Ponta Delgada

Roteiro histórico e cultural II

Aberta entre 1947 e 1956, a Avenida Infante D. Henrique é a marginal de Ponta Delgada. Junto ao Cais Velho, hoje mais distantes do mar do que aquilo que estiveram até à década de 1950, estão as Portas da Cidade

Avenida Infante D. Henrique | Ponta Delgada, Açores

São de 1783, não há viajante que não reconheça os seus três arcos, e são um bom lugar para partir à descoberta.

Se, daqui, olhar para o mar, verá a estátua de Gonçalo Velho, o combatente da tomada de Ceuta, o criado do Infante D. Henrique, com prática de corsário, que, a partir de 1432, terá iniciado o povoamento da Ilha de São Miguel. Atrás de si, o viajante tem a Igreja de São Sebastião, matriz quinhentista da cidade, construída no mesmo lugar onde terá estado uma ermida dedicada ao mesmo santo.

A partir do século XVII, a igreja sofreu restauros que lhe deram a traça barroca, mas o portal da frontaria e outros dois laterais ainda são manuelinos, da autoria de Nicolau e André Fernandes. Da alvenaria trataram Estevão e Brás da Ponte, portadores de um dos apelidos histórico da região. O calcário usado nos portais e colunas foi trazido do continente e somou-se ao basalto da ilha, dando-lhe a uniformidade branca e negra que marca a arquitectura da cidade.

Quase defronte da Igreja de São Sebastião, fica o edifício da Câmara Municipal de Ponta Delgada, obra barroca cujo modelo foi transplantado para outros municípios da ilha. O sino da sua torre sineira terá sido doado pelo rei João III. Bem perto da Igreja, o Café Royal, o mais antigo da cidade. O estabelecimento assinalou os 90 anos em 2016, curiosamente, no dia 20 de Janeiro, data em que a Igreja Católica comemora a morte do santo da igreja em frente.

O café, só pela arcaria da sala principal, já merecia uma visita, mas o Royal tem a sua própria história. Na década de 1960 foi palco de tertúlias políticas, visita de todo o tipo de gente – como ainda hoje é. E quando não havia aeroporto, e a Infante D. Henrique ainda não tinha sido aberta, era pela rua em frente, pela Rua da Alfândega, que se entrava na cidade.

Se pensa em fazer compras, as lojas de comércio tradicional não faltam. Mais estilizado, é o Louvre Michaelense que foi loja de fazendas e chapéus importados de Paris. Esteve fechado, reabriu como mercearia e hoje mantém parte do charme vindo dos tempos da inauguração em 1904. As prateleiras são em pinho resinoso, o chão em azulejos e os estuques restaurados são ao estilo da época. Hoje vende mercearias finas e produtos do arquipélago, dos chás Gorreana a chapéus do Nordeste, mas também café e cereais a peso.

Atenção à rica oferta de peixe

Na rua do Aljube, 16, mais para o interior, mas não excessivamente, que aqui tudo fica perto, também pode experimentar A Tasca. Mesas e bancos grosseiros, para uma carta rica em petiscos. Inhame, ananás, batata-doce, a pimenta da terra, que até dá outro sabor ao queijo fresco, são alguns dos ingredientes e temperos ilhéus que poderá experimentar.

Um lugar para refeições, é o Mercado do Peixe. A entrada principal fica abaixo do nível da Infante D. Henrique e o peixe açoriano (moreia, peixe-rei, boca-negra e o mais que calhar) inunda o cardápio – grelhado, cozido em caldeiradas, em cataplana. Refeições atlânticas, numa sala marcada pela arcaria de lava. Não muito longe, na Rua Hintze Ribeiro, nº 38, fica a Tasca do Mário, ou Lisboa Menina e Moça, que aos fins-de-semana até tem fados.

Se preferir uma refeição caseira, e se tiver onde a preparar, passe pelo Mercado da Graça, na Rua do Mercado, 95, inaugurado em 1848. Nenhuma cidade fica conhecida se não conhecer os lugares do quotidiano dos seus habitantes. Os produtos agrícolas das ilhas e queijos fazem parte da oferta.

A digestão pode ser feita em passeio no centro da cidade. Passe à escola secundária Antero de Quental, cujo traço arquitectónico actual é o resultado de sucessivas adaptações feitas ao Palácio da Fonte Bela, concluído em 1833 e instalado no lugar onde ficava o Paço dos condes da Ribeira Grande, antigos capitães-donatários da ilha. No terreiro, três grandes araucárias. Bem perto, o jardim dos Mártires da Pátria, palco de manifestações pela autonomia e independência das ilhas, no pós-25 de Abril. Aqui fica também o Centro Municipal de Cultura de Ponta Delgada.

Sem qualquer critério de proximidade, não se esqueça de passar na Avenida Roberto Ivens, onde fica o Coliseu Micaelense, inaugurado em 1917, que teve como base e modelo o Coliseu dos Recreios lisboeta. No Largo do Colégio, a Igreja e o Colégio dos Jesuítas, começaram a ser construídos em 1593. O negro predomina na fachada. No interior do templo, de uma só nave, atenção à decoração barroca e atenção à talha dourada. Olho atento ainda às pinturas. Como A Coroação da Virgem de Vasco Pereira Lusitano, pintada em Sevilha em 1604. Neste complexo, estão também instalado o Arquivo Regional e a Biblioteca Pública de Ponta Delgada.

Museu Carlos Machado

Na freguesia da Matriz, fica o Museu Carlos Machado, que ocupa o edifício do antigo convento de Santo André, primeiro padroeiro da cidade. O museu foi inaugurado em 1880, nas comemorações do tricentenário da morte de Camões e os claustros e o jardim fazem parte imprescindível da visita. As mostras etnográficas apontam para as actividades pesqueiras e agrícolas do arquipélago. Pintura, escultura e arte sacra dominam a oferta artística. Entre as pinturas, destaque para Marciano Henriques da Silva, o pintor micaelense do rei D. Luís, as cenas locais, de Domingos Rebelo (1891-1975) ou as esculturas de Ernesto Canto da Maia (1890-1981).

Uma viagem a Ponta Delgada, não pode falhar os jardins. O Jardim António Borges é um jardim do século XIX, ao estilo romântico, com grutas, mirantes, lagos, muros e caminhos. Em 1957, os herdeiros de António Borges da Câmara Medeiros venderam-no à autarquia tendo então passado a ser o Parque Municipal da Cidade. O exuberante arvoredo tem várias espécies autóctones mas também exóticas, uma grande maioria vinda da Austrália e da Nova Zelândia. O vale dos fetos e uma impressionante árvore-da-borracha são apenas alguns dos elementos a merecer a atenção do visitante. Outro jardim imperdível é o da Casa Canto da Maia, antiga propriedade dos Brums. Araucárias, criptomérias, sequóias e as maiores árvores-da-borracha nacionais fazem parte da colecção.

Depois de aproveitar o dia, pense na noite. A Avenida Infante D. Henrique é o principal eixo nocturno da cidade. As Portas do Mar, na zona onde estiveram durante décadas as piscinas oceânicas, são da autoria do arquitecto Manuel Salgado. Inauguradas em 2008, modernizaram a orla marítima da cidade. Além do porto de navios de cruzeiro e da marina, há as lojas, os bares, restaurantes. Muitos estabelecimentos de diversão, com o mar nas costas.

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