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Domingo, Outubro 17, 2021

Maria da Anunciação

Beatriz Lamas Oliveira
Médica Especialista em Saúde Publica e Medicina Tropical. Editora na "Escrivaninha". Autora e ilustradora.

Um dia os meus colegas e eu ouvimos batidas fortes na porta da cozinha. A minha mãe não estava em casa. A hora dos vendedores era a da manhã. Estas pancadas que pareciam aflitas assim ouvidas a meio da tarde.
Tínhamos 20 anos.

Estudávamos juntos, diariamente, dois colegas e eu. Estávamos no 3º ano de Medicina. Morava junto ao Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho, que tinha frequentado. Os meus dois colegas, rapazes, tinham feito todo o secundário no Colégio Militar. Ambos tinham escolhido a minha casa e a minha companhia para trabalharmos juntos, e o nosso estudo começava em outubro e terminava depois de todos os exames acabados.

Era o apartamento dos meus pais, cujas traseiras, incluindo a janela do meu quarto davam para o pátio da brincadeira. Ali jogávamos hóquei em patins, à apanhada, ou simplesmente conversávamos com os adolescentes da nossa idade, também vizinhos, sentados no muro baixo, as pernas alegremente penduradas.

Como em muitos outros prédios naquela zona e naquela época, era pela entrada de serviço, acessível desde a rua até essas traseiras por um longo corredor abobadado, que entrava o padeiro a encher o saco do pão pendurado na porta da cozinha, vendedores e vendedeiras que cantavam famosos pregões lisboetas, alguns ciganos com mercadorias dispares. A porteira tinha casa nesse andar térreo do pátio e vigiava os movimentos do prédio, portas e janelas a abrir e a fechar, roupa a estender nos varais, movimentos quotidianos. No nosso prédio, os vizinhos, pais dos nossos amigos, eram engenheiros, médicos, comerciantes abastados, oficiais do exercito de patente elevada.

As mães eram donas de casa e tinham empregada ou mulher a dias a tempo inteiro. De vez em quando uma convidava as outras para um chá, mas ignoro porquê, estes vizinhos nunca se convidavam para jantar. Os filhos, esses sim, subiam e desciam no elevador e entravam em casa uns dos outros onde eram educadamente recebidos e depois seguiam para o quarto dos/as amigas a ouvir música no gira discos, ou a escolher mais um livros nas prateleiras sempre bem recheadas.

Um dia os meus colegas e eu ouvimos batidas fortes na porta da cozinha. A minha mãe não estava em casa. A hora dos vendedores era a da manhã. Estas pancadas que pareciam aflitas assim ouvidas a meio da tarde.

Fomos os três à cozinha e aberta a porta vimos uma criança, uma menina, a cabeça com um cabelo sujo e mal entrançado. A roupa no fio, olhava para o chão, para os pés descalços. Teria uns 8 anos.

Perguntei-lhe se queria comer. Ela acenou que sim. Aqueci sopa no fogão e enchi-lhe um prato. Ficamos a vê-la comer num desespero de fome que nos comoveu. Acabado o prato, perguntei se queria mais. Acenou novamente que sim. Os meus colegas fizeram-me sinal de que comer tanto de uma vez só lhe podia fazer mal. Arranjei um pão com chouriço, prontamente devorado.
Depois conseguiu dizer-nos o nome: Maria da Anunciação.

Vivia num dos bairros da lata perto da zona do aeroporto. Pedia esmola durante o dia inteiro. Andava a pé. Não ia à escola.

Desde esse dia até acabarmos a Faculdade de Medicina ela visitou-nos com regularidade. Comia as sopas que a minha mãe ou a empregada preparava para nós todos, e eu tinha o cuidado de ter sempre reservado atum, chouriço, ovos cozidos, para lhe encher a barriga escanzelada. A Maria da Anunciação começou a crescer. Crescia rapidamente. Os meus colegas e eu avaliávamos espantados o resultado de tanta sopa e tanta sanduíche bem preparada. A minha mãe acedeu a deixar que eu escolhesse roupa que pudesse aquecer a rapariguinha.

Quase no fim da faculdade a Anunciação deixou de aparecer durante uns meses. Mas nós não sabíamos de facto onde ela morava. No bairro da lata as ruas não tinham nome, nem numero na porta. Não podíamos ir procurá-la.

Época dos exames. Voltaram a bater à porta da cozinha. Fiquei com esperança de que ela tivesse voltado.

Aberta a porta, vimos a Anunciação pregada na soleira, braços caídos, envergonhada. Ao lado dela uma mulher forte de idade indeterminada, cavada de rugas como campo lavrado. Saltava à vista a enorme barriga da Anunciação grávida. A mãe vinha pedir ajuda. Ela chorava. Mas nem eu nem os meus amigos estávamos preparados para enfrentar aquela realidade. Não sabíamos o que fazer, desconhecíamos a quem recorrer, não sabíamos sequer que instituições dariam apoio a estes casos. Ainda perguntei:

– E o pai, sabes quem é o pai, Maria da Anunciação?

Encolher de ombros cansado.

– Um qualquer dos que se serviu de mim.

Os meus colegas ainda tentaram indicar, porque conheciam, a Misericórdia de Lisboa.

A mãe da Anunciação abanou a cabeça.

– Eles não querem saber destes casos.

Sentia-me perdida num conflito de sentimentos. Era preocupação, era culpa, era ingenuidade. As minhas mãos estavam vazias e crispadas.

A Maria da Anunciação, magra, pálida, estafada, deu a mão à mãe e puxou-a.

– Eu bem te disse que a menina não ia saber fazer nada.

Ficamos a vê-las afastarem-se pelo corredor que levava à rua. Desatei num choro desabalado. Os meus colegas puxaram-me para dentro, para o quarto onde os livros nos esperavam.

O tempo passou mas nunca te esqueci, Anunciação.

Espero que a vida não te tenha maltratado demasiado.


Por opção do autor, este artigo respeita o AO90


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