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Terça-feira, Maio 28, 2024

Vamos ao Cinema “Águia” (Cine-Teatro mágico) para a eternidade da infância – III

Delmar Gonçalves, de Moçambique
Delmar Gonçalves, de Moçambique
De Quelimane, República de Moçambique. Presidente do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora (CEMD) e Coordenador Literário da Editorial Minerva. Venceu o Prémio de Literatura Juvenil Ferreira de Castro em 1987; o Galardão África Today em 2006; e o Prémio Lusofonia 2017.

“Falta-nos, claramente, tempo para uma aprendizagem da aprendizagem.”
DMG

Como Quelimane é uma cidade pequena, eu facilmente ficava a par dos filmes mais recentes que corriam no Cinema Águia, através dos cartazes espalhados junto ao Riviera, ao Meireles e aos Correios de Moçambique ou pela rádio os anunciavam também.

As comédias de Louis de Funés, Belmondo, Franco Franchi, Mario Moreno, Mehmood e Charlie Chaplin eram os meus filmes favoritos. Por vezes, aventurava-me e ia um pouco mais longe e assistia aos filmes interditos aos menores de 18 anos, como os do Bruce Lee, Charles Bronson ou Alain Delon.

O  “Notícias”, Jornal mais importante daquela época, costumava publicar anúncios com horários e cartazes de todos os filmes em estreia que passavam nos cinemas das cidades do país e eu costumava a recortar e colar num caderno, os que mais gostava.

Sabia de cor e salteado, os nomes de todos os actores e directores de cinema dos filmes que assistia, e hoje, anos mais tarde, ainda consigo lembrar-me dos nomes de todos os actores (e, por vezes, dos directores) de quase todos os filmes das décadas de 1960, 1970 e 1980.

Estava bem servido em matéria de cinema, por culpa do meu irmão mais velho Belmiro, já falecido, que trabalhava para pessoas dessa área, pintando cartazes ou projectando filmes no “Águia”  e no “Estúdio”, mas ia quase sempre solitário ou arrastado por ele. Sempre tive grupos fixos e restritos de amigos, com quem frequentei a catequese, estudava, jogava futebol e basquetebol, assistia futebol (sobretudo os jogos do meu Sporting, depois Palmeiras e agora novamente Sporting), namoriscava e por vezes também ia ao cinema com eles. Mas, preferencialmente costumava ir sozinho para me escapar do mundo real durante horas.

Havia livros certamente, que ofereciam outras formas melhores de escapar, mas livros tinham que ser lidos em casa ou na belíssima Biblioteca Municipal, por vezes eu queria sair de casa e entrar na outra vida solitária, diferente, sonhar no completo “anonimato” privado de uma sala escura de cinema.

Em Quelimane, os carros eram poucos, e eu  pertencia à maioria dos que caminhavam, andei por toda a cidade a pé. E  andei muitas vezes com a minha bicicleta Humber, que o meu pai me oferecera. Mas, era complicado levá-la comigo para onde ia.

As caminhadas normalmente terminavam no mundo mágico do cinema! O Águia ficava a quinze, vinte minutos de caminhada a partir do Bairro administrativo, próximo do Torrone Velho, onde vivíamos naquela altura, e depois do espectáculo da tarde, eu costumava voltar para casa andando ao longo da cidade onde reparava em todos os pormenores (jardins, prédios, casas velhas, casas novas, ruas, etc). Depois, tinha as noites estreladas, adicionando aos meus sonhos de um mundo perfeito com “estrelas” e “heróis”, onde “bailarinos”, “dançarinas”, “cowboys” cantando, “guerreiros” com espadas e belíssimas mulheres reinavam supremos no firmamento. Eu não era apenas um sonhador. Iria um dia concretizar os meus sonhos e viajar!

Durante os intervalos de dez minutos do filme principal em exibição, o projeccionista e o assistente costumavam tocar vários discos no gramofone, ou cassetes de música no gravador em benefício do público. Felizmente a gerência tinha vários, de filmes muito populares e o público não se cansava de escutá-las em todos os espectáculos.

Antes de iniciar o filme propriamente dito, exibiam documentários dos próximos filmes a serem exibidos ou os famosos Kuxa-Kanema, que davam notícias sobre o que se passava por todo o país.

Em casa, nós tínhamos uma boa colecção de discos de gramofone de alguns filmes de sucesso indianos como “Sofrimento de Amor”, “Bobby” ou “O eco”, oferecidos ou comprados pelos meus país, parentes ou amigos.

Minha mãe sempre gostou de cinema, mas deixou de frequentá-lo desde que se iniciaram as rusgas, infelizmente, cada vez mais frequentes nos cinemas. Nessa altura, ter-se-ão perdido muitos amantes da sétima arte.

Durante as minhas férias escolares, eu assistia aos filmes em dias alternados. Três, quatro dias eram a  média em que a maioria dos filmes corriam nas salas de cinema. O senhor Costa, o porteiro não era um homem muito simpático ou comunicativo, mas eu acho que gostava muito de mim, com a cumplicidade do meu irmão, e normalmente com sorriso e aceno de mão, ele costumava indicar que a liberdade na sala de cinema era minha quando transpunha a porta.

Será que qualquer amante de cinema podia pedir mais do que isso?

Eventualmente, terminaram os meus dias mágicos do grande ecrã no Águia, pois fui levado pelo destino para Portugal, onde as minhas idas ao cinema entraram num grande declínio e a própria magia se perdeu.

Até hoje vivo encantado com a descoberta do cinema como via do sonho. O desencanto talvez, tenha a ver com a perda de magia do próprio cinema, dos actores, das actrizes, dos guiões e do encerramento ou desaparecimento gradual e quase irreversível das clássicas salas de cinema.

Chegado à Lisboa, ainda vi no antigo cinema Camões no Chiado (onde depois passaram a exibir apenas filmes pornográficos, com a imagem de decadência estampada, alguns filmes de Bollywood, com dharmendra, Amitabh Bacchchan, Dilip Kumar e Rajesh Khanna sempre com pouco público; felizmente mais tarde viria a ser salvo e rebaptizado Cinema Ideal até hoje onde correm filmes alternativos europeus e asiáticos com algum sucesso. Depois, tive ainda oportunidade de ver “O Dragão Ataca” de Bruce Lee, numa antiga sala de cinema na Parede, posteriormente demolida, e actualmente transformada em Centro Comercial e finalmente no Atlântida Cine em Carcavelos (dentro de um Centro Comercial), onde vi algumas comédias americanas.

Deu para matar algumas saudades (não muitas), e por tudo isto ainda hoje o recordo.

E tudo começou no Cine-Teatro Águia, na longínqua cidade de Quelimane em Moçambique.

A verdade é que este cinema ardeu. Como pode uma pequena cidade sobreviver sem um Cine-Teatro?  Como pode uma cidade com tão pouco, desvalorizar o pouco que possui e é mais-valia?


 

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