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Sexta-feira, Dezembro 2, 2022

Lorette da Fonseca

Helena Pato
Helena Pato
Antifascistas da Resistência

(1926 – 2001)

Lorette de Jesus Fonseca, ou Laurette, é uma figura de lutadora de Lagos, que se notabilizou pela sua acção em França, junto dos emigrantes portugueses, no final da década de 60. Fugiu da ditadura fascista com o marido e cinco filhos, quando se viram ameaçados, e instalaram-se num bairro de lata nos arredores de Paris. Lorette começou por ajudar os seus compatriotas na integração social e, mais tarde, dinamizou, liderou e foi porta-voz de um movimento de contestação da destruição brutal do «bidonville de Massy», que ocorreu sem alternativa para a população aí residente.

Manifestação contra a expulsão de Lorette

Em 1965, Lorette da Fonseca e a família, fugidos de Portugal, fixam-se num «bidonville» em Massy (Essonne), depois de terem passado alguns anos na Argélia. Dominando bem o francês, Lorette e o marido, Carlos, investem-se, de imediato, em cursos de alfabetização para emigrantes portugueses do bairro de lata. Simultaneamente, Lorette mobiliza os seus compatriotas para a defesa dos seus direitos, acompanhando-os nas diligências burocráticas perante as autoridades ou junto dos patrões que lhes davam emprego. Torna-se intérprete e porta-voz dos seus compatriotas que residiam nos «bidonvilles», situados junto de uma nova cidade, então em construção. A partir de 1969, Lorette ajuda-os na obtenção dos vistos e das autorizações de residência, junto do poder local e do comissariado da Polícia. Cedo integra um comité de defesa do Bidonville.

Início da década de 70

Quando o Estado francês decidiu arrasar os bidonvilles dos arredores de Paris, levantou-se um enorme movimento de contestação no Bidonville de Massy. Uma das primeiras medidas das autoridades consistiu em pressionar os residentes, de diversas maneiras, com vista a que abandonassem as suas habitações, sem que lhes fosse oferecida qualquer alternativa. Tal como em todos os outros bidonvilles, a pressão exercida sobre os emigrantes portugueses conduzia à sua dispersão, separando, assim, os amigos e os vizinhos. Ao ser confrontada com o processo de realojamento levado a cabo pelo Ministério do Interior, Lorette opôs-se-lhe com determinação, por, a seu ver, ir criar uma situação de maior isolamento social para si e para os seus cinco filhos. Em Massy habitavam mais de 1000 emigrantes portugueses e árabes, que foram ameaçados de lhes ser retirada a autorização de residência e de lhes serem destruídas as barracas onde habitavam.

Empenha-se, então, numa luta contínua entre imigrantes e instituições. São exercidas pressões sobre Lorette durante muitos anos – ameaças de expulsão e dificuldades no prolongamento da autorização de residência. Mas muitas das barracas são mantidas até 1977, devido à pressão popular: uma petição, manifestações, e a criação de um «comité de apoio a Lorette». A Prefeitura de Essone renuncia à expulsão da porta-voz do movimento de contestação, mas Lorette e Carlos são apelidados de «agitadores esquerdistas» e aumenta a vigilância exercida sobre eles. A cumprir-se a expulsão, a família de Lorette ver-se-ia obrigada a regressar à Ditadura, em Portugal. Porém essa ameaça teve como resposta uma importante mobilização de solidariedade dos seus compatriotas e de franceses. Apoiada pelo «comité de defesa do bairro», Lorette resiste e acaba por ficar em França. Mas teve de ceder, de se tornar invisível, de se apagar. Somente dez anos mais tarde, em Setembro de 1981, com a eleição de Miterrand, foi anulada a ordem de expulsão.

Depois da Revolução dos Cravos

Não quis voltar a Portugal. Morreu em 2001.

No dia 25 de Abril de 2014, Lorette da Fonseca foi homenageada em França. O seu nome foi dado à principal avenida do Parque Georges-Brassens, em Massy, onde estava instalado, na década de 60, o enorme bairro de lata de emigrantes portugueses.

Em 22 de Agosto de 2015, foi homenageada pela Câmara Municipal de Lagos, que quis perpetuar o seu nome dando o nome a uma rua. Da cerimónia, que decorreu com a presença de vários familiares e amigos, constou o descerramento de uma placa e uma sessão solene de homenagem a Lorette da Fonseca, em reconhecimento pelo seu importante papel na defesa dos direitos dos emigrantes portugueses, em França, nos anos 60/70.

Biografia da autoria de Helena Pato com a colaboração de Maria João Dias
Fontes:

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