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João de Sousa

Domingo, Julho 21, 2024

Contextos e negacionismos

Paulo Casaca, em Bruxelas
Paulo Casaca, em Bruxelas
Foi deputado no Parlamento Europeu de 1999 a 2009, na Assembleia da República em 1992-1993 e na Assembleia Regional dos Açores em 1990-1991. Foi professor convidado no ISEG 1995-1996, bem como no ISCAL. É autor de alguns livros em economia e relações internacionais.

Vivemos confortados com a ideia de que Hitler era doido, no sentido de ser alguém fora do comum, mas a verdade é que a generalidade dos seus crimes e atoardas não primaram pela originalidade e, sendo monstruosos, não foram infelizmente invulgares.

A título de exemplo, o gaseamento dos judeus foi proposto como forma de a humanidade se ‘livrar desse incómodo’ pelo Kaiser Guilherme II, em 1919, inspirado nos célebres Pogroms russos, e esses pogroms, que nós conhecemos do Portugal quinhentista, continuaram até hoje, como vimos a 7 de Outubro.

Construímos a ficção de que o mundo civilizado virou essa página com o holocausto, mas basta atentarmos à história da Polónia – que o governo polaco proibiu de ser citada – para vermos que os judeus que quiseram voltar à sua terra em 1946 foram alvo de pogroms, para não falar da continuação da perseguição generalizada a quem encetasse a fuga para Israel.

E tal como Hitler se seduziu pelo antissemitismo do fanatismo islâmico, e também aqui penso que não se tratou de nada de original nem sequer de especificamente alemão, também nas sociedades ocidentais se permitiu que o mesmo sentimento se desenvolvesse depois dessa era, nem tanto pelo lado do culto da força cega, mas mais pela mesma lógica da síndrome de Estocolmo, espalhada no mundo livre, incluindo, e por vezes mais acentuadamente ainda, em Israel.

Auschwitz (Pixabay)

Conseguiu Israel, por vezes de forma quase milagrosa, sobreviver até hoje, como em 1948, em que perante a hostilidade do mundo árabe e ocidental, a União Soviética permitiu a sobrevivência do novo Estado apoiando camufladamente o seu armamento, (as Nações Unidas decretaram um embargo ao armamento, embargo instigado pela diplomacia americana).

Isso não impediu que se construísse a ficção de que o novo Estado era uma imposição ocidental, no meio de infindáveis distorções históricas e étnicas que se tornaram hoje doutrina oficial com o objectivo de deslegitimar Israel.

Um dos mais conhecidos argumentos de Hitler para justificar a guerra e o genocídio dos judeus, escolhido para título de um dos capítulos do livro de Edouard Husson ‘Heydrich e a solução final’, 2008, p. 191, Perrin) e proferido a 22 de Agosto de 1939 foi ‘Mas quem fala ainda, hoje, do aniquilamento dos arménios?’

A frase de Hitler foi proferida duas décadas depois do genocídio arménio, mas a limpeza étnica dos arménios de Nagorno Karabakh levou apenas quinze dias a ser esquecida e a ser substituída por uma narrativa completamente distorcida da realidade para justificar as barbaridades jihadistas do Hamas.

E não, agora, não foram milícias nazis, foram amálgamas onde pontificaram jovens estudantes universitários supostamente bem formados e humanitários, mas na verdade completamente alienados.

Em 2005, Israel resolveu abandonar e entregar ao controlo palestiniano o território de Gaza. A secção local da Irmandade Muçulmana, depois de ter ganho por escassa margem as eleições organizadas em 2007, tomou o poder absoluto e assassinou os seus rivais da OLP.

Com o apoio da Agência das Nações Unidas para os Refugiados – como o denunciou recentemente o palestiniano Bassem Eid na Newsweek – o Hamas dedicou-se desde então à fanatização da sociedade, a começar pelas crianças e pela juventude e à construção de um mundo subterrâneo de ciclópica extensão para alojar a sua infraestrutura de terror; ao rearmamento, agressão e à supressão de todas as liberdades e garantias.

Promoveu ataques sucessivos contra Israel e a população civil de Gaza, sempre seguidos de tréguas sistematicamente quebradas por ataques de maior envergadura.

A sucessão de negócios ocidentais de libertação de terroristas iranianos e de pagamentos bilionários ao Irão contra a libertação de reféns foi a principal mola que conduziu ao massacre de 7 de outubro. Com mais de duas centenas de civis na mão, incluindo bebés, ninguém ousaria punir a orgia de sangue a que se entregaram, assim pensaram os dirigentes do Hamas confortavelmente instalados em Doha, na capital do Qatar.

Os cálculos saíram um pouco errados, mas não totalmente errados, estando ainda por saber onde vai acabar mais este episódio da guerra do fanatismo contra a humanidade.

Por que se trata de uma guerra contra a humanidade! Estes massacres começam sempre com os judeus, mas nunca acabam apenas com os judeus.

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