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Domingo, Fevereiro 25, 2024

Carlinhos, o Charmoso

Eduardo Águaboa
Eduardo Águaboa
Escritor, Ensaísta, Comentador político especializado em ideias gerais

eduardo-aguaboaJá um bocadinho crescidos não falhavam um baile aos Sábados. Onde dançavam e cantavam toda a noite.

Carlinhos Fontes era guitarrista e cantor.
Sandro dava-lhe na bateria.
Miguel era quem mais dançava e dava uns toques na concertina.

Mas a maioria da maltosa que ia aos bailes onde eles estavam era para ouvirem aquele que lhes fazia bater os corações, o Carlinhos.

Quando ele chegava a multidão gritava:
-Chegou o Carlinhos! Chegou o Carlinhos!
Carlinhos, de sua alcunha, o charmoso.

Carlinhos o charmoso!

Sempre um vencedor, umas vezes parecendo indiferente, sem coração, dando ares de galã, mas nunca sem ternura para com as fãs.

Por toda a parte havia uma canção que festa alguma passava sem ela:
-Sedução intensa! Era um sucesso daqueles digno de vencer o festival Eurovisão. Pelo menos o povo da região assim pensava e acreditava piamente.

Carlinhos Fontes, mas que toda a gente o tratava por Carlinhos Charmoso foi quem a criou. Uma canção com ares da América e um ritmo de constituir família. O chamado slow.

As mulheres, todas, eram loucas por ele.
A mulher do padeiro lá da aldeia fechava todas as terças à tarde para ir visitá-lo a casa.
A mulher do médico que era uma santa aos olhos do povo e do marido e que jamais o enganava, também o visitava pela socapa.
A loura Elisa…de vez em quando…
A viúva do sargento da GNR deixou de usar o luto, alegando que detestava o preto, mas a questão era outra.

Carlinhos

Todas, garanto-vos, da aldeia e dos arredores amavam o cantor que não sabia dizer «não sei» quanto mais ficar-se pelo «não».

A sua namorada, cujo nome aqui não se revela a seu pedido, tudo tinha de suportar porque Carlinhos amava demais a liberdade.

Até que um dia a filha de um cidadão da aldeia nascida em França, veio de férias e num gole de Martini e num golpe de amor, propôs-lhe, sem palavras inocentes, que fosse com ela para Paris.

O Olimpia seria dele. Gravar “disques” era «três facile».
– Vem comigo que terás mais sucesso que os Aznavour’s, que as Dalidas, os Alain Delon, os John Holidays….

Corou e foi corado que agradeceu e aprendeu a dizer «oui».

E uma tarde na estação de comboio eis o povo das redondezas todo por lá, acenando com os lenços e com os corações chorosos sofridos pela partida. Carlinhos Charmoso partia para conquistar a França, a Europa, quem sabe, mais tarde a América. Os dois amigos de percurso ficaram para trás a trautear a Sedução Intensa.

Quando o comboio desapareceu no meio de fumarada muito negra o povo regressou às suas casas e o dia seguinte nenhuma aldeia parecia a mesma.

A mulher do padeiro nunca mais acendeu o forno a lenha.
A do médico, por desespero, arranjou múltiplos amantes.
A do sargento fechou as persianas da casa e recusou-se a ver pessoas. A cama passou a ser perfeita só para o soninho.

E como mudaram as vidas as pessoas…ainda por cima, aquela história em vez de acabar logo ali, teimava em só ir acabando aos poucos. Só a namorada se manteve firme em esperança.

Os anos passaram.

Oito verões, oito primaveras, oito invernos. Estaria mais gordo ou Paris estaria a engordar à custa dele? Oito anos de ingrato silêncio.
“Não notícias” significavam “boas notícias” – já assim se pensava na época. Embora hoje se diga “No News”… “good news”.

Foi preciso coragem e muito tempo para por cá as pessoas conseguirem sobreviver sem ele. Apesar de tudo os bailes continuaram, embora não faltasse nunca a canção Sedução Intensa, agora a cargo do Sandro e do Miguel. Só que lhe faltava a ternura da voz, do gesto, do corpo e do «élan» do Carlinhos Charmoso. Não era rigorosamente a mesma coisa, mas dava para dar umas voltas nas pistas e não deixava «morrer» o seu criador.

A namorada nunca dançava com ninguém. Ficava por ali sentada a observar e a recordar.

Uma bela noite, numa aldeia bem distante da sua, em pleno salão de baile, ela sobressaltou-se:
– És tu Carlinhos? És tu que estás aí no escuro da sala?…espera…deixa-me olhar bem para ti…mas tu…tu…choras Carlinhos…estás a chorar Carlinhos…

De facto, as coisas por França não tinham corrido nada bem. Passou a vida a combater moinhos que lhe pôs o corpo a consumir álcool. Lá era conhecido pelo Carlinhos Artolas. Foram, já se vê, muitas mágoas a correrem pelas ruas da amargura.

– Ó meu amor, o que é que os franceses entendem para além do rock e do twist? Nada, meu amor, nada…como foi possível tu teres acreditado poderes vir a ser o Carlinhos Charmant? Tu és Carlinhos Fontes, homem de aldeia portuguesa, produto da terra. Ouve, pega na guitarra…o Sandro e o Miguel estão no palco…não? Queres ir embora? Mas tu estás em tua casa onde és rei…ouve-los? Estás a ouvi-los? Entoam a tua canção…vai para lá, canta Carlinhos, canta, é o teu público…canta para eles Carlinhos, canta para mim que jamais te abandonei…sim, vai, Carlinhos, bravo Carlinhos Charmoso…

Foi a apoteose…oito anos depois, o salão de baile “Ora Roda A Saia” foi o seu Olimpia…

E finalmente sentiu um grande alívio, como se tivesse subido a escada de Jacob…e pendurou a ideia de voltar a sair do país num estendal da roupa.
E a dor do povo apagou-se sozinha.

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