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João de Sousa

Segunda-feira, Agosto 15, 2022

Lesados do Millennium?

Está em curso o aumento de Capital do Millennium bcp. Esta foi a empresa que o ano passado desvalorizou mais de 70% na Bolsa de Lisboa e que enfrenta graves dificuldades de rentabilidade, tendo apresentado substanciais prejuízos nas contas do último trimestre que revelou ao mercado.

Foi de longe a empresa portuguesa que mais desvalorizou. A empresa seguinte desvalorizou cerca de metade, 35%. Muitas empresas cotadas na Bolsa portuguesa até se valorizaram.

No momento em que escrevo, milhares de pequenos depositantes, comerciantes, emigrantes, profissionais que ao longo da vida conseguiram resguardar um pequeno pecúlio para um dia de maiores dificuldades, estão a ser contactados por um exército de gerentes de conta e outros bancários para que desmobilizem as suas poupanças e as invistam numa das acções mais arriscadas do mercado bolsista europeu, um título que nos últimos anos se tem contínua e sistematicamente desvalorizado.

Este aumento de Capital vem trazer ao Millennium bcp uma grande reorganização accionista com a saída de uns, a perca de peso de outros e a emergência dos chineses como principais donos do Banco. Com um investimento relativamente reduzido, se comparado com os investimentos dos anteriores accionistas, os chineses da Fosum tornam-se os accionistas mais relevantes da instituição.

É, sem dúvida, um ponto de viragem na instituição, criando condições para a recuperação da rentabilidade e da solidez do Banco. É contudo difícil, neste momento de turbulência financeira na Europa e de valorização da moeda norte-americana, de concretização do Brexit, de subida das taxas de juro da dívida pública portuguesa nos mercados secundários, garantir que assim será.

Perante o olhar aparentemente desviado das entidades de supervisão, muitos incautos, de fraca ou nenhuma cultura financeira, estão a trocar os seus depósitos garantidos por acções de alto risco. Serão os futuros lesados do Millennium que o Estado será chamado a ressarcir à custa de mais cortes ao nível da saúde, das pensões e do ensino públicos?

Sendo certo que o aumento de Capital é absolutamente vital para o Millennium poder continuar como entidade privada e devolver os empréstimos estatais, tal não justifica o risco de práticas comerciais que podem levar pequenos depositantes a investir em títulos arriscados.

As autoridades deviam estar mais atentas. Um aumento de capital exclusivamente dedicado a clientes institucionais e grandes investidores seria claramente mais adequado.

Os comerciais deste Banco estão a ser pressionados, a ponto de alguns estarem a procurar entrar de férias, pelas suas hierarquias, que têm o seu vértice superior no Conselho de Administração e nos responsáveis pela rede comercial, para vender as acções aos Clientes.

Muitos receiam que se não o fizerem poderão ver os seus postos de trabalho em perigo, no contexto de uma instituição que tem vindo a reduzir drasticamente o número de trabalhadores. Um ambiente que pode levar muitos a optar por vendas agressivas pressionando os clientes mais desprotegidos.

O êxito desta operação pode, a prazo, tornar-se mais um problema sério para o erário público. Fica esta chamada de atenção para que se não diga que ninguém alertou em devido tempo.

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