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João de Sousa

Quinta-feira, Dezembro 9, 2021

Um refugiado chamado Jesus

Maria do Céu Pires
Doutorada em Filosofia. Professora.

Fuga para o Egipto – Orazio Gentileschi, 1628 (Museu do Louvre)

O que surgia, segundo uma certa leitura, como um castigo -“ serás disperso por todos os reinos da terra”- corresponde, na realidade, ao percurso histórico da nossa espécie, à nossa forma própria de ser. Por razões económicas, por necessidade de sobrevivência face às perseguições de todo o tipo, religiosas, étnicas ou face aos conflitos e às guerras, a presença da espécie humana na terra tem sido caracterizada pelas contínuas deslocações. Procurando melhores condições de vida ou fugindo à morte, caminhamos, deslocamo-nos em busca de lugares seguros e protectores.

A nossa condição biológica de seres não especializados e inacabados também contribui para esta situação uma vez que, diferentemente das outras espécies, estamos aptos à adaptação a diferentes condições do meio natural. Foi o que fizemos ao longo da nossa história, criando as diferentes culturas. A flexibilidade adaptativa da espécie humana e a sua capacidade de aprendizagem garantem uma diversidade de formas de vida que, por sua vez, se vão enriquecendo nos contactos recíprocos. A interculturalidade integra, também, a nossa condição e é inseparável dessa outra dimensão, a de deslocados.

Contudo, esta que é a nossa forma própria de existir torna-se, em determinados momentos, um drama. Quando se depara com a indiferença alheia ou até com os preconceitos mais primários e selvagens. É o que está a acontecer com a actual “crise de refugiados”, aquela que é, segundo a Amnistia Internacional, a maior crise de refugiados desde a II Guerra.

Perante os milhares de mortos por afogamento no Mediterrâneo (3800 em 2014, 3500 nos primeiros nove meses de 2016), perante os milhares de crianças sem acompanhamento (8400), face aos abusos nos campos de refugiados na Grécia e na Hungria, às condições desesperantes nos campos de chegada e aos retornos forçados, constata-se a inação da União Europeia (UE).

A Europa, negando a sua matriz civilizacional, torna-se “fortaleza” em vez de ser acolhedora e espaço de partilha. O acordo EU/Turquia em Março de 2016 é um bom exemplo disso ao transformar os refugiados em “mercadoria”, em algo que a Turquia aceitou receber como moeda de troca para outros favores.

Quando o que está em causa é a vida de milhões de seres humanos, é lamentável (no mínimo) que a Europa esqueça a sua história e também a história da Humanidade!

É, pois, com profunda preocupação que assistimos à retórica anti-refugiados e ao discurso do ódio que, possivelmente, terá influência nos actos eleitorais que se avizinham. Sabemos as consequências que este tipo de manipulação da opinião pública teve no século XX.

A este propósito, seria bom lembrar alguns refugiados “famosos” e, sobretudo o que mais marcou o mundo: o menino, como hoje tantos meninos, que teve de fugir (antes de nascer) para não ser morto, às ordens de um poderoso que apenas queria manter o seu poder; a mãe, como tantas mães hoje, que deixou tudo, a sua terra, a sua casa, para proteger o seu filho. E caminharam em busca de um lugar seguro para viver. Nessa viagem, foram acolhidos e foram protegidos.

É esta lição que nos devia inspirar em 2017: a da humildade do presépio, a do acolhimento, a da solidariedade. É isso que precisamos de voltar a aprender: somos frágeis caminhantes, num caminho onde o Outro é o nosso espelho.

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