Lisboa pode não funcionar em Loures ou até em Marvila, porque carece sempre de adaptação ao contexto, às pessoas. Portanto, parece-me que, neste particular, há muito a fazer. Parece-me que, neste particular, os cidadãos em geral não estão preparados e daí a infodemia a que estamos a assistir.

 

 


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