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Quarta-feira, Outubro 5, 2022

À memória de Américo Mascarenhas

José M. Bastos
José M. Bastos
Crítico de cinema

Um amigo do Festival de Cinema da Figueira da Foz que também passou pelas páginas do TORNADO

Há uma semana a minha amiga Isabel Santos, companheira de muitas horas de trabalho (pro bono) no Festival de Cinema da Figueira da Foz, dava-me a triste notícia da morte do Américo Mascarenhas.

Pus-me a navegar na internet e rapidamente descobri que ele tinha contribuído para enriquecer as páginas do TORNADO ainda antes de eu ter aderido a este projecto.

E daí a evocação de um amigo e, à sua boleia, de algumas recordações dos templos gloriosos da minha iniciação nas festas do cinema.

Conheci o Américo no início dos anos 80. Eu já andava pelo Festival da Figueira havia alguns anos. Ele vinha das suas deambulações por Inglaterra, Franças e Araganças e falava-nos, a mim e aos meus numerosos companheiros do “curso intensivo de cinefilia” que era o festival da “Praia da Claridade”, de outras músicas e das suas experiências radiofónicas. Falava das rádios piratas que em Portugal estavam no seu início. Julgo que o Mário Moutinho que fazia parte dos indefectíveis da Festival da Figueira também se iniciava, no Porto, nas mesmas lides radiofónicas (clandestinas, mas julgo que toleradas).

Ao longo dos anos, e fruto da sua “formação” cosmopolita, o Américo, que entretanto passara a ser jornalista encartado, seria um “relações públicas“ oficioso do festival. Os inúmeros convidados estrangeiros que acorriam à Figueira encontravam nele um interlocutor poliglota e conhecedor das áreas da cultura (do cinema e da música, em particular) mas também um tipo extrovertido, amante das tertúlias e da noite, pronto a desencaminhar os visitantes e a roubar-lhes horas de descanso.

Américo Mascarenhas e Zé Luis na Rádio Livre Internacional

De manhã ninguém o via. Muitas vezes aparecia de braço dado com a mãe para almoçar no Nicola ou no Europa. À tarde, nos intervalos entre as sessões, era vê-lo nas esplanadas em frente ao Casino, na mesa ao lado da do Pedro Bandeira Freire, do Manuel Paes de Sousa e do Eduardo Prado Coelho, a fazer companhia aos mais sossegados (André Delvaux, Tachella, Jan Troell, Marguerite Duras, Samuel Fuller, Delphine Seyrig, Chantal Ackerman, Corbiau, ou outros que tais).

Noite fora, a conversa era outra. Tínhamos a sopa de cebola do DOX e os copos do Bergantim. As companhias eram outras. E, conforme os anos, podiam ser, por exemplo, Amos Poe, Werner Nekes, Richard Newton, Rick Schmidt (que nos haveria de ensinar como fazer um filme pelo preço de um automóvel em segunda mão), ou os inclassificáveis Zoe Lund – vinda do universo de Tarantino – e o octogenário, mestre do underground, Jonas Mekas.

Ao lado disto tudo o nosso querido Zé Vieira Marques roidinho de inveja a pensar com os seus botões: “Então, ando eu, por esse mundo fora a descobrir filmes e realizadores para virem à Figueira, e aqui chegados, é o Américo que lhes faz companhia…”

O Américo era assim. Nunca deixava as coisas pela metade. Metia-se nas coisas a fundo. E era um “amigo do Festival”. Só o abandonava, por umas horas, para ir “fazer” os jogos da Académica ou da Naval 1º de Maio para o “Comércio do Porto”, “A Gazeta dos Desportos”, o “Jornal de Notícias”, “O Jogo”, o “Diário de Coimbra” ou outro dos periódicos em que trabalhou.

E ainda lhe sobrava tempo para irromper, com a sua voz rouca mas tonitroante, pelo Secretariado onde o Fernando Mateus cantarolava enquanto fazia o “Boletim” diário, a Bé (Isabel Santos) se desfazia em contactos para garantir alojamentos e refeições para os convidados, o Américo Santos (que haveria de criar o Cineclube da Feira e o Festival Luso-Brasileiro e que muito recentemente nos devolveu, no Porto, o Cinema Trindade do nosso contentamento) tratava de vários trâmites administrativos, a Cecília Vieira Marques ligava para a Índia de onde viria um filme que devia passar na Figueira no dia seguinte, e o Armando Caramelo e o Zé Vieira Marques tentavam inventar uma programação para as horas seguintes.

O Vasco e “a sua trupe” carregavam com as latas dos filmes. O Tó Soares e o Rui Mateus iam filmando o Festival e o Nuno e a Catarina (com os seus cinco ou seis anos de idade) passavam o tempo numa arrecadação do Casino a rasgar papel de festivais anteriores. Mais tarde, o Fernando Galrito haveria de lhes ensinar os fundamentos do cinema de animação. Ah, é verdade… de vez em quando entrava o João Crespo (que com a Zita, o Rodrigo, o Humberto e outros) já tinha traduzido as centenas de páginas do catálogo e por isso só vinha perguntar se estava tudo bem…

E para terminar esta evocação que serviu para mergulhar um pouco mas minhas memórias que,  tenho consciência e por isso peço desculpa, pouco interesse terão para os leitores, mais duas histórias do Américo Mascarenhas.

Em 1992, o ano de Samuel Fuller e Maria de Medeiros, o Festival da Figueira fez uma extensão (com a exibição de vários filmes) na Universidade de Coimbra. Houve visita dos convidados à Biblioteca Joanina, à Sala dos Capelos e à Reitoria, onde o escriba destas linhas, à falta de outro voluntário, teve que fazer um discurso de agradecimento ao Vice-reitor Prof. António Brojo, grande mestre da guitarra coimbrã. Quem andou durante meses a estabelecer contactos com a Universidade para garantir a extensão e a visita? Esse mesmo, o Américo Mascarenhas.

Num outro ano houve uma visita dos convidados do Festival às Caves de Vinho do Porto em Vila Nova de Gaia. Na véspera da visita o director Zé Vieira Marques encomendou a alguém a tarefa de impedir o Américo de embarcar, não fosse ele desestabilizar o grupo. Pela manhã, seriam umas sete horas, andava o mesmo Zé a procurar alguém que fosse acordar o Américo… Afinal ele era a companhia que os convidados do Festival mais apreciavam.

E pronto. Aqui fica uma lembrança de alguém com quem, durante vinte e cinco anos, privei durante dez dias do mês de Setembro. Não o vi nos últimos quinze anos… desde que o Festival da Figueira acabou. Recebi a notícia da Isabel Santos como se tivesse estado com o Américo há uns dias. Serão estas as verdadeiras amizades?

Até sempre, Américo Mascarenhas.

Nota: As fotos que ilustram este texto foram retiradas do Facebook do Américo Mascarenhas e da página na internet dos “Caminhos do Cinema Português”

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