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Sexta-feira, Abril 19, 2024

As trevas do Sol – A náusea à sexta potência

António Garcia Pereira
António Garcia Pereira
Advogado, especialista em Direito do Trabalho e Professor Universitário

As trevas do Sol - livro de José António Saraiva

O primeiro é o de que não é preciso ler o dito “livro”, basta atentar nas entrevistas do respectivo autor (designadamente à revista “Sábado”, à “Lux” e sobretudo ao semanário ”Sol”) para se ter a exacta noção da completa repugnância que a dita obra representa: alguém, invocando que “os segredos não têm um prazo de validade” e que as pessoas que os contaram “não falaram em intimidade” (deve ser por isso que são segredos…) e até atribuindo frases e posturas a quem, por ter entretanto falecido, já cá não está para o desmentir, decide ganhar dinheiro traindo a confiança, devassando, em “livro” significativamente capeado com o buraco de uma fechadura, a privacidade, inclusive sexual e de saúde, de umas quantas personalidades publicamente conhecidas, e ainda por cima, invocando para tal o “interesse público”!?

É certo que vivemos uma época em que a ideologia dominante é a de que os fins, ainda que só pretensos, justificam todos os meios, mesmo os mais repugnantes. A de que aquilo que releva é a “eficácia” do que é dito ou feito, independentemente de constituir a maior das barbaridades. A de que, seja para abater um cidadão incómodo para afastar um adversário da competição ou simplesmente para acumular riqueza, vale tudo mas mesmo tudo, inclusive mentir, insultar ou devassar, sobretudo se de forma científica e ardilosa, misturando a falsidade com meias-verdades ou dando curso à via torpe da insinuação.

Mas é essa autêntica “banalização do mal” que se vem generalizando no campo da política, do social e até do próprio Direito e que assenta nas teses nazis de que os fins justificam os meios, de que a mentira, sobretudo a mentira refinada e científica, e se mil vezes repetida, acabará por ser tomada como verdade e de que a Ética e os seus juízos e critérios são coisa desprezível e ultrapassada, devendo ser substituída pelos critérios da eficiência e da eficácia. E a que há que dizer resolutamente NÃO!

Outro ponto relevante é o ensurdecedor silêncio precisamente por parte daqueles a quem supostamente competiria preservar a deontologia e a ética, neste caso jornalísticas, a começar pelo Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas.

Então um jornalista – mesmo que já formalmente o não seja hoje – viola desta forma ignóbil o sigilo das suas fontes, o segredo dos seus contactos e a intimidade e a privacidade com quem, enquanto jornalista, contactou e falou, e o dito Conselho, supostamente guardião da Deontologia, não diz uma palavra?!

O que fará se, seguindo as pisadas e os conselhos deste “autor” – que, depois de há uns tempos atrás se ter declarado merecedor ou capaz de ganhar um Prémio Nobel, até se vangloria de ter inaugurado uma “nova era” – os jornalistas no activo começarem a fazer o mesmo?!

Mas onde a degradação ética atinge o seu auge, e é bem demonstrativa do estado de autêntica miséria moral em que o jornalismo dito de referência está transformado, é no próprio Jornal “Sol” onde o “autor” foi Director e é hoje “Conselheiro Editorial”, seja lá o que isso queira dizer.

Na verdade, na sua edição de 24/9, das 35 páginas relativas à actualidade política e social, 14 (bem mais de 1/3) são dedicadas a tecer loas ao “conselheiro” e à sua “obra”.

Com efeito, da página 4 à 13 temos uma longa entrevista onde este explicita devidamente todos os motivos por que quem tenha o mínimo de respeito por si próprio e pelos outros não deve comprar ou ler a dita “obra”; na página 2 encontramos o artigo elogiativo “O livro proibido – a 3ª face da moeda” da autoria do ex-administrador da Newzhold e actual Director do jornal, Mário Ramires; na página 14 um outro texto justificativo, “Uma saraivada no charco”, do Director-Adjunto da editora Gradiva, Rodrigo Miguel Begonha; na página 13, novas loas à “obra”, estas agora da autoria do Director-Adjunto Vitor Rainho e intituladas “Os novos censores”; na página 27, uma nova referência elogiativa glosando sobre o número recorde de referências e na página 35 um novo texto “Vale tudo (menos revelar o que testemunhámos)” da pena de José Cabrita Saraiva, filho do autor e Director Executivo do semanário em causa.

É obra! 6 louvaminhas e 14 páginas de um semanário para defender o autor da ignomínia mostram bem não apenas a natureza abjecta do livro e da postura moral que ele consubstancia como também aquilo em que jornais, jornalistas e jornalismo que se pretendem de referência se transformaram, não apenas das maiores vulgaridade e boçalidade mas, sobretudo, de “encomendas” e “fretes” (neste caso, de apoio ao chefe)!…

Nota do Director

As opiniões expressas nos artigos de Opinião apenas vinculam os respectivos autores e não reflectem necessariamente os pontos de vista da Redacção ou do Jornal.

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