Ó que cena

Natal sem noz

Pula ondas, come lentilha, abraça família e... mais de 100 presidiários são assassinados brutalmente

Cadê a convenção não verbal de paz (e amor) que durava até 6 de janeiro, dia dos três reis magos, dia de apagar vestígio de Papai Noel das nossas casas?

O ódio alastra-se pelo Brasil como fogueira em densa floresta seca. O negro, a mulher, o filho, o retirante em terra estrangeira pagam com suas vidas. Carnificina. O idoso e o deficiente pagam com benefícios que o governo quer lhes tirar. O servidor público paga com o troco do bolso porque o salário não chega. O que deu tão errado?

Toni C., premiado escritor, criador do coletivo LiteraRua, tenta explicar.

Natal sem noz

Esse fim de ano vários bagulhos passaram batido.

Sabe comé, batido passa batido, despercebido nem uva passa na salada de berinjela que minha mãe prepara. Num sei bem qual é que é.

Parece que nada melhor para come-morar o nascimento de um carpinteiro que repartia o pão do que uma farta ceia e muito vinho. Mas o bom velhinho de vermelho, barba longa e branca, gordo que gosta de distribuir presentes desapareceu. Talvez com medo de ser confundido com comunista, marxista, socialista ou alguma dessas coisas de assustar a burguesia, tá ligado?

Também havia algo fora do lugar, alguém que não estava lá…

Não faltaram as promessas de fim de ano. Eu juro. Juras de ano novo com: vida nova, corpo novo, alma nova.

Todo mundo prometendo mais que político mal intencionado. É gente querendo jogar a vida velha na lata do lixo que vem junto do novo ano.

Réveillon, ó nomezinho miserável, viu?

Chega sete dias após o Natal, é mais regabofe, contagem regressiva, fogos, cidra.

Todos de branco para comemorar a passagem: pro velho, desprezo, para o novo, vai toda nossa esperança cegamente.

Natla sem nósComo ter tudo novo fazendo tudo como sempre?

Deve ser por isso que fazem as simpatias, porque não tem explicação lógica, só superstição, magia ou milagre, como ganhar na Sena.

Ó que cena: não senti a falta das castanhas, passas, tâmaras, avelãs, amêndoas… nada disso. Eu senti falta foi daquele fruto que vem dentro de uma caixinha de madeira onde Stephen Hawking esconde o Universo.

Uma frutinha seca, enrugada e com veias me fazem lembrar um cérebro em miniatura, feito o cérebro de muita gente que a gente atura. Não faltou eu, nem você, faltou a parceria, faltou a fita, faltou a rua, a luta, a coletividade… Neste natal faltou “noz”.

2017 é nozes!?

Toni C.*

* Toni C. é autor dos livros “Sabotage – Um Bom Lugar”, e do romance “O Hip-Hop Está Morto”; integrante do Conselho Nacional de Cultura na área de Livro, Leitura e Literatura, membro da direção da Nação Hip-Hop Brasil, diretor de cultura da ORPAS, diretor do coletivo LiteraRUA, e integrante do Portal Vermelho.

A autora escreve em português do Brasil

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